Sem música, estaríamos pior

Ananda Zambi

Quem nunca quis ter uma banda, que atire a primeira pedra. Tá, não precisa atirar, mas a verdade é que uma grande parte das pessoas já quiseram (e querem) se expressar autenticamente através da música. Numa noite quente de abril, em um sobrado de Porto Alegre, o músico Bruno Ruffier me convidou para tomar uma cerveja. Achei que seria uma entrevista comum, mas não foi. A conversa descontraída me fez perceber que o mundo da música, em sua maior parte, não é feito de luxos ou regalias.

Bruno Ruffier. Foto: acervo pessoal

“Os Henriques”

Bruno tem 26 anos e é guitarrista da banda de rock retrô Baby Budas, que tem pouco mais de um ano de existência. A banda demorou para ser formada, visto que é difícil arranjar baixista e baterista. “Pelo menos um que saiba fazer o que a gente quer”. Ela surgiu pela vontade dele e de seu primo, o tecladista e também guitarrista Henrique Cardoni, de fazer um som juntos. Depois da entrada de Henrique Bordini (baixista), só faltava um baterista para a banda ficar completa. Alguns bateristas passaram pela Baby Budas até chegar a um fixo, que também se chamava Henrique. “Sempre faziam essa piadinha infame de que a banda podia se chamar ‘Os Henriques’, se não fosse por mim”, desabafa Bruno, aos risos. Hoje, o atual baterista se chama Juann Acosta, e a piada dos Henriques acabou.

O estudante de Direito diz, logo de cara: “Para manter uma banda, tem que ter disposição para se f****” — se meter em programas que tu pensas que vai ser de um jeito e não é: som horrível, tudo dando errado, tomando choque, equipamento caindo aos pedaços. A gente foi aprendendo a se virar em meio ao caos”. Eles já fizeram cerca de 20 shows na carreira, sempre correndo atrás de tocar nos lugares, e Bruno acha que isso nunca vai mudar: “O mercado é ruim e não existe na gente uma intenção grande de fazer sucesso”. Mas claro, nada impede que eles, um dia, fiquem famosos. “Eu acho que isso é possível de acontecer. A gente não é tão ruim assim”, diz o catarinense de criação, em um lapso de otimismo e esperança. Apesar disso, reitera que, se isso acontecer, ele e seus colegas vão continuar estudando e fazendo outros trabalhos. Juann é professor de inglês e espanhol em um colégio de Porto Alegre, Henrique Cardoni trabalha no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e estuda Letras e Bordini faz faculdade de direito, assim como Bruno.

Toda banda tem um jeito de se divulgar. E no caso da Baby Budas, que não tem nem produtora nem assessoria, são os próprios integrantes que cuidam disso. Com 1034 curtidas na página do Facebook, a rede social da banda é a principal ferramenta de divulgação deles. Por enquanto, o que eles já gastaram no total com postagem patrocinada foi 18 reais. “A gente só perde dinheiro”, afirma Bruno. Pergunto quanto a banda gasta por mês, em média, e ele diz que, se parar para pensar nisso, a banda acaba. “Mas estamos gastando a incrível soma de 2500 reais no nosso disco (Baby Budas no Jardim de Infância), que sai no final de agosto”, revela.

Baby Budas, com o antigo baterista Henrique Richter. Foto: André Monges

Garage surf punk trash

Diferentemente da Baby Budas, a banda Mary O and the Pink Flamingos teve projeção nacional logo quando colocou suas músicas na internet. “Com um mês de banda, já estávamos tocando em tudo que era festival que rolava e, com alguns contatos, fizemos vários shows em Porto Alegre e pelo Brasil”, conta Maria Otília, guitarrista e líder da Mary O. O power trio define seu som como “garage surf punk trash” e, sinceramente, acho que não há definição melhor. É uma inusitada mistura.

Mary O and the Pink Flamingos tem quatro anos de existência e quase 100 shows no currículo. Mas o discurso é o mesmo: muitas vezes se entra em roubada e é assim que se aprende. Porém, Maria diz que, ainda assim, vale a pena viver nessa eterna aventura: “Fazer o que ama e se divertir é a melhor coisa do mundo. Aí só faltaria a grana. Aí sim seria perfeito!”.

Com relação a grana, Maria Otília também não sobrevive de música. Ela tem uma marca de roupas e acessórios DIY (Do It Yourself/faça você mesmo, tradução livre) e diz que a grana que entra através da banda é bem pouca. “É muito difícil ganhar grana com banda underground. Quando rola, é pouquinho e divido entre o trio”, diz a guitarrista. E como gastam o que ganham?, pergunto. “Fazemos investimento no nosso primeiro disco (Flamingo Attack) que está praticamente pronto”, revela Maria. Mas adverte: “No fim, tudo sai do nosso próprio bolso, mesmo”.

