Smartphones e aplicativos revolucionam relacionamentos

André Souza

Daniel Capella

Pedro Hazan

Desde o início da humanidade, a tecnologia vem revolucionando o mundo. Nas últimas décadas em especial, essa revolução foi potencializada com o surgimento de novidades como a internet e o smartphone. Com essas mudanças, comportamentos e tradições também se atualizaram, e hoje podem ser bem diferentes do que eram no início dos anos 2000, por exemplo.

Os especialistas em informática Gil Lopez e Cícero Aristeu falam sobre os cuidados ao usar os aplicativos de relacionamento

Uma área que se modernizou consideravelmente é a dos relacionamentos amorosos. Aquela história tradicional, do casal que se conheceu na fila do marcado ou apresentado por um amigo em comum, se torna cada vez mais rara. Nas novas gerações, principalmente, o padrão é outro, e o meio também é bem diferente: o virtual.

Em um país que tem média de quase um smartphone por habitante, aplicativos como o Tinder e o Happn vem substituindo este primeiro contato. Instalados nos aparelhos, se tornam o grande aliado na hora de encontrar um parceiro. Segundo dados deste primeiro, 5% da população brasileira já o baixou em seu aparelho. A porcentagem é equivalente a 10 milhões de pessoas.

“Hoje, o que a gente vê é que, preponderantemente, o jeito que as pessoas se encontram é pelos aplicativos”, diz a psicóloga Gisela Vasconcellos Monteiro.

Depois, o contato continua por apps como o Whatsapp e o Messenger.

Vídeo: os aplicativos mudaram tudo

Dinâmicos, são também práticos e uma ferramenta quase exata para quem busca um perfil específico. Afinal, o contato só será realizado se ambos estiverem interessados nisso. E para que esse estágio seja atingido, é necessária toda a avaliação anterior — pautada nas informações e preferências fornecidas pelos usuários.

No Tinder, por exemplo, o usuário cria seu perfil público, com fotos, idade e uma breve descrição. Pode optar também por acrescentar informações sobre trabalho e estudo. Depois, pode personalizar a distância em que pretende encontrar pretendentes e também a idade destes e claro, o gênero.

A partir daí, terá acesso ao banco de usuários do aplicativo, e verá em sua tela, em teoria, todos os pretendentes que se enquadram naquelas características que escolheu. Agora, deve julgar qual desses o interessa. Para isso, pode passar perfis à direita — os que interessam, ou à esquerda — os que não interessam.

Ao mesmo tempo, o aplicativo irá exibir este perfil para os pretendentes que estão sendo avaliados pelo usuário. O contato só será liberado, caso ambos demonstrem interesse, ou seja, se ambos passarem o perfil à direita.

Esse conjunto de ações configura o match, ou a combinação. A partir daí, as possibilidades são imensas já que os usuários estão livres para se conhecer melhor através do chat do próprio aplicativo.

Em geral, após breve conversa pelo próprio aplicativo, mudam para aplicativos próprios de conversa instantânea, como o Whatsapp. A dinâmica da conversa por estes aplicativos, acaba sendo bem diferente daquela realizada pessoalmente.

“No Whatsapp, a pessoa tem tempo de parar e pensar. Quando você tá no telefone, você discute e não tem esse tempo de parar pra pensar antes de mandar. É diferente”, afirma a psicóloga.

para posteriormente, dependendo do encaminhamento da conversa, marcar um primeiro encontro pessoal.

Precaução

Mas é preciso cuidado. Com novas possibilidades surgem novos riscos. Se pessoalmente a pessoa pode discernir o que é verdade ou não, virtualmente é preciso confiar nas informações fornecidas pelo outro.

Casos como o que envolveu a advogada Ana Lúcia Keunecke ilustram a necessidade de atenção. Em setembro, Ana Lúcia foi estuprada por um homem que conheceu no Tinder.

Advogada de direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, Ana Lúcia ainda tomou precauções antes de marcar o encontro em que ocorreu o crime. “Quando finalmente marcamos de nos conhecer pessoalmente, pedi seu nome, RG e CPF”, contou à revista Marie Claire.

O homem prontamente enviou os dados, o que despertou confiança em Ana Lúcia, que acabou não os checando antes do encontro. “Mais tarde descobri que ele mandou os dados de um jogador de futebol famoso”, disse.

Depoimento: o tinder e a vida real

Após o caso, o Tinder se posicionou publicamente, lamentando o ocorrido. Também à revista Marie Claire, afirmou que “pessoas mal-intencionadas existem em restaurantes, livrarias, nas redes e nos aplicativos sociais. Embora a grande maioria dos nossos usuários tenha boas experiências em nosso aplicativo, não somos imunes a malfeitores”.

