CRÔNICA: Nirvana

Um brasileiro típico é caracterizado por uma variedade de fatores: o carisma, a receptividade, os hábitos únicos — que sequer se assemelham com os dos nossos vizinhos latino-americanos. Porém, além disso, somos um povo em constante processo de polarização.

Talvez seja a grande influência exercida pelas telenovelas, tradicionalmente maniqueístas, na nossa cultura. Frio e calor. Praia e serra. Cães e gatos. Cachaça e cerveja. Grêmio e Internacional. Esquerda e direita. Tudo, no Brasil, gera uma nova discussão — algumas pacíficas, outras nem tanto.

São raros os momentos, fatores ou pessoas que conseguem unir toda a nação em prol de um só ideal. Nem mesmo a seleção brasileira de futebol, alvo de diversas críticas desde o pentacampeonato conquistado no Japão, em 2002, é vista como unanimidade em nosso país. Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, já havia tweetado em 2013: “nos falta uma banda que una todas as tribos. Como foi o “Norvana”.

De fato ainda não encontramos uma banda tão popular ao ponto de fazer parte das playlists de brasileiros, de norte ao sul, como foi o “Norvana”. Em contrapartida, o destino fez com que, após uma série de fatores inconstitucionais, conhecêssemos um indivíduo que uniu todos nós — da extrema direita à extrema esquerda — sob um único ideal: o ódio.

A impopularidade do presidente Michel Temer é um fato espetacular. A última pesquisa, realizada pela consultoria Ipsos e publicada no portal UOL, reforça este fenômeno: 4% dos eleitores entrevistados consideram o governo “bom” contra 92% veem o país no rumo errado.

Em um cenário como este, sua queda seria iminente. Contudo, como todo político minimamente competente aprende em suas primeiras experiências de poder, Temer se vê muito bem cercado de aliados fiéis — do presidente da câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), até as mentes ligadas ao judiciário. Sua permanência até o fim do mandato é muito provável — por mais impopular que seja a sua figura política e as medidas que propõe.

Assim, a união do povo brasileiro já ganhou um novo prazo de validade: 2018, ano de início da próxima campanha política. E, por mais maniqueístas que sejamos, temos o dever de usarmos o nosso voto de forma racional — do deputado estadual ao próximo presidente, de fato. Para que assim possamos continuar polarizados e maniqueístas em paz, com a consciência limpa de não termos um presidente ilegítimo ocupando o posto mais alto do escalão político nacional.

Texto: Aristoteles Junior

Edição: Sofia Schuck, Eduarda Endler Lopes, Isadora Assis, Michele Nascimento

Diagramação: Vitória Mollerke

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