CRÔNICA: A rotina e a chacina

É interessante observar a rotina do cidadão. Muitas vezes simples, carregada e repetitiva. Mas não é interessante estar nela. Ao levantar pela manhã, o rádio e a TV começam o massacre psicológico para o decorrer do dia. O medo e insegurança levantam juntos, e numa xícara lilás é servido o café quente acompanhado do ódio político. Ao lermos um jornal, podemos dizer que nossa torrada está servida, assim como a má vontade de se manter estável na atual situação econômica do país. É difícil ouvir tantos termos, tantas informações neste espaço curto de tempo. A audição do nome José Ivo Sartori é amarga para todos os lados. Ainda mais levantados no palco, que é o ônibus lotado. Mas olhe bem, o dia está apenas começando.

Chegar no trabalho se tornou terapia, ser dissecado mentalmente e fisicamente virou fonte de relaxamento. E é assim que funciona durante o dia. Discussões são bem-vindas durante o almoço, “Cadê a segurança, a educação e nossa sanidade?”. Quando o nome do atual presidente é citado, são diversas balas que atravessam a carne fraca do popular, esperando que o atirem no riacho a qualquer momento. São muitos escândalos, pendências, preocupações, e também, pouco tempo para viver. Tem aqueles outros políticos que dão as caras de vez em quando. Coadjuvantes dos pesares ambulantes que se esgotam a cada dia. “Ah, dane-se”. A volta no ônibus dobra o desgosto, acompanhado do suor e do sangue, que juntos lubrificam as solas dos demais. Mas o dia se encaminha pro fim, diferente das investigações, que permanecerão arquivadas, até a chegada da aposentadoria após a reforma da previdência.

A recepção em casa é meramente ilustrativa, todos sabem que isso não acabou e vai continuar por um bom tempo. Afinal, a rotina se mantém até o final da vida. Por incrível que pareça, o estágio final da vida é o principal objetivo de quem se mantém nessa tortura. É a fase onde todos querem chegar: velhos, aposentados, verdadeiros veteranos de guerra. Por dias aguentaram ser baleados, enquanto lá em cima, os comandantes de terno e gravata desfrutam de todo pouco caso, da chacina psicológica que amedrontou a todos durante muito tempo. Ninguém vai se recuperar disso, os livros de história vão contar, mas o nome do ser rotineiro e infeliz não estará lá. É injusto e triste, um azar imensurável para aqueles que por acaso vieram parar aqui. Eles não serão lembrados, mas o barulho do despertador tocará mais uma vez. Um novo dia está prestes a começar.

Texto: Edisson Schwartzhaupt

Edição: Sofia Schuck, Eduarda Endler Lopes, Isadora Assis, Michele Nascimento

Diagramação: Vitória Mollerke