As estrelas se reciclam

Por Carolina Golenia e Laura Berrutti

Entramos em um ônibus na estação Pop Center — popularmente chamada de “camelódromo” — rumo a uma região periférica da cidade de Porto Alegre. Vinte minutos depois, chegamos ao nosso destino. A rua está vazia e calma. A impressão é que não há ninguém lá dentro. O portão se abre e logo atrás está o guardião do lugar, observando de longe. Um cão acoa, como que para alertar que tem visita. Com longos cabelos negros, vestindo tênis e moletom, e carregando um ar de desconfiança: é assim que Maria Lúcia* nos recebe e nos encaminha até os fundos do terreno. Enquanto caminhamos, um odor familiar fica cada vez mais perceptível: o cheiro da lixeira pública que costumamos abrir depois de comer um picolé no parque.

Há lixo por todos os cantos e o odor fica mais intenso. Não são apenas plástico, papel, vidro e metal. Restos de alimentos também ocupam o espaço que, a princípio, não lhes foi reservado. Dois homens rasgam as sacolas que o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) recolhera na cidade, para facilitar a separação dos materiais, e as colocam na esteira. Trabalhadores são distribuídos por toda a extensão da máquina, cada um designado para uma tarefa. O primeiro grupo retira as sacolas plásticas da esteira. O segundo, recolhe as latas de refrigerante, os potes de plástico, as garrafas PET, separando cada tipo de produto em compartimentos diferentes. O terceiro, remove os papéis e qualquer outro artefato que possa ser reciclado. Tudo o que não é aproveitado é mandado para o aterro sanitário, principalmente os restos de comida, que constantemente são encontradas nas sacolas. Por último, os objetos, já separados por categorias, são colocados na prensa e preparados para a venda.

Os recicladores estão muito concentrados no seu trabalho, afinal, o salário deles depende da produtividade no galpão. Muitas empresas compram esses produtos para reciclar e reutilizar. Toda a verba que é arrecadada, após as despesas do galpão serem descontadas, é dividida entre os catadores. Aos poucos, passamos a compreender melhor a organização do espaço. O que antes parecia ser desordem, passou a fazer sentido. Talvez o nosso olhar é que estivesse desgastado. O “lixo” é o resultado do que consumimos, mas costuma nos causar estranheza.

Muitos daqueles trabalhadores não escolheram estar ali. Estão ocupando o lugar que lhes foi reservado por um modelo social excludente, no qual outras oportunidades de emprego se tornaram inviáveis. Alguns são ex-presidiários, outros estavam desempregados há muito tempo e, para a maioria, essa é a única fonte de renda da família. O número de trabalhadores é sempre variável, em torno de 30 a 50 recicladores, e há muita rotatividade nos galpões.

Dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) mostram que cada brasileiro produz, em média, 1kg de lixo por dia, ou seja, só em 2014, mais de 78 milhões de toneladas de resíduos sólidos foram geradas. Deste material, 30% poderia ser aproveitado, mas, atualmente, só 2% são reciclados no Brasil.

Em Porto Alegre, cerca de 120 toneladas de lixo são recebidas pelos programas de coleta seletiva por dia e podem passar por processos de reciclagem, segundo dados do DMLU. Ao todo, são 17 galpões de reciclagem na capital gaúcha. Mais de 750 pessoas trabalham nas unidades de triagem, com renda média de R$ 600 mensais.

Engana-se quem pensa que só há homens trabalhando nos galpões: segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 34,1% dos catadores de lixo da região Sul são mulheres. Em Porto Alegre, no entanto, mulheres são imensa maioria nas unidades de triagem. Conforme a prefeitura, 80% dos trabalhadores nos galpões são mulheres.

Nas atividades do galpão, cabe a elas a tarefa de separação do lixo, e aos homens aquelas que exigem força física, como manusear as prensas, pesar os fardos e carregar os caminhões. Esse fator acaba por caracterizar uma divisão sexual do trabalho, o que não significa que as mulheres estejam isentas de realizar atividades que culturalmente são classificadas como masculinas.