O aplicativo ainda disse que encoraja seus usuários a denunciar às autoridades qualquer caso de abuso ou crime, e que, nestes casos, coopera e auxilia as autoridades durante as investigações.

O Tinder ainda diz manter online dicas de segurança, tanto em seu site como no aplicativo.

O outro lado

Mas nem tudo é ruim. Como o próprio aplicativo afirma, grande parte dos usuários costumam ter boas experiências.

Como meio de comunicação, os aplicativos permitem a comunicação, e assim, tem seus pontos positivos e negativos. “Não é a tecnologia em si mesma que é boa ou má, mas o uso que a gente faz”, explica a psicóloga e professora Gisela Vasconcellos Monteiro.

“Esses aplicativos são um jeito das pessoas interagirem. É uma coisa que a tecnologia propícia que não tínhamos antigamente”, acrescenta lembrando a natureza dos relacionamentos humanos, ‘as coisas mais complicadas que existem’.

Continua: “E há muitos casos legais, de casais que se conheceram por lá e vivem juntos a partir do Tinder, por exemplo”.

Apesar da avalição positiva, a psicóloga faz alerta: “O que a gente sugere é que as pessoas não se exponham por escrito, ou por foto, desnecessariamente. Você mal conhece a pessoa”.

“Na dúvida não faça, não mande e não se exponha”, finaliza.


Surgimento dos smartphones possibilitou aplicativos

Desde que começou a se tornar popular nos anos 1990, a internet começou a mudar tudo em que tocou. Na telefonia e nos aparelhos portáteis, não foi diferente. Os smartphones começaram a tomar a forma que conhecemos hoje no começo dos anos 2000.

Antes disso, no entanto, contaram com um importante precursor, os PDAs — ou assistente pessoal digital, na sigla em inglês. Estes aparelhos eram uma espécie de pequenos computadores pessoais portáteis. Apesar de serem mais limitados que os computadores propriamente ditos, os PDAs poderiam ser utilizados com vários propósitos e chegavam a se conectar à internet, via Wi-Fi ou Wireless Wide Area Network.

O primeiro eletrônico deste tipo foi lançado em 1984. Nos anos seguintes, os aparelhos ganharam características que mais tarde seriam fundamentais na transição para os smartphones. A princípio, as mudanças eram de hardware; telas sensíveis ao toque e teclados completos, por exemplo, foram introduzidas inda nos anos 1990.

A principal mudança, no entanto, veio em 1994, quando a IBM lançou o IBM Simon, o primeiro PDA com total funcionalidade telefônica. Foi a partir daí que os PDAs começaram a se fundir com os telefones celulares. Agora, estes aparelhos eram pequenos assistentes pessoais, com acesso à internet, mas também celulares, com funções que iam muito além das simples mensagens de texto e ligações.

No começo dos anos 2000, os aparelhos começaram a ganhar em popularidade, enquanto seus fabricantes o aperfeiçoavam. A princípio, eram caros e pouco práticos, com características que desencorajavam seu uso. Pontos de conexão Wi-Fi eram escassos, planos de internet móvel caros, e as baterias dos aparelhos duravam bem menos do que a dos aparelhos comuns.

Ainda assim, os aparelhos foram ganhando mercado, principalmente com públicos específicos, como o dos executivos. Os PDAs ou smartphones, se tornaram também um símbolo de status, e a partir daí, foram chamando a atenção do público com um todo.

Ao mesmo tempo, a internet passou a se tornar mais popular através dos computadores padrão e a primeira geração de redes sociais começa a surgir.

Nesse contexto, os fabricantes de eletrônicos aperfeiçoaram ainda mais os aparelhos, a ponto de torná-los objeto de desejo geral. Agora práticos, modernos e funcionais, os aparelhos ganharam o mercado de uma vez por toda ainda antes dos anos 2010.

Até este momento, no entanto, não havia unidade de sistema operacional, e a comunicação entre os aparelhos era difícil. Cada fabricante tinha um modo diferente de lidar com seu software que, apesar de ser prático no geral, não era personalizável, flexível ou viável para conectividade.

A revolução dos smartphones começa com o surgimento de dois grandes grupos de sistemas operacionais, que depois viriam a dominar o mercado mundial: o Android e o IOS.

Os dois foram introduzidos em um pequeno intervalo de tempo, entre 2007 e 2008 e vieram se tornar o que o equivalente ao Windows e o Macintosh no mundo dos celulares.