Mesmo já tendo tocado em vários lugares do Brasil, a Mary O sequer chegou a assinar algum contrato com gravadora. “Parece surreal hoje em dia essa possibilidade, parece algo do tempo das cavernas”, diz a frontwoman, com toda a razão. Apesar da visão realista, o sonho continua, só que adormecido: “Mas claro que aceitaria. Por que não?”. Maria aceitaria e Bruno também.

Mary O and the Pink Flamingos. Foto: Guilherme Martins

O futuro não é mais como era antigamente

Segundo André Pequeno dos Santos em seu artigo A Indústria Fonográfica nos Tempos da Internet: Como a Pirataria Pode Modelar Novos Modelos Para a Música, dos 10 álbuns mais vendidos de todos os tempos, 8 são do período entre os anos 1960 e 1980. Isso é um reflexo de como o mercado fonográfico mundial adquiriu novos hábitos de consumo e também de produção de música com o passar dos anos.

Ícone do rock gaúcho, o músico Frank Jorge conta que, apesar da maior dificuldade de se conseguir instrumentos e gravar em estúdio na década de 1980 em relação aos dias de hoje, naquela época já existiam iniciativas facilitadoras, como selos independentes. “O Selo Vortex, por exemplo, organizado pela banda Os Replicantes, lançava fitas k-7 com materiais originais/autorais das bandas e gerava repercussão, possibilidades de shows”, diz Frank.

O músico já tocou em, pelo menos, quatro bandas, incluindo Os Cascavelletes e Graforréia Xilarmônica, sucessos nos anos 1990. Com 30 anos de carreira, Frank Jorge admite que, realmente, está mais acessível, financeiramente falando, formar e manter uma banda. A dificuldade agora é outra: ter autenticidade. “A maior dificuldade para uma banda hoje é criar ‘linguagem’, um som que tenha cara própria e não tente imitar outras bandas. Porque, de certo modo, hoje é muito acessível comprar um bom instrumento, ter acesso a inúmeros referenciais culturais e, principalmente, disponibilizar o seu material ao mundo”, supõe Frank.

Por fim, o frontman da Graforréia Xilarmônica acha que os principais desafios de se manter um conjunto são a dedicação e o profissionalismo. “Para que uma banda realmente aconteça e passe a existir, tem que ter muito empenho. Não adianta ter todos estes recursos (internet/instrumentos/equipamentos) e esperar que o milagre aconteça por si só. Tem que ralar, batalhar, dialogar com pessoas de outros estilos, outras linguagens artísticas. Para ser bom e reconhecido em qualquer profissão, exige esforço”.

A venda de músicas foi uma das coisas que mais mudaram no mercado fonográfico. Segundo dados da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), as receitas da área digital já representam mais da metade do faturamento com música gravada em 19 países, incluindo o Brasil. E, sim, as vendas físicas recuaram 19,3% no país em 2015.

Minha conversa de bar com Bruno Ruffier continua. Ele conta que não acredita mais no CD como uma forma única de consumir música, tampouco só nas plataformas de streaming, como o Spotify: “Parece que ninguém mais ouve CD, poucas pessoas ouvem vinil e todo mundo ouve música na internet com 580 abas abertas e ninguém mais presta atenção em nada. Tu tens que oferecer uma multiplicidade de luzes piscantes e estímulos para a pessoa prestar atenção no que tu tás fazendo. É difícil”. Levando em conta essa dificuldade, a Baby Budas pensa em investir na divulgação de suas músicas (e da banda) de uma forma diferente: fazer um zine (periódico artesanal). Um zine que remete ao futuro disco online que oferecerá fotos da banda, letras das músicas e desenhos. “Pelo menos a pessoa vai ouvir aquilo ali folheando o zine, sentindo o cheiro do papel… Ficaria barato”. E original.

Mas por que todo esse esforço, todo esse gasto, passar por todos esses perrengues? A resposta do guitarrista me fez entender tudo, mas tudo mesmo: “Banda não é um investimento. É um momento. É dar sentido para a vida e fazer algo que gosta, para, quando em leito de morte, olhar para trás e gostar do que viveu.” Tem uma música da Baby Budas (a minha favorita, acho) que se chama “E Sozinhos (Estaríamos Pior)”. Ainda bem que não estamos sozinhos.

Baby Budas, em sua formação atual. Foto: Andreia Dias