Cabeça de Turco, A viagem de um repórter ao subterrâneo da sociedade alemã

Resenha

Gustavo Neves

Em março de 1983, o jornalista investigativo Günter Wallraff anunciou nos cadernos de emprego dos classificados de diversos jornais o seguinte texto: “Estrangeiro, robusto, procura qualquer tipo de trabalho, mesmo que seja muito pesado e sujo, mesmo que paguem pouco”. Iniciava uma investigação de dois anos que levaria o jornalista a revelar, através de seus relatos chocantes, a dura realidade de humilhação, exploração e isolamento em que viviam os imigrantes turcos na sociedade alemã moderna.

Publicado na Alemanha em outubro de 1985, Cabeça de turco se tornou um clássico da reportagem investigativa mundial. Foto: Internet.

Mais do que uma grande reportagem investigativa, Cabeça de Turco (Ganz unten no original) é uma experiência jornalística intensa e radical. O papel de jornalista e personagem se misturam e chega a ser inevitável para o leitor, em certos momentos, esquecer-se de que está lendo um relato em primeira mão de uma experiência terrível e não uma narrativa ficcional. Não que o autor tenha uma prosa muito emocional, no geral é bem direta, simples e episódica. A força da narrativa está exatamente no caráter explicitamente revelador de seus relatos, que só são possíveis graças a uma radical técnica de investigação, baseada no ato do disfarce. Ao assumir a identidade de um jovem trabalhador turco, Wallraff pode transportar para sua reportagem a intensidade da experiência de sofrimento e exploração que viveu na pele de Ali, acompanhada da perspectiva crítica de um jornalista investigativo experiente que entende os processos sociais de seu país.

Gastarbeiters na Alemanha

A realidade de segregação vivida pelos turcos não era uma novidade para a imprensa e autoridades alemãs.

De acordo com o contrato de cooperação assinado entre Alemanha e Turquia em 1961, o tempo de estadia dos trabalhadores convidados no país não se estenderia ao período de dois anos por imigrante. Justamente por isso, o governo não se preocupou com a integração desses estrangeiros na sociedade, nem mesmo após a suspensão do limite de tempo de permanência, em 1964.

Desse modo, ocorreu um processo de guetificação das comunidades turcas. Era muito comum encontrar turcos que entraram no país ainda nos anos sessenta e não falavam mais que algumas palavras em alemão. A exclusão social e econômica resultou na marginalização dessas comunidades, que se viram obrigadas a ocupar bairros afastados em zonas industriais, devido ao processo de modernização e elevação do custo de vida dos centros urbanos.

Por não dominar o idioma, os filhos e netos dos imigrantes não tiveram acesso satisfatório a educação básica e superior. Esse isolamento cultural impactou fortemente as novas gerações de turcos nascidos na Alemanha que, sem perspectivas de ascensão social, quase sempre tinham como única possibilidade profissional seguir o exemplo dos pais e trabalhar nas siderúrgicas e fábricas de automóveis.

Ao observar as constantes condições de invisibilidade social relegadas aos imigrantes, o autor percebeu que um relato em primeira mão, que possibilitasse ao leitor uma perspectiva profunda da realidade vivida pelos turcos na sociedade alemã, não poderia ser facilmente ignorado. Adotando a identidade de um amigo, Günter tornou-se Ali Sirnilioglu, um jovem gastarbeiter turco de 30 anos. Ao assumir tal disfarce, o jornalista sentiu na pele as duras condições de trabalho a que os imigrantes eram sujeitados na Alemanha, com jornadas de trabalho de até 18 horas — dignas dos trabalhadores de Manchester em 1845.

Gunter trabalhou disfarçado como Ali na siderúrgica da ThyssenKrupp, em Duisburg. foto: Wallraff, 1983.

