Maria da Penha, da Vila Autódromo, celebra Rafaela Silva, da Cidade de Deus.

Mesmo ferida com as Olimpíadas, dona Penha mostra toda a grandiosidade de sua alma para celebrar a vitória olímpica de sua vizinha de zona oeste, a judoca Rafaela Silva.

por Caetano Manenti

Eu queria parabenizar a menina… a Rafaela Silva… que é aqui de pertinho, da Cidade de Deus, e que sofreu como sofrem tantas pessoas das áreas pobres da região”. (Maria da Penha, durante as Olimpíadas)

Era um dia, como todos destas duas semanas tão raras, recheado de competições no Parque Olímpico da Barra. Atletas excepcionais e muita Skol Latão a R$13 reuniam mais de cem mil turistas capazes de pagar centenas de reais, quase um milhar completo, por um ingresso. Ou seja, não havia crianças pobres no parque. Só fora dele.

Muito perto dali, uma caminhonete da Nissan, toda adesivada com os símbolos oficiais da Olimpíada do Rio 2016, virou à direita e chegou à rua principal da Vila Autódromo, a aldeia gaulesa carioca, mais brava resistência de uma década intensa de remoções no Rio de Janeiro. A camionete queria apenas cortar caminho, evitar a confusão da avenida Abelardo Bueno e economizar tempo para chegar ao centro de mídia — um imenso prédio envidraçado, construído exatamente ao lado da Vila Autódromo. O motorista, porém, não encontrou caminho livre. A via estava bloqueada. Não era um protesto, como tantas vezes se viu por ali nos últimos anos. Tratava-se de uma pose para foto, um abraço entre os resilientes moradores, amigos e pesquisadores. Ao contrário do que o motorista esperava, os fotografados não arredaram pé para lhe dar passagem. Pelo contrário. Aproveitaram as luzes do farol da camionete para ficarem melhor na foto. Para quem conhece a turma, nenhuma surpresa: a Vila Autódromo, outra vez, não deixaria a Olimpíada passar tão fácil assim por ali.

Nem durante os Jogos, as Olimpíadas passaram fácil sobre a Vila Autódromo.

A história da Vila Autódromo tem fama internacional, virou a figura máxima de uma Olimpíada que não passou por aqui inocentemente, sem ferir e sangrar. Para conhecer essa luta em detalhes, a dica é conhecer a página do Facebook da Vila Autódromo.

Então, aqui vai apenas um resumo:

ameaçada de remoção já há três décadas, a Vila sabia — desde quando a cidade foi escolhida sede das Olimpíadas — que dias terríveis viriam. Afinal, o antiquado Autódromo de Jacarepaguá fora a área escolhida para se transformar no Parque Olímpico. Uma favela, óbvio, não estava nos planos do empresariado local, ávido por um área valorizada. Foi o que deixou claro Carlos Carvalho, presidente da Carvalho Hosken, também conhecido como “o dono da Barra”, em entrevista à BBC no ano passado.

“Para botar tubulação de água e de luz há um custo alto, e quem mora paga. Como é que você vai botar o pobre ali? Ele tem que morar perto porque presta serviço e ganha dinheiro com quem pode, mas você só deve botar ali quem pode, senão você estraga tudo, joga o dinheiro fora. (Carlos Carvalho em entrevista à BBC).
Fotos expostas no Museu das Remoções, na Vila Autódromo.

Pobre demais para ficar sob os narizes e as lentes da imprensa mundial, a Prefeitura decidiu que a Vila Autódromo seria removida, que 600 famílias perderiam suas casas. Poucas famílias resistiram à pressão, às ofertas de indenização e à própria violência física das máquinas e dos agentes do Estado. No total, apenas 20 famílias se mantiveram ali, onde a pútrida lagoa de Jacarepaguá encontra as Olimpíadas. Mesmo que tenha restado tão pouca gente, a conquista de novas casas, depois de uma luta intensa com a Prefeitura, é considerada uma vitória, capaz de germinar sorrisos nas bocas dos simpáticos moradores da Vila.

A mais emblemática das figuras que restaram ali é dona Maria da Penha, uma paraibana religiosa. Uma senhora de um metro e meio, 51 anos, liderança da igreja local. Durante o processo de remoções, a Prefeitura sabia que remover sua família era o caminho para desmobilizar por completo a resistência. Prova disso é que lhe ofereceram R$2 milhões pelo terreno, oferta maior do que qualquer outra. Sua família não aceitou e, repetidamente, declama um mantra: “nem tudo tem seu preço”, lema escrito também nas paredes que restavam da Vila. Em 3 junho de 2015, Penha estava de braços dados aos vizinhos para impedir a demolição de mais uma casa da Vila. A truculência da Guarda Municipal lhe rendeu uma lesão no osso do rosto e uma lamentável foto, símbolo máximo do que as Olimpíadas não deveriam ser.

Dona Penha, em 2015, foi ferida por agentes da Guarda Municipal ao tentar evitar a demolição de mais um casa da Vila Autódromo. (foto Facebook da Vila Autódromo)

Em 8 de março do olímpico 2016, justamente no Dia Internacional das Mulheres, Maria da Penha, assim como sua xará cearense, foi vítima de violência outra vez. Sua casa de três quartos veio abaixo. No início de julho, por conta de sua bravura e de sua energia renovadora, dona Penha recebeu a medalha Pedro Ernesto, a mais alta homenagem da Câmara de Vereadores do Rio, iniciativa do vereador Renato Cinco, do PSOL. Dois dias antes, ela já havia sido presença de destaque, com largo espaço de fala, no lançamento de pré-candidatura de Marcelo Freixo.

Turistas, brasileiros e estrangeiros, passaram pelo solo sagrado da luta carioca, a Vila Autódromo. Os torcedores conheceram a luta.