Foram estes sistemas que abriram caminho para o surgimento dos aplicativos. A Apple foi a primeira a incluir a funcionalidade em seu sistema, o IOS, com o lançamento da App Store em 2008. O Android introduziu funcionalidade similar com o Google Play, no mesmo ano.

Agora, após poucos toques na tela do aparelho, era possível baixar softwares específicos e personalizados, elaborados por outros desenvolvedores e até mesmo por outros usuários. Os apps acrescentaram não só novas funções aos aparelhos, mas também a possibilidade de os aparelhos se comunicarem entre si através das próprias aplicações.

Ou seja, não era mais necessário fazer uma ligação para interagir com outros aparelhos — e outras pessoas. Dessa forma, não tardou para que redes sociais lançassem seus aplicativos para smartphones, enquanto novas redes — dessa vez totalmente portáteis — surgissem.

Nesse contexto, surge o Tinder em 2012. Seguindo os passos dos sites de namoro, e mesmo de outros aplicativos similares, como o Grindr, o aplicativo se propõe a unir casais através dos aparelhos celulares inteligentes e se torna o mais popular de sua categoria.

Curiosamente, com o surgimento dos smartphones, o caminho para as redes sociais passou a ser o inverso: dos aparelhos portáteis, ganham os computadores pessoais, através de sites e aplicações próprias. Cinco anos depois de seu lançamento, o Tinder lançou uma versão desktop, o Tinder Online.


Opinião — aplicativos são apenas extensão da vida real

Nas redes sociais alguns aplicativos destacam-se devido à popularidade, o Tinder, utilizado para encontrar o parceiro ideal. é o mais popular do seguimento. Entretanto, enquanto muitas pessoas confiam em seu sistema, outra parte ainda tem receio em utilizá-lo, devido a preocupações com segurança e privacidade.

Os que utilizam e se sentem à vontade deixam de lado o velho jeito de arrumar alguém (o cara a cara) e fazem do aplicativo uma válvula de escape para não ficar sozinho. Já os que desaprovam seguem pensando que o método convencional da paquera e conquista é o ideal.

Ainda que a maior parcela da população tenha acesso a internet através de um celular e utilize-o diariamente, ainda há receio em relação a utilização de aplicativos do padrão do Tinder. Enquanto isso, boa parte dos solteiros segue dividida, entre os que aprovam e desaprovam o aplicativo para fins de relacionamento.

Na prática o que se vê é a parte mais jovem da população mais aberta a novidades e novos métodos como o próprio Tinder, que apesar de sua popularidade, só tem 5 anos de existência. Ao passo que os mais velhos tendem a preferir as técnicas tradicionais e, por vezes, desprezar os novos meios.

Como conferimos com especialistas de diversas áreas e usuários, a utilização segura dos aplicativos é possível, apesar de requerer cuidados. A verdade é que, assim como na vida real, há perigos nos aplicativos, e reservas são fundamentais. E assim como na vida real, utilizando-se de bom senso e adotando alguns cuidados básicos, as experiências costumam ser saudáveis — ainda que não necessariamente positivas.

Apesar de parecerem revolucionários, diferentes, ou mesmo hostis para quem não os conhece, os aplicativos de relacionamento são, na realidade, apenas um meio. O relacionamento em si, segue o mesmo. É preciso gostar da aparência do outro, puxar conversa com o outro, saber agradá-lo, e, no fim das contas, se tudo acontecer como deve ser, cria-se um laço.

Assim como na vida real, o laço pode ser duradouro ou não, saudável ou não, ou mesmo perigoso ou não. Da mesma forma como ocorrem crimes após encontros arranjados em um bar, podem ocorrer crimes em encontros arranjados por aplicativos.

A grande vantagem destes, no entanto, é que sabe-se que naquele contexto, todos estão lá por um motivo: encontrar um par. Não é mais preciso contar com a casualidade em uma fila de banco, por exemplo. Ou com a boa vontade de um amigo para apresentar pretendentes.

Com relação à segurança e aos crimes, os apps são, na verdade, um aliado. Diferentemente do que acontece na vida real, quando um crime pode ocorrer, em teoria, sem deixar vestígios, nos aplicativos há sempre traços rastreáveis. É possível disfarça-los, mas haverá sempre pistas a seguir.

No final, o Brasil é o terceiro país do mundo em número de usuários no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos e o Reino Unido. Chama a atenção também a atividade dos usuários; coerente com o comportamento ativo dos brasileiros. O país tem a maior média de matches do mundo, ou seja, nenhum outro país forma tantos casais em potencial quanto o Brasil.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.