Políticos não enxergam aumento da terceira idade nas urnas
Por Daiene Dias e Janaina Pereira da Silva
Faltam propostas e diálogo direto com o eleitorado idoso. Com peso e poder para mudar o resultado nas urnas, o eleitor com mais de 70 anos, cujo voto é facultativo, não recebeu atenção dos candidatos que concorrem à Presidência.A avalição é do cientista político Alcindo Fernandes Gonçalves e da antropóloga Edna Vieira Coelho Gobetti , pois o número de eleitores idosos não para de subir em todas as regiões do país. Um estudo do publicado pelo TSE sobre as corridas presidenciais mostra que nas eleições de 2010 e 2014, o número idosos com mais de 70 anos que compareceu às urnas foi de 24 milhões de pessoas.
Nas regiões mais desenvolvidas é importante destacar a demografia, o índice habitacional. Uma região é considerada desenvolvida quando ela tem um menor índice de natalidade e maior índice de mortalidade. Essa análise de desenvolvimento é feita nos âmbitos econômico e cultural. Um exemplo disso se reflete no tamanho das famílias que vêm encolhendo, como exemplifica a antropóloga. Outra amostra citada é Santos, que para ela, tornou-se um lugar conservador, diferente de décadas atrás.
Em algumas pesquisas, o número de indeciso entre quem tem mais de 70 anos chega a 30%, porcentagem alta considerada por Edna que aponta uma desilusão total com a política. Ela acrescenta que estão confundindo muito esse termo “conservador” e “progressista”: “Eu sou conservador na política, mas eu sou liberal e progressista em relação à moral e aos costumes, etc… Então há uma confusão porque o mundo é que passando por essa transformação, não é só o Brasil”, garante.
Ela acredita que muitas pessoas não têm noção do que foi herdado do Golpe de 64. O pior deles, na sua opinião, foi na questão da Educação dizendo que hoje uma grande quantidade de professores mal formados formam professores mal formados, em um sistema que fez com que os alunos ficassem repetindo dados e decorando fatos e datas. Abriu-se mão da contextualização e construção do pensamento crítico. Sobre o público que viveu esta época e pede a volta da ditadura, Edna diz que esse momento foi vivido, mas não estudado por estas pessoas. Coloca que elas misturam as questões de desenvolvimento tecnológico e outras coisas como ideias progressistas, mas não sabem o que aconteceu na ditadura no âmbito da cultura principalmente. Resultado: Líderes e povo sendo formados por professores mal formados.
A docente, que completa 70 anos em outubro, faz questão de continuar votando, contrariando os seus contemporâneos.”Eu só anulei o meu voto uma vez. E me arrependi profundamente porque numa autocrítica, eu vi como se eu estivesse sendo omissa e covarde, entende?”Ela crê que o alto índice de indecisos favorece o status quo para manter tudo do jeito que está.
Para o especialista em Ciências Políticas, Alcindo Fernandes Gonçalves, há uma participação significativa, inclusive levando em consideração a não obrigatoriedade do voto após os 70 anos. Mesmo sendo uma população idosa acima da média, este está longe de ser preponderante no eleitorado. Porém, isso pode mudar até o final do século, mas no momento em que há esse crescimento, ele se torna mais decisivo para eleger um deputado, vereador, ou um prefeito, explica.
Esse público costuma ser mais conservador, principalmente pelos valores que trazem consigo, pois resultados de consultas feitas em tempos anteriores mostram isso. No geral, tendem a ser mais refratários à mudança e não costumam votar em partidos de esquerda, pois são mais de vanguarda nas questões sociais ultimamente. “Daqui a 40 anos, vão ser os jovens de hoje, vamos ver como essa coisa evolui”, pondera.
Para o cientista, falta um diálogo dos partidos políticos, não só com esse público, como para mulheres e com o meio ambiente. Há uma deficiência nos debates e formulação de propostas e, por não saberem o que dizer, utilizam um discurso vago e genérico. De um modo geral, esses partidos estão dissociados da realidade social, voltados para si mesmos pensando somente em estratégias eleitorais e de marketing.
Previdência social é um tema de interesse da terceira idade, é um tema complexo no Brasil hoje, embora a necessidade da reforma seja um fato discutível, ele é muito mais visto, especialmente pelos mais velhos que, estão em fase de aposentadoria ou já estão aposentados e temem perder os benefícios. Embora afete toda a população o tema da saúde, visto como um grande problema nacional, é de grande interesse dos idosos, pois são aqueles que requerem mais assistência médica, internações hospitalares e falta uma discussão sobre o assunto, não somente sobre os mais velhos. Existe uma grande fragilidade por parte dos partidos em tratar temas específicos.
Para Michele Lapa, chefe do cartório da zona eleitoral 118, na Cidade observa um considerável público mais idoso nas urnas, por vezes auxiliados pela família e alguns recém saídos do hospital. Ela garante que a presença deles é forte em Santos, dado comprovado pelo número de eleitores desta faixa etária que participou do recadastramento biométrico.
Como exemplo, Alaíde dos Santos Evangelista, de 71 anos, não lembra há quanto tempo é mesária, em Santos, porém sempre fez questão de exercer a sua cidadania. Atualmente atua na Escola Estadual Fernando Azevedo, onde já trabalha todos os dias como secretária. Recorda apenas que se cadastrou para a função e nunca mais parou. Diz que aos 8 participava de comícios, mas reclama do nível dos candidatos que estão na disputa: “ Não vejo um momento como este desde a ditadura, em 64, com os trabalhadores perdendo todos os seus direitos!” A secretária não ouve propostas para a terceira idade de nenhum deles, mas faz questão de continuar votando e sendo voluntária enquanto puder. “Se eu votar, eu posso cobrar!”, explica.
