Nem todos podem ser Vanderlei.

Porque qualquer um pode amar ou odiar a abertura — e os Jogos Olímpicos.

Foto: Agência Reuters

Vanderlei Cordeiro de Lima foi a melhor escolha para o ápice da festa. As imagens que marcaram sua carreira são as mais tocantes da nossa geração. Não porque ele foi derrubado por um covarde enquanto liderava a maratona, mas porque chegou sorrindo ao seu fim, mesmo que em terceiro lugar. Sem reclamar da sorte, aproveitou cada segundo de sua missão. É uma inspiração perfeita para alguns problemas da nossa vida.

Só para alguns. Mas disso escrevo depois.

O Rio de Janeiro, na data mais apoteótica em muitos séculos de história, entregou ao mundo inteiro aquilo que oferece em excesso: um maravilhoso dia de sol, empolgantes momentos de paixão pela música, pelo esporte e pela arte.

Deu orgulho de ver, sob os olhos do mundo, tanto desse país lindo. Ame você Santos Dumont ou Cidinho e Doca. Tom Jobim ou Deborah Colker. Gisele Bündchen ou Elza Soares. Goste do samba da caixinha do fósforo, do samba-rock ou do samba-canção. Todos têm seus amores particulares, mas ver artistas do tamanho de Gilberto Gil, mesmo fraco, cantando para bilhões do mundo inteiro bateu fundo em muitos. Percorrer o Rio, da manhã à noite, de zona ao sul a zona norte, e ver tanta gente, de tantos países e tantos brasis, sorrindo e cantando e protestando e tudo junto na mesma atmosfera foi inesquecível para todos nós que vivemos este dia na cidade.

Talvez o mais bonito deste 5 de agosto tenha ficado para depois da festa. O protagonista foi um menino da favela da Mangueira, Jorge Alberto Gomes, de 14 anos — 8 deles sofrendo em um abrigo. Para acender uma segunda pira, essa no centro do Rio, Jorge correu com a tocha nas mãos, com a Igreja da Candelária ao fundo. Um jovem negro favelado na Igreja da Candelária? Impossível não lembrar de outros jovens negros favelados, que foram mortos bem ali, na terrível chacina de 1993.

Reprodução TV Globo

Jorge repetiu o gesto de Vanderlei, correndo como se brincasse de avião. Sem reclamar da sorte, aproveitou cada segundo de sua missão. Como se vê, Vanderlei é uma inspiração perfeita para alguns problemas da nossa vida.

Só para alguns.

Não se pode pedir para que todos encarem seus problemas com a leveza de Vanderlei. Os problemas das Olimpíadas do Rio de Janeiro, por exemplo, não podem ser encarados com a leveza de Vanderlei.

A festa e os Jogos são hipócritas. E e não se pode pedir leveza para quem sofreu na pele essa hipocrisia.

O meio-ambiente foi uma das mais flagrantes vítimas da charlatanice olímpica. Enquanto a festa bradava por um mundo mais verde — inclusive, inovando com a promessa de plantio de árvores para cada atleta olímpico que entre em quadra — os Jogos do Rio entregarão ao planeta uma reserva a menos preservada. Não é admissível o que foi feito na Reserva de Marapendi para a construção de um campo de golfe (e, claro, um punhado de prédios de luxo).

O Célio de Barros e o Júlio Delamare — e, claro, seus apaixonados frequentadores — também foram zombados na abertura. Na apoteótica imagem do Maracanã em festa, já no fim do show, os dois também aparecem, como se pedindo socorro, ali no cantinho.

Reprodução SporTV

Que ironia! Na hora da celebração maior do esporte mundial, o templo do atletismo brasileiro foi apresentado como um…. estacionamento.

Edneida e tantos outros, certamente, sofreram com a cena. É o mesmo caso dos indígenas da Aldeia Marakanã, que também puderam flagrar, pela TV, as ruínas de seu território, forçosamente cedido à Copa do Mundo, aos Jogos Olímpicos e, claro, ao Grupo Odebrecht.

O presidente do Comitê Olímpico Internacional, o alemão Thomas Bach, também foi hipócrita. Disse que os Jogos são de todos os povos e de todas as nações. No entanto, no acesso ao estádio da primeira olimpíada da América do Sul, era gritante a predominância de famílias brancas e, a ver pelo preço dos ingressos, ricas.

“Vocês transformaram a maravilhosa cidade do Rio de Janeiro em uma metrópole moderna e a fizeram ainda mais bonita”, mentiu Thomas Bach, o presidente do COI.

O moderno até pode ser a impressão de quem passa pelo Boulevard Olímpico — a agradável área de lazer à beira da Baía de Guanabara — mas não é a opinião do Rio de Janeiro profundo. Afinal, não podemos admitir como moderno esconder a favela atrás de muros, assim como não pode ser moderno desalojar comunidades inteiras por interesses imobiliários. O que aconteceu com a Vila Autódromo, sabemos, não é moderno. Tampouco pode ser moderno militarizar a favela e acuá-la dia e noite, como se faz ainda hoje no Complexo da Maré. Matar e oprimir, espero, ainda não sejam modernos.

Não se pode exigir de Edneida do Célio de Barros, de Dona Penha da Vila Autódromo e de Ash Ashaninka da Aldeia Marakanã, por exemplo, a leveza de Vanderlei.

Qualquer um pode amar ou odiar a abertura — e os Jogos Olímpicos.

Caetano Manenti

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