MAIS UM AMBULANTE?

Vendedores de praia contam suas histórias de vida e falam como seu trabalho é feito.

Por Redação

Morro do Careca, praia de Ponta Negra. Natal/RN (Foto: Blog do Morel)

O vendedor de ginga e tapioca. A moça do camarão. O rapaz do crepe. O perambulante de coco. A artesã. A diversão na praia dos que querem curtir o mar contrasta com a realidade difícil de quem tem o trabalho árduo de sol-a-sol.

Em uma tarde de segunda-feira, na baixa estação, buscamos histórias de vida de pessoas muitas vezes ignoradas ou maltratadas. Em diferentes praias da cidade, ambulantes contaram suas histórias de vida, seus desafios, e as circunstâncias que os fizeram decidir trabalhar como vendedores.

O VENDEDOR DE CREPE APROVADO POR JACQUIM

Por Kevin Yamada e Luiza de Paula

Regis mostra o carrinho e seu crepe (foto: Luiza de Paula/Agência Fotec).

Quinze anos. Este é o tempo que Jerry Adriano dos Santos, o seu Regis, trabalha como ambulante na praia de Ponta Negra, destino turístico mais procurado de Natal e do Rio Grande do Norte. A beleza encantadora do mar e do Morro