No meio das Olimpíadas, enquanto o Parque Olímpico borbulhava de gente, conversei com Penha, que seguia educada com todos, mesmo com os torcedores que cruzavam o caminho para chegar à Olimpíada, que tanto a feriu. Perguntei a ela se ela estava acompanhando os Jogos. “Não, não tenho tempo”. Era a resposta que eu esperava. Não amaldiçoou os Jogos, tampouco se mostrou dedicada a ele. O que surpreendeu veio a seguir: “eu queria parabenizar a menina… a Rafaela Silva… que é aqui de pertinho, da Cidade de Deus, e que sofreu como sofrem tantas pessoas das áreas pobres da região.”

Rafaela Silva, da parte pobre da zona oeste do Rio, como a Vila Autódromo. Foto Roberto Castro/ Brasil2016

Durante a conversa, dona Penha insistiu com o óbvio: não era preciso expulsar a Vila Autódromo para realizar os Jogos. Ela contou ainda os mais recentes itens da lista de desrespeitos sofridos ali.

Na pressa de encerrar o imbróglio antes do início do desembarque dos jornalistas ao Parque Olímpico, a Prefeitura entregou as casas para as famílias ainda sem luz. “Como podemos morar numa casa sem luz nos dias de hoje?”, perguntou-me Maria da Penha. Os moradores não aceitaram as chaves e o problema da luz foi resolvido.

Das casas da Vila Autódromo é possível ver as luzes do Parque Olímpico.
Sandra Maria reclama da falta de ônibus para a Vila Autódromo durante as Olimpíadas.

A serenidade dos sorrisos de Penha não se pode esperar de todos. Ao pedir para entrevistar Sandra Maria de Souza, de 48 anos, logo se vê que o clima muda. “Nos desrespeitaram antes dos Jogos e continuam nos desrespeitando agora, durante os Jogos. Tiraram todos nossos ônibus daqui”, conta Sandra. “A verdade é que nós não fomos convidados para essa festa”.

A denúncia é absurda. Enquanto os torcedores usufruem de um maravilhoso sistema de transporte que não deixou ninguém esperando mais de 10 minutos nem mesmo no pico do movimento, os moradores da Vila Autódromo tiveram imensas dificuldades de sair de casa.

“É um absurdo. Como agora aqui só chegam os BRTs para quem tem ingresso, temos que caminhar quase 40 minutos até o ponto do ônibus”,

Adriana, de 36 anos, é parte de outra família que restou na Vila. Ela conta como o corte das linhas mudou a vida dela. “Tenho que sair de casa às 4h50. Assim, consigo chegar no ponto 5h20/5h30. Só assim consigo chegar em Copacabana, onde trabalho, às 7h”.

Simpática que só, ela é daquelas que brigou até o fim para ficar na terra onde se estabeleceu desde que saiu do Ceará, há 12 anos. “Quando eu saí do interior do Ceará, perto de Crato, e decidi vir para o Rio, eu imaginava que eu iria para uma favela braba, violenta. Quando eu cheguei aqui e vi essa Vila tão calma e gostosa, adorei. Durante todo o processo de remoções, eu sabia que tudo ia dar certo. Que algo nos esperava. E era essa casa. Agora não preciso mais dividir a casa com a sogra, hahahah”.

Segundo Adriana e outros moradores, as Olimpíadas podiam ser uma boa oportunidade para se urbanizar a Vila e ainda ganhar algum dinheiro. “No meu bolso, não entrou nada”, disse Adriana. A Vila Autódromo passou os dias das Olimpíadas movimentada mesmo assim. Sempre na luta, inaugurou um espaço chamado Museu das Remoções, onde fotos e vídeos da batalha estão preservados. Outro lugar que chama atenção é o Espaço Cultural Sr. Hippie, local para se ensinar inglês, instrumentos musicais e fazer artesanatos. É ponto de encontro dos guias turísticos da região também — alguns deles moradores da Vila. É de lá que a cultura da Vila Autódromo se espalhará pelo mundo.

Espaço Cultural Sr. Hippie promete ser o pulmão cultural da Vila Autódromo. Foto: Delegação Ninja/ Tuane Fernandes
Museu das Remoções seguirá preservando uma história que não pode ser esquecida. As camisas ajudam na campanha e na arrecadação de fundos para a Vila Autódromo manter a luta. Foto: Delegação Ninja/ Tuane Fernandes
Pesquisadores e ativistas criaram uma imensa rede de apoio a Vila Autódromo. A olimpíada passou e a Vila Autódromo resistiu.

Os alertas vermelhos permanecem ligados. Há preocupações em relação a inundações, por conta da Vila estar abaixo do nível das ruas. Uma barragem próxima da Vila também angustia. Os moradores denunciam que o local está abandonado e uma ruptura poderia inundar a Vila. Por último, há ainda as questões ambientais. Espaço de vida de muitos pescadores, o acesso à lagoa Jacarepaguá agora não está mais livre. Há uma avenida entre a Vila e à lagoa. O esgotamento sanitário ainda não é o ideal. E a poluição do entorno incomoda a todos.

A Olimpíada Rio 2016 foi testemunha da luta de atletas como Rafaela Silva, que mostrou que, mesmo na pobreza brasileira, nascem campeões. A Olimpíada Rio 2016 foi testemunha da luta da Vila Autódromo, que mostrou que mesmo na pobreza nascem campeões. Embora tantas derrotas nesse currículo, é hora de se sentir campeão também.

A Vila Autódromo consegue manter a alegria, mesmo que debochada. Os mascotes olímpicos, criados pelas mãos dos moradores, agora dão tchau a esse capítulo dessa história, que ainda não termina aqui.
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