Do sítio para a cidade: memórias de uma poetisa

Alfabetizada aos 66 anos, Dona Glória tornou-se uma exímia contadora de histórias, inspiradas em sabores e aromas do Maciambu

Década de 1920, crises políticas, greves, revoltas, movimento modernista. Às vezes tinha café, outras leite. O movimento tenentista que queria moralizar a vida política e pôr um fim na corrupção eleitoral, parece que até hoje não deu certo.

Para quem morava no interior, a palavra era garantida “no fio do bigode” e dava até morte, se não fosse cumprida — o mesmo não valia pra palavra política, é claro!

No ano de 1924, morreu o primeiro governador de Santa Catarina, Hercílio Luz. O responsável pela construção da ponte que ligaria a Ilha de Santa Catarina ao continente, e que mais tarde receberia o seu nome. Neste ano, nascia minha avó… A Maria da Anunciação Pereira, que era para ser da Glória, mas o escrivão esqueceu dessa parte.

Como o assunto principal desta matéria é memória, ninguém melhor que ela para falar a respeito. Minha avó é conhecida como “Dona Glória”, Gogó para os mais íntimos, porque ninguém se importa mesmo com o que está na certidão.

Ela nasceu no tempo em que “mulher não precisava estudar”, diziam os pais. Mulher precisava saber cuidar da casa, dos filhos, cozinhar, costurar, bordar… Até os 66 anos, a vida dela foi assim, salvando “arquivos” na própria memória, pois foi privada de ir à escola. Abrindo uma dessas pastas, tão preciosas, encontrei mais que a Graça de Deus.

Nas festas os doces mais comuns eram o cartucho de amendoim, cocada, doce de mamão e goiabada. Era muita banana: ora frita, ora cozida. Tinha também muita mandioca, e dela, se fazia muita farinha. Da farinha, a “Graça de Deus”.

- O que tem para comer hoje, mãe?

- Café, com a Graça de Deus!

Graça de Deus também era uma farofa de farinha de mandioca doce, servida com café. No começo não tinha nome. Em resposta à pergunta “Mãe, o que tem pra comer?”, a inocência infantil acabou dando nome àquela farofa doce quando a “Graça de Deus” era o que alimentava.

O Brasil vivia um período de mudanças, muitas delas infelizmente não chegariam a maior parte da população, como a carne também não chegava. A carne “verde” era só no sábado de aleluia, o peixe era farto, não tinha trigo. O pão era de milho, assado na folha de bananeira e se parecia com bolo. Tinha berbigão, marisco, caldo de peixe e muito pirão. “Mas quando tinha vento, era só feijão”. Em família de pescador é assim. Todo dia tem algo do mar sobre a mesa. Menos em dia de vento. O barco não sai, o peixe não vem, mas o feijão, esse sempre tem.

Trocava-se com os vizinhos o peixe pelo feijão, pelo café, pelo açúcar. O dinheiro quase não existia. A família só tinha dinheiro vivo quando vendia a colheita. Com os recursos da venda, comprava o que não plantava nem tinha para trocar. No armazém de secos e molhados comprava tecido. Além da venda das plantações de café, milho, mandioca, a Gogó vinha de barco para Florianópolis com os irmãos vender peixe no mercado público. No caminho, as mulheres da família vendiam chapéu e balaio feito de palha de milho, de folha de bananeira e até de tiririca, que ainda não sei direito o que é. Só que é uma planta que dá para fazer chapéu.

Sem médico e nem dentista, o que tinha era muita benzedeira. As doenças não tinham remédio, era a fé que curava tudo. E quando a dor era de parir, chamava a parteira (e a benzedeira, só pra garantir). Para o transporte, cavalo ou no carro de boi. Nem tênis confortável e nem tanto problema de saúde. Quando era preciso chegar, muito precisava caminhar.

Não tinha telefone, muito menos um smartphone. Não tinha gravador, nem televisão, sequer, luz. Para guardar o que é de importante, a cabeça era o melhor lugar: as receitas, as rezas, os nomes, os números, os poemas, as músicas.

Na memória, um espaço com capacidade infinita de armazenamento. Quando a conta estava difícil, havia sempre um lápis atrás da orelha para ajudar. Não existia cartão de crédito, nem crediário… Em quem se podia confiar, as compras no secos e molhados ficavam anotadas no caderninho do fiado.

A comida sempre fresca, raramente alguma coisa fazia mal. Era tudo natural, sem hormônio, nem sabor artificial. Intolerância à lactose ninguém ouvia falar, só não podia misturar manga com leite porque era veneno.

Pelos que vinham de fora, chegavam as notícias. O comércio na Passagem do rio Maciambú fazia o papel de central de informações e fofocas. Ali se sabia de tudo que acontecia na comunidade, “o jornal” era falado e a transmissão era ao vivo. Vez em quando, chegava uma carta. Para os amores, pão-por-deus.
Onde muitos não sabiam ler e escrever, o padre rezava a missa em latim.

Hoje as coisas estão diferentes, a missa é rezada em português e o padre fica de frente para os fiéis. Mas quem se importa? Ir à missa já não é mais um compromisso imperdível, nem nunca foi para minha avó. Quando era nova, ela dizia que era coisa de velhos! Apesar de não frequentar nenhuma igreja, ela reza muito. Reza por todos um rosário, a cada noite. Pelos que estão aqui e pelos que já se foram. Rezar, pedir paz e saúde nunca é demais. Mesmo dando umas cochiladas entre uma ave maria e outra, acredito que Deus está sempre ouvindo seus anseios. 
Sem abandonar os hábitos da roça, hoje ela se divide entre o apartamento da cidade e a vida no sítio. Ela sabe o nome de todas as plantas e para quê serve cada uma delas, como se planta, qual a época de colher e de plantar. Os dias de lua, se o tempo vai virar, se vai chover ou ventar, ela sempre sabe!

Agora acho melhor deixar Dona Glória falar. Depois de uma vida de tantas histórias, que ela ainda continua contando, das dificuldades e das alegrias, dos filhos, netos e lá vai a família crescendo, minha vó conta a própria vida. Ou melhor, conta junto comigo. Por isso, subi o Morro dos Cavalos, liguei a câmera e deixei Dona Glória falar.

No caminho

Foram várias tentativas frustradas para encontrar minha personagem: a chuva não deu trégua por semanas seguidas, o que impossibilitava minha ida ao sítio e a vinda da Dona Glória para o apartamento na cidade. Quando o tempo melhorava, ela ficava sem tempo para entrevistas. Sempre entretida em compromissos com as amigas e o Grupo de Poetas, do qual faz parte. Também se enredava com os filhos que sempre inventam algum compromisso e carregam a vó junto.

Finalmente, São Pedro resolveu colaborar e fez um lindo dia de sol. Acordei cedinho, peguei as coisas e coloquei no carro. Enquanto o fusca esquentava… (apesar do dia lindo de sol, estava muito frio e carro antigo é como criança: precisa de um chamego para acordar) liguei para meus tios, para me certificar que não perderia a viagem e conseguiria umas horinhas para conversar com ela.
 O sítio fica a aproximadamente 45 quilômetros de Florianópolis, seguindo pela BR-101, sentido sul. Passando o Morro dos Cavalos, aquele que sempre tem alguma notícia no jornal sobre acidentes ou sobre disputa de propriedade entre os índios e o Estado.são cinco quilômetros de estrada de chão. Na verdade, mais buracos que estrada! Mais árvores, mais pedras e mais pássaros! Neste lugar o tempo passa devagar, as casas ainda sem grades nas janelas, as cercas de arame farpado não deixam os animais irem para a rua. Falo dos animais grandes, porque as galinhas sempre dão um jeito de fugir.

Eu costumava passar os fins de semana no sítio, há mais de 25 anos. Tem uma igreja no caminho, nunca vi aberta. Disseram que tem missa aos domingos e que vai ter quermesse. Uma única estrada com poucos moradores no caminho. Todos se conhecem e quando passa um carro levantam o chapéu ou acenam para cumprimentar quem passa. As pedras são pintadas de branco e em alguns sítios o laguinho cercado por personagens da Branca de Neve, já com pintura bem desbotada, parecem esquecidos pelo dono.

Missionários tentaram abrir uma igreja evangélica, mas não deu muito certo. A comunidade do Maciambú já aceitou Jesus e os santos da Igreja Católica há muito tempo, sem abandonar a fé nas benzedeiras, sem deixar de acreditar nas bruxas, na mula sem cabeça, no homem que vira lobo nas noites lua cheia, claro!
Havia muito escravo nesta região. Dizem que ainda se ouvem gritos, choro e barulhos de correntes arrastando. As lendas permanecem vivas, quase nada mudou. Os mais velhos falam de um tesouro enterrado e contam que é melhor não passar pelo Morro da Boneca à noite. Se for noite de Lua Cheia, melhor mesmo é nem colocar os pés para fora. Onde morcego não vira vampiro, as bruxas estão sempre fazendo arte.
 Meu plano é estar de volta na cidade antes de anoitecer, não que eu tenha medo de alguma coisa… Sou só precavida!

A entrevista

Cheguei ao sítio às 9:30 da manhã achando que estava atrasada. Fui recepcionada pelos cachorros da família: Mulambo, uma mistura de pastor com labrador, que gerou um filhote de dinossauro, grande e delicado; a Mel, uma labrador que está rouca e o Metralha, o cachorro que foi encontrado numa esquina, quando ainda era um filhote. O que ele tem de feio, tem de carinhoso.
Para minha surpresa, o pessoal da casa ainda estava de pijamas e nem havia tomado o café da manhã. Respirei aliviada: cheguei na hora certa! Não tem café como o do sítio, o café que a vó ainda planta, colhe, torra e mói. Tão diferente do café da cidade!

Durante o café, ela me perguntou sobre o que iríamos conversar. Eu disse que seria sobre as histórias, o que ela já está bem acostumada a contar… Vaidosa, depois do café, foi trocar de roupa e se “arrumar”, para começarmos o trabalho.

Enquanto isso, eu procurei o melhor lugar para conversarmos. Não foi fácil, todos os lugares são lindos. Achei que na beira do lago, ao redor das árvores, ficaria bom e não seríamos incomodadas. Regulei o tripé, posicionei a câmera e fui buscar a Dona Glória.

A infância

Comecei perguntando sobre a infância, do que ela se lembrava daquele tempo.

E ela me respondeu com um poema:

“Lembranças da minha infância

saudades do meu sertão

da casa de pau-a-pique

o assoalho era de chão.

O fogão de quatro estacas

era fincado no chão

uma corrente amarrada no caibro

na outra ponta, pendurado, o caldeirão.

O fogo sempre aceso

para fazer a refeição

o café sempre quentinho

lá em cima do fogão…”

As brincadeiras eram simples e eu era uma moleca, gostava de subir em árvore, plantar bananeira, subia morro e descia dando cambalhotas. Os vizinhos fofoqueiros contavam para meu pai que eu amarrava o vestido na cintura e descia o morro rolando, aquilo não era coisa de menina! Eu apanhava, ficava de castigo… Mas, no outro dia estava brincando de novo. 
Que época boa ser criança, guardo com carinho essa lembrança. Depois que meu pai deixou minha mãe, ficou tudo mais difícil.

Queria ver os olhinhos dela brilhando durante os relatos de saudade, sem cortar a empolgação e o orgulho que ela sente de sua história. Percebi que fazer perguntas diretas não seria uma boa ideia e eu não me contentaria com as respostas curtas.

Não é fácil entrevistar uma poetisa, tudo é rimado com muito cuidado e se fosse escrever num perfeito português, esta conversa perderia muito de sua riqueza.
Fiquei só ouvindo, admirada com tantas lembranças e pensando que tenho menos da metade da idade dela e já não me lembro de muita coisa..

Na adolescência

Eu era namoradeira! Gostava muito de dançar e me divertir com as amigas, pedia para elas escreverem as cartas e os bilhetes que eu ditava. Fazíamos chapéu de palha para vender, trabalhava na plantação, costurava e cuidava da criação. A vida não era fácil, mas era muito divertida. Muitas vezes andávamos (ela e as amigas) um dia e uma noite pra ir num baile, não importava se era longe. Queria era dançar!
 Depois as coisas se complicaram, tive que ir morar com um irmão mais velho na Laguna. Ele disse pra minha mãe que ia me ensinar a ler e escrever, ia me colocar na escola…Mas era tudo mentira!
Cheguei em Laguna e ele me fez de empregada. Eu tinha que cuidar dos filhos dele, limpar a casa, costurar, cozinhar e a mulher dele não fazia nada! Só sabia brigar comigo e exigir que eu trabalhasse mais. Não tinha tempo para ir para a escola. Depois de uma briga com meu irmão, fugi para a casa da vizinha e voltei para casa de minha mãe.

Sobre o amor

Noivei três vezes, os primeiros não queriam que eu saísse de casa, só podia ir à missa. Não durou nem dois meses, terminei tudo. O terceiro, eu nem queria, chamei de “amarelo”! Ele insistiu, disse que queria namorar comigo. Eu disse que morávamos muito longe e não podia dar certo. Ele me disse que o cavalo dele era muito bom e que para o amor não tinha distância. Eu recusei!
Meu irmão, que gostava muito do João (o amarelo), arrendou uma venda na praia da Gamboa pra eu cuidar. E já fez de caso pensado, quando cheguei na Gamboa o João estava lá! Me cumprimentou e foi logo dizendo: agora podemos namorar, já moramos perto! O pai do João tinha muitas terras na região, da Gamboa até Garopaba, era quase tudo dele.

Desta vez, eu aceitei! Em um mês nos casamos, tudo muito rápido e muito bom.
A festa começou no sábado e se estendeu pelo domingo, na segunda-feira ainda tinha gente indo embora. O João foi o amor da minha vida, tivemos oito filhos. Quando meu sogro faleceu, mudamos para mais cidade. A gente queria que os filhos soubessem ler e escrever. Todos foram para a escola e trabalhavam no outro período para ajudar em casa. 
 Minha alegria foi embora quando uma triste notícia chegou, o João tinha sido atropelado perto de casa e não resistiu. Ele tinha só 45 anos, não viu os filhos crescerem. Fiquei sozinha com oito filhos, o mais novo tinha só um aninho. Meu coração se partiu!

A vida sem o amor e um motivo para continuar

Passei muito tempo de luto, o João era tudo pra mim. Eu lavava e costurava pra fora, rezava muito e perguntava pra Deus porque ele tinha feito isso comigo. Eu não tinha mais alegria para viver, não dançava mais. Vivia num pranto sem fim!
Os filhos foram crescendo, casando e saindo de casa. Logo vieram os netos…
Quando a vida ficou mais tranquila minha filha Glorinha chegou com uma novidade:
- Mãe, vai ter alfabetização para adultos lá no Centro de Florianópolis, já fiz sua matrícula! Não era seu sonho aprender a ler e escrever?
No dia seguinte, fui toda feliz na papelaria. Comprei um caderno, lápis e borracha, sentei na máquina de costura e fiz um estojo de retalhos. 
Estava muito ansiosa, eu queria muito poder pegar um ônibus e saber onde estava indo sem ter que perguntar para as pessoas o que estava escrito. Queria poder colocar tudo que eu pensava num papel. Queria saber o que estava escrito naqueles livros, queria saber mais de tudo. Poder ler um jornal, uma revista, escrever uma carta para os amigos… 
Meus filhos e netos ajudavam no começo, desenhar as letras não era fácil. Eu já tinha quase 70 anos! 
Quando comecei a ler, descobri uma alegria para viver. Fiz mais amigos e também comecei a participar de grupos da terceira idade. Voltei a dançar, fazia vestidos para as festas e também criava músicas e poesias. Depois de alguns anos, uma amiga me levou para conhecer um grupo de poetas que ela participava. Eu fui só conhecer, mas me perguntaram se eu gostava de poesia e se queria participar. 
Tomei coragem e declamei um poema, me aplaudiram e perguntaram como eu conseguia decorar um texto tão grande. Eu disse que tinha que ser boa em guardar as coisas na cabeça, fiquei muito tempo sem saber escrever.
Desde então, faço parte do Grupo de Poetas Livres. Tenho muitas poesias publicadas, muitas ainda na cabeça, nem tudo eu preciso escrever.
A alfabetização diminuiu a dor de ter perdido meu amor, a saudade eu transformo em poesia e assim os dias vão passando com mais alegria.

Já era quase meio dia, quando meu tio chamou para o almoço. Desliguei a câmera e paramos nossa conversa. Sem nenhuma dúvida, ela tem assunto e histórias para um livro inteiro e eu espero ter tempo para ouvir todas. Após o almoço, tive um tempinho para colher umas frutas e caminhar no mato na companhia do Mulambo. 
 Antes de pegar a estrada, fui presenteada com um café da tarde. Daqueles que só a vó sabe fazer, simples e com gostinho de infância. Lembrei das tardes que ficava com ela, sempre tinha farofa de banana. 
Desta vez, aproveitei para aprender como fazer essa farofa tão simples e que eu nunca consegui fazer igual. Tem coisas na vida que não adianta saber só a teoria…

“Minhas poesias já saíram de Florianópolis e atravessaram o mar, nos Açores foram passear”. As poesias feitas são publicadas nas revistas do Grupo de Poetas e distribuídas países de língua portuguesa
Um domingo no sítio do Maciambu: Dona Glória preparando o café da tarde com farofa de banana frita

Karla Regina de Souza

Estudante de jornalismo,
apaixonada por sabores e histórias ❤