A estratégia do disfarce não foi inventada por Wallraff. Nos anos 30, o escritor Graham Greene já se disfarçava de morador de rua afim de transportar para suas crônicas a realidade subterrânea de Nova York. No brasil, José Hamilton Ribeiro adotou a mesma técnica, quando fez uma reportagem sobre as condições de trabalho dos operários da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) para a Revista Realidade.

Apesar de não ter inventado o repórter infiltrado, Wallraff ficou conhecido por levar essa técnica investigativa ao limite. Quando decidiu iniciar a pesquisa para Cabeça de turco, Günter já tinha experimentado o disfarce como forma de fazer reportagem. Anos antes, o jornalista se infiltrou por seis meses na redação do jornal sensacionalista alemão Bild adotando como identidade falsa o nome Hans Esser. Na reportagem, Fábrica de Mentiras (no original Der Aufmarcher) publicada em 1977, Günter relata o cotidiano de produção do jornal mais lido da Alemanha, mostrando como ele era um verdadeiro produtor de factoides e realidades paralelas.

O que torna Cabeça de turco especial é justamente a intensidade e o esforço pessoais empregados no processo jornalístico. Gunter passou dois anos vivendo como um imigrante em seu próprio país. Precisou treinar o sotaque alemão carregado dos imigrantes e acostumar-se com a peruca e lentes de contato escuras durante todo esse tempo. Em certo ponto da reportagem, chegou a mudar-se para um apartamento de um cômodo e meio, vizinho das tóxicas chaminés da siderúrgica de propriedade da Tyssenkrupp, no bairro industrial da cidade de Duisburg.

Apesar do esforço empregado, muitas críticas foram levantadas ao trabalho de Günter. Principalmente relacionadas a legitimidade da técnica utilizada pelo repórter para conseguir seus relatos. Os críticos apontam que Günter não pode realmente representar, com suas experiências, as perspectivas dos imigrantes turcos, que não sendo um deles, não possui o background de discriminação e de mazelas sofridas pelos gastarbeiters na Alemanha Ocidental. Certamente por ser nascido em Colônia durante o pós-guerra, de pais alemães e consequentemente caucasiano, não pôde de fato “transmitir” a perspectiva de um imigrante turco explorado em uma sociedade marcada pela sombra histórica do nazismo. Contudo, não é isso que seu trabalho pretende.

Sua reportagem não se preocupa em reproduzir a consciência de um imigrante. Wallraff simplesmente se coloca na posição social relegada aos estrangeiros turcos dentro da sociedade. Observa de muito perto os processos de exploração a qual são submetidos e com sua sensibilidade de jornalista retira o véu de banalidade criado pelos gráficos estatísticos de crescimento da pobreza dos telejornais, fazendo o leitor entender e acompanhar de perto o que significa ser um turco na sociedade alemã.

O modelo industrial alemão baseado em mão-de-obra estrangeira foi o maior responsável pelo crescimento e recuperação da economia alemã no pós-guerra. Apesar de interrompido após o choque do petróleo em 1970, os anos de importação de trabalhadores eram origem a uma grande comunidade turca no país. Os relatos de Wallraff expressam bem os reflexos sociais de uma política que fundamentou a base econômica da Alemanha pós-nazismo.

Durante o período em que viveu como Ali, Wallraff trabalhou em empresas de diversos setores da indústria. A partir de um relato direto, episódico e em primeira pessoa, o jornalista descreveu suas experiências como operário terceirizado para multinacionais do ramo do aço como Thyssenkrupp e Mannesmann, sob condições totalmente desumanas. Sempre setorizados entre si, os imigrantes turcos ficavam responsáveis pelos trabalhos mais sujos e desagradáveis das fábricas e sem direito a itens de segurança básicos. Sob eterna e severa vigilância dos chefes de setor da fábrica, que agiam como verdadeiros carrascos com os imigrantes, o autor descreve um episódio desgastante em que trabalhou na limpeza das coqueiras em uma siderúrgica da Thyssenkrupp: “ Os joelhos estão ensanguentados, as calças totalmente esfarrapadas, as luvas de trabalho totalmente despedaçadas […] já fez treze, catorze, quinze horas que estamos aqui dentro, batendo com essas ferramentas pesadas e engolindo todo esse pó”.