Aos 26 anos, Maria Lúcia é uma dessas mulheres. Hoje coordenadora de um galpão que fica em um dos bairros da periferia de Porto Alegre, passou por todas as etapas do trabalho de triagem. Filha de catadores de lixo, Maria Lúcia tem sete irmãos. Seus pais se conheceram nas ruas, onde moravam desde muito jovens, após a morte de parentes próximos. A moça lembra que seu pai e a sua mãe trabalhavam o dia todo para que eles conseguissem comer. Ele buscava o lixo de carroça na Ilha Grande dos Marinheiros, e ela separava os materiais para vender aos galpões atravessadores.

Ela e seus irmãos adoravam andar na carroça quando crianças. O tempo passou e, na adolescência, passaram a sentir vergonha, principalmente quando o pai os levava para o colégio. Na época, eles sofriam muita discriminação por parte de seus colegas de escola: muitos os chamavam de “maloqueiros”, “sujeiras”. Uma cicatriz nas costas de Maria Lúcia não deixa ninguém negar o seu passado. Durante uma aula de Educação Física, um menino a cortou com um pedaço de arame, depois de um dos irmãos tê-la defendido verbalmente por ela ter sido chamada de “carroceira”.

Um dia, a turma decidiu organizar um lanche coletivo. Maria Lúcia lembra orgulhosa que ajudou a sua mãe a separar materiais para poderem comprar salgadinho Milhopan e “suco de anilina”. A moça foi à escola muito feliz e satisfeita com a sua contribuição. Os outros colegas, no entanto, deixaram ela e a prima, que estudava no mesmo colégio, comendo sozinhas. Depois desse dia, elas passaram a matar aula e nunca mais voltaram à escola. “Era muita humilhação para a gente, o preconceito era nítido, até das professoras. E antigamente não se punia quando alguém cometia bullying”, desabafa.

Maria Lúcia é um exemplo de garra e de superação. Depois de muito refletir, ela não se sente magoada com tudo o que aconteceu, mas, sim, vitoriosa. A moça tem consciência de que se a vida dela tivesse tomado rumos diferentes, ela não estaria onde está, e nem seria quem realmente é. Talvez ela não estivesse gerenciando o galpão de reciclagem ou os catadores que trabalham lá não estariam empregados. “Tudo acontece por algum motivo, e Deus determina tudo na hora certa”, acredita Maria Lúcia. Um estudo realizado na UFRGS em 2010 demonstrou que, no Rio Grande do Sul, 45% dos catadores de resíduos terminaram o ensino fundamental e que, destes, 37,8% se graduaram no ensino médio. Ela não vê as dificuldades como problemas, mas como oportunidades de crescimento. Muito amorosa e dedicada, Maria Lúcia tem um ar maternal, de quem se preocupa com os outros e procura sempre o melhor nas pessoas.

“Infelizmente algumas pessoas são usadas como degraus para que outras consigam subir, mas isso não torna ninguém mais forte do que ninguém. O que seria de nós se não tivéssemos um testemunho? Nada é fácil, passamos por várias situações na nossa vida para chegar onde nós estamos. E isso não é lamentação, precisamos da troca de saberes”, diz.

Uma das maiores lembranças que a moça tem da sua infância e juventude é a do seu pai, ele sempre trabalhou constantemente para sustentar a família, porém sempre foi muito rigoroso. Para ele, se ela começasse a namorar já era para sair de casa. E assim aconteceu: com 16 anos, Maria Lúcia foi morar com o namorado. Ela conta que sofreu agressões do companheiro e, logo após a separação, ela engravidou de sua primeira filha.

Nesse meio tempo, ela voltou a morar com os pais, em um lotamento no bairro Humaitá. Poucos meses depois, todos precisaram sair do espaço em que anos depois a Arena do Grêmio iria ser construída. A família, então, foi deslocada para outros terrenos e começou a catar lixo na Ilha dos Marinheiros. Maria Lúcia morava com irmãos em uma casa de passagem, já a mãe recebera moradia da prefeitura. A questão financeira começou a piorar e o pai decidiu começar a trabalhar como segurança à noite, enquanto ela, grávida, foi para um galpão de reciclagem.

Tempos depois, no meio de uma madrugada de 2007, Maria Lúcia desperta com a cama úmida, e acorda a irmã, desesperada, dizendo que “estava fazendo xixi sem parar”. Ambas pegaram no sono novamente e, às 10 horas da manhã do dia seguinte, ela caminhou durante 15 minutos até a casa da mãe. De lá, chamaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foram, juntas, ao hospital Cristo Redentor para o nascimento da primeira filha de Maria Lúcia.

