ARTIGO: Nem para um lado nem para o outro

Imagine as torcidas do Grêmio e do Inter dentro da Assembleia Legislativa envolvidas em um debate sobre qual dos dois times é maior. Você deve estar se perguntando qual a relação entre política e futebol neste caso. Na teoria, nenhuma, mas no discurso é surpreendente. É fato que o cenário político do Brasil é de incerteza e frustração para todos os lados. No entanto, se engana quem pensa que o problema está apenas nas denúncias de corrupção e descrença partidária.

Neste momento, o maior desafio do país é a convicção de posições políticas ao se definirem em direita e esquerda. Por isso, propus que imaginássemos a grenalização deste cenário. Isso porque essa polarização não é apenas uma situação hipotética, mas se faz presente nas assembleias, no congresso nacional e nos protestos.

Essas ideologias surgiram durante as assembleias francesas da Revolução Francesa, época em que a burguesia procurava diminuir os poderes da nobreza e do clero. A esquerda estava ligada a luta pelos direitos dos trabalhadores e da população mais pobre, a promoção do bem estar coletivo e participação popular dos movimentos sociais e minorias. A direita, por sua vez, representava uma visão mais conservadora, relacionada a um comportamento tradicional, que pretendia manter o poder da elite e promover o bem estar individual.

O que acontece é que, ao longo do tempo, estas definições foram adaptadas e distorcidas, principalmente quando passaram a ser usadas para diferenciar um grupo que está contra as ações do governo vigente daquele que está, supostamente, a favor. No Brasil, a polarização se fortaleceu durante o período de ditadura militar no Brasil. Norberto Bobbio, na década de 90, no livro “Direita e Esquerda — razões e significados de uma distinção política”, afirma que esquerda e direita indicam contrastes não só de ideias, mas também de interesses e valorações a respeito da direção a ser seguida pela sociedade. Segundo o filósofo, apesar de renegadas, essas expressões persistem nos discursos políticos.

Neste contexto, os meios de comunicação reforçam essa dicotomia pós-moderna. Recentemente, uma revista de distribuição nacional propôs, por meio de quatro perguntas, que o leitor descobrisse o lado em que estava com o seguinte convite: “Você é de direita ou de esquerda? Faça o teste”. Esse é apenas um dos exemplos de desinformação ao qual somos expostos diariamente. As notícias e publicações que deveriam esclarecer acontecimentos aos brasileiros, acabam por fomentar a falta de conhecimento, além de contribuir consideravelmente para o aumento do problema político do país. A polarização se apresenta então como perigosa, pois gera intolerância e imobilização da sociedade.

Texto: Nicole Feijó

Edição: Sofia Schuck, Eduarda Endler Lopes, Isadora Assis, Michele Nascimento

Diagramação: Vitória Mollerke

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