Além de trabalhar na indústria do ferro, Ali também atuou como operário clandestino na construção civil, como funcionário do McDonald’s e cobaia para a indústria farmacêutica alemã, onde foi submetido a altas doses de drogas antipsicóticas em troca de poucos centavos.

Trabalhou também como motorista para Adler, o empregador responsável pela terceirização de imigrantes para grandes empresas — um indivíduo cruel e desumano, que não pensa em nada mais a não ser em seu lucro pessoal. A função da empresa de Adler era manter os imigrantes sob controle e como mão-de-obra barata, para serem usados na indústria.

O empresário escolhia os “times” de trabalho a partir das exigências feitas pelas empresas e do desespero do trabalhador em questão. Quanto mais necessitado o trabalhador, mais fácil para ele explorá-lo.

Seu esquema consistia em escolher geralmente os estrangeiros com visto vencido e “velhos demais” para competir no mercado direto. Adler chegou ao extremo de fechar negócio com uma empresa administradora de uma usina nuclear, que propunha que um grupo de sete trabalhadores turcos limpassem uma área contaminada por radiação. Os trabalhadores precisavam “estar preparados para voltar imediatamente para a Turquia”, para que, em caso de manifestação de sequelas decorrentes da exposição a radiação, não se tornassem problema do estado alemão. Apesar da negociação ser uma encenação armada por Wallraff, Adler não pestanejou, fechando o negócio, sem qualquer preocupação com a integridade física dos operários.

Conforme a apuração do repórter, as jornadas de trabalho dos imigrantes variavam entre 16 a 20 horas diárias, duas vezes maior que a jornada de um operário alemão. A maioria dos estrangeiros que trabalhavam na indústria não era regularizado. Como os sindicatos alemães não cobriam seus direitos, eram sujeitados a condições desumanamente insalubres, sem as mínimas garantias trabalhistas. Além disso, os turcos eram isolados, humilhados e proibidos de falar sua língua na presença dos operários nativos.

Quando foi publicado em 1985, Cabeça de turco teve um grande impacto social na sociedade alemã que, já marcada pelo peso da memória do hitlerismo, se deparou com um verdadeiro apartheid social dentro de suas fronteiras, em um país tido como exemplo de democracia de bem-estar social. Com uma inquestionável profundidade investigativa, Günter Wallraff conseguiu produzir uma experiência jornalística única, trazendo o tema da imigração ao centro da discussão midiática da época.

Günter Wallraff. Foto : Jerome De Perlinghi.

Sua reportagem foi responsável por mudanças políticas dentro da Alemanha no que diz respeito aos direitos civis de imigrantes, além de inspirar outras reportagens, com métodos investigativos semelhantes em outros países europeus como França, Inglaterra e Holanda.

Atualmente a Alemanha é considerada um país modelo no que tange legislação e políticas sociais para imigrantes. O governo alemão, liderado pela Chanceler alemã Angela Merkel, é protagonista no projeto de integração europeia, sendo uma das poucas lideranças atuais no bloco que estão dispostas a tratar a questão migratória de forma equilibrada. Apesar disso, a ocorrência de casos de xenofobia e agressões impulsionadas por ódio contra imigrantes ainda é muito alta no país, a exemplo dos assassinatos em série perpetrados por grupos de supremacia branca contra descendentes de Turcos entre 2000 e 2007, conhecidos como assassinatos de Bósforo.

Em tempos em que presidentes são eleitos prometendo levantar muros e campos de contenção começam a ser tornar frequentes na Europa é essencial que existam figuras como Gunter Wallraff circulando por aí, revelando o que está por traz dos discursos oficiais dos estados e corporações.

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