Mas a vida, às vezes, é imprevisível, e temos que buscar forças antes desconhecidas dentro de nós.

Depois de três dias no hospital, Maria Lúcia chega à casa dos pais às nove horas da noite. O pai está cumprindo o seu segundo turno de trabalho como vigilante e ainda não conhecera a neta. Na manhã seguinte, ele acorda e passa reto por todos na sala, porque precisava ir ao mercado. Era para ser uma saída rápida, mas aquela seria a última vez que ele sairia de casa.

O movimento na rua era grande, todo mundo corria para tentar socorrê-lo. A família de Maria Lúcia já estava lá fora, assim como toda a vizinhança. Ela ficara sentada no sofá, recuperando-se da cesária que havia feito: agoniada, pensando que o pai havia sido atropelado. A moça, então, levanta-se do sofá, com muita dor na barriga por causa da cirurgia, e vai e encontro do pai, que estava deitado de lado no chão, com muito sangue por todos os lados. Ele dizia, ainda consciente: “Filha, vai para casa”.

“Nunca imaginei que o meu pai iria ser baleado. Foram oito tiros”, lembra Maria Lúcia, com lágrimas nos olhos e com voz rouca. Com a morte do pai, a família se desestruturou: “A gente não sabia o que fazer, todo mundo era trabalhador, não éramos do crime”.

O apoio dos amigos da família foi fundamental. Eles não tinham dinheiro para pagar o velório e todo mundo ajudou com o que pôde. O pai de Maria Lúcia era respeitado pela vizinhança e fora dela também. A moça lembra com carinho do pai, diz que quando alguém precisava de ajuda, ele fazia o máximo para contribuir, nem que fosse para “dar algo que nem ele tinha”. Ele e a esposa estiveram juntos por 28 anos. “Nunca vi os meus pais brigando, o amor deles era muito mais que uma amizade. Nunca vi meu pai levantando a mão para ela. Até hoje, minha mãe guarda as roupas dele embaixo da cama”. Maria conta que sua mãe não arrumou namorado após a morte de seu pai. “Ela sempre foi e ainda é muito fiel”.

Nessa época, no galpão em que Maria Lúcia trabalhava, ela observava que somente o papelão era retirado da caixa de rejeito e que o resto era jogado fora. Ela pensou que esse material poderia ser rentável e que a mãe e irmãos poderiam coletá-lo para vender. Então, ela conversou com o coordenador do galpão, e ele, desconfiado de que esse projeto daria certo, aceitou a proposta. Eles também ficaram responsáveis por recolher todo o produto que caísse no chão durante o processo de triagem do galpão.

Com o tempo, a mãe e os irmãos passaram a receber mais dinheiro do que ela, que trabalhava na triagem do galpão. Maria Lúcia, então, resolveu trabalhar com a família. Ela conta que a maioria dos responsáveis do galpão não gostou de saber que eles estavam ganhando essa quantia e que havia 12 pessoas a mais no espaço, então resolveram expulsar a família do galpão. Eles passaram a separar os lixos em uma estação desativada de trem perto do antigo local de trabalho, até que um dia eles foram denunciados e a prefeitura avisou que eles precisavam sair de lá.

Maria Lúcia ficou desolada, mas não perdeu a esperança. Ela foi à igreja. O pastor disse que dentro de três dias uma pessoa que estava no culto iria receber o que estava pedindo. Três dias depois, um grupo de vereadores foi até a estação desativada. A moça conversou com eles sobre as demandas e dificuldades que sua família estava passando. Sem hesitar, o grupo resolveu entregar para ela um terreno para construírem um novo galpão.

Hoje, 14 anos após ter abandonado os estudos, ela está cursando a sexta série no Programa Educação de Jovens e Adultos (EJA) e sonha em fazer faculdade: ou Engenharia de Produção ou Gestão Ambiental, algo relacionado ao trabalho que já realiza no galpão. Para Maria Lúcia, lixo é o que as pessoas acham que não tem proveito, mas assim como as estrelas no universo, que liberam materiais responsáveis pela formação da próxima geração de estrelas e planetas, ela diz, com a sabedoria de quem soube reciclar a própria vida: “Lixo é um sentido que o ser humano deu para alguma coisa que se descarta. Mas, na verdade, nada é lixo, tudo é aproveitável.

*Nome foi modificado para preservar a fonte

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