Contra o radicalismo, grupos abrem espaço para debate nas redes sociais

Grupos buscam conscientizar seus membros para que as discussões ocorram de forma pacífica

Jornalismo On-Line
Sep 4, 2018 · 7 min read

Marcelo de Castro
Samantha Fernandes
Verônica Gonzalez

No primeiro trimestre deste ano o facebook atingiu cerca de 127 milhões de usuários ativos mensais no Brasil, de acordo com a pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em época de eleições, os debates e a propagação à favor ou contra partidos e candidatos se fazem presentes nas timelines da rede social. Por um lado, o facebook abre espaço e facilita o acesso à grupos criados para divulgar suas ideologias, conseguindo inclusive agregar mais pessoas com os mesmos ideais. Porém, com as divergências de pensamentos, muitas vezes ocorrem discussões ofensivas aos que possuem opiniões contrárias, e então o que era para ser um debate saudável acerca de ideias diferentes sobre política, torna-se uma batalha de agressões ofensivas, conhecida também como: discursos de ódios.

A mestre em ciência política Alessandra Lopes Camargo, diz que as redes sociais são ferramentas importantes e que facilitam os debates, mas “como todos os outros mecanismos, possui obstáculos e limitações”. Ela afirma que um desses problemas pode ter haver com a forma em que se faz um debate político, pois, ”se levarmos em consideração, quando as pessoas se encontram, elas também se xingam, ao invés de debater os conteúdos de suas ideias, acabam partindo para agressão verbal e uma desmoralização da imagem pessoal, dos oponentes de ideias. Então não importa o meio pelo qual as pessoas estão debatendo, mas se elas sabem ou não do que se trata um debate, acerca das ideias que são convergentes ou divergentes”.

Ainda de acordo com ela, as pessoas têm uma baixa densidade cidadã, “a falta de aprendizagem e de experiência com o diálogo e o debate democrático, é muito pouco testado no Brasil. As redes sociais podem facilitar isso, na medida em que elas ligam pessoas. Mas, como todos os outros meios do mundo virtual tem uma forma específica de ser montada”. Os algoritmos das redes sociais exibem conteúdos de forma personalizada para cada indivíduo, o que segundo a cientista restringe a capacidade de se ligar à outras pessoas. “Neste sentido, se agrega um segundo ponto limitante dessa história toda do debate sobre política, que é o mecanismo que as redes sociais funcionam”, completa.

Alessandra Lopes - Cientista Política

Os grupos criados no facebook para defender ideologias e partidos, fazem parte dos direitos de garantias fundamentais dos cidadãos brasileiros, é “a possibilidade de expressarem suas opiniões, se organizarem livremente sem autorização do poder público e se manifestarem” destaca a especialista.

Os discursos de ódios em que nos deparamos ao acessar as redes sociais, são discriminatórios, Alessandra explica que “a discriminação é uma atitude inconstitucional. Você mobiliza diversos tipos de descriminalização com o objetivo de menosprezar, menorizar, de maneira intencional uma outra existência”. Isso é crime, “não há que se falar em liberdade para aqueles que discursam contra a liberdade dos outros”, conclui.

GRUPOS EM REDES SOCIAIS PODEM SER A SAÍDA PARA A FORMAÇÃO DE OPINIÕES

A presidente da página do facebook ‘União da Juventude Socialista (UJS) Santos’, Aline Cabral comenta que essa é sua principal ferramenta de divulgação.

Segundo ela, em período eleitoral sempre aumenta o debate, “e é muito saudável pois acreditamos que o jovem e o Brasil precisa discutir mais isso. É o momento de intensificar e mostrar que a saída é uma política feita por jovens, mulheres, pessoas LGBT, no meio político de fato, e que tenham sim pessoas com ideias diferentes. É bom que exista essa discussão pois assim crescemos com a disputa de ideias, tudo que foi mapeado de problemas para pode sair das perspectivas’’, ressalta.

Aline também destaca que as redes hoje são alguns dos principais canais de comunicação, possuindo pontos positivos e negativos. Por um lado são ótimas ferramentas, pois de acordo com ela “temos mídias manipuladas, e as redes sociais são uma saída para isso”. Nos negativos, “tem a grande geração de fake news e falta do aprofundamento da questão política, páginas com um perfil mais conservador fazem um discurso raso e conseguem ter uma crescente e não aprofundam o debate com as pessoas”, completa.

Após uma marcha convocada através das redes sociais, se fundiu a página Direita São Paulo (DSP), de acordo com o vice-presidente da página e estudante de relações internacionais Douglas Garcia. Ele afirma que nos últimos quatro anos, houve o crescimento exponencial da mídia alternativa, que vem substituindo a imprensa comum, “que entrou em claro descrédito perante a opinião pública”.

De acordo com Garcia, a mídia durante estes dois últimos anos pelo menos, “tem se revelado estar totalmente voltada e sincronizada com as pautas ‘progressistas’. Raramente a imprensa tradicional nos dá espaço e, em boa parte dessas raras vezes, deturpa ou distorce o que foi dito, razão pela qual sempre filmamos ou gravamos as entrevistas concedidas por nossos coordenadores para que possamos dispor integralmente aos nossos seguidores nas redes sociais”.

Para ele, é nítido que “a lei de oferta e procura também tem se estabelecido na mídia como um todo. Isso é muito saudável porque os brasileiros, com o advento das redes sociais, ganham em qualidade de informação e podem formar melhor suas opiniões e atitudes em relação ao caos pelo qual passamos”.

A página do Fórum Cidadania de Santos no facebook foi criada há dois anos, de acordo com o coordenador Célio Nori, o intuito da criação da página foi “tornar nossas ações mais conhecidas”, informando e influenciando. “Chamar as pessoas para participação, porque o propósito da nossa ONG é justamente fomentar a participação organizada da sociedade em relação aos interesses público”, completa Nori.

Para a colaboradora Maria Cida, o Fórum da Cidadania de Santos serve como um radar para a cidade e sua participação é aberta a todos, o Espaço da Estação da Cidadania está disponível para todas as discussões que envolvam democracia e participação. Ela comenta que os temas publicados na página são de veículos de confiança, e também publicam opiniões de autores que escrevem e enviam textos. “Como sou jornalista, tenho orientado a todos e todas para checar a veracidade das notícias publicadas. Acompanho isso muito de perto” completa.

A administradora do grupo Política Regional da Baixada Santista, Kátia Figueira de Oliveira conta que apesar do grupo servir como fonte de informação, ele costuma ser mais ativo em período eleitoral e aí sim acaba influenciando membros indecisos que ainda não sabem em quem votar. “O que tiver o melhor argumento consegue conquistar bons votos.” completa.

Segundo ela, já houveram debates bem acalorados no grupo. “Isso geralmente acontece quando uma pessoa quer impor sua verdade ao grupo e é contrariado, ou quando divulgam um candidato e eleitores de outro candidato passam a contrapor aquela postagem. Mas todos são alertados que ofensas e ameaças não são permitidos no grupo, assim como qualquer tipo de preconceito. Os debates devem seguir sempre a linha do respeito” completa.

Ela ainda ressalta sobre os fakes news que ocorrem, e como administradora do grupo é sua responsabilidade combatê-los. “Boatos não são permitidos, e o membro que postou recebe um alerta sobre a postagem, informando que ela será excluída do grupo” afirma.

ATENÇÃO NAS REDES SOCIAIS

A jornalista e social media Rosa Santos, explica que o “único jeito de identificar as fake news é checando sua veracidade. Há inúmeras formas de se certificar se uma informação é verdadeira ou falsa. Basta perder alguns minutos antes de sair compartilhando ou comentando, especialmente quando é algo que está viralizando nas redes sociais”.

Ainda de acordo com Rosa, fake news em tempo de eleição sempre existiram. “Porém, antigamente elas ocorriam no boca a boca, via panfletos sem identificação ou por qualquer outro meio semelhante. A internet e, principalmente, as redes sociais potencializaram essa prática. O estrago é infinitamente maior porque o número de pessoas alcançadas é gigantesco. Além disso, a informação falsa se espalha numa velocidade arrasadora, causando sérias complicações”.

As redes sociais são, frequentemente, espaços para pseudo juízes, pessoas que se acham no dever ou no direito de julgar, criticar ou ofender o outro como se não houvesse consequência. Porém, é importante frisar que há sim como identificar e punir aqueles que propagam discursos de ódio ou qualquer manifestação racista ou preconceituosa.

Rosa Santos - Jornalista e Social Media

Ela afirma também que as pessoas têm de se informar por todos os meios, nunca exclusivamente por redes sociais. “Há inúmeros veículos de comunicação sérios e qualificados, que trazem informações checadas com diversas fontes antes de serem publicadas. Também há sites bastante sérios voltados especificamente para ajudar o eleitor durante o processo de escolha dos candidatos”. Em sua opinião, “esses grupos servem apenas pra ser observados, para que se perceba como as conversas acontecem e se há propagação de notícias falsas. Isso diz muito sobre o candidato ou partido a que estão ligados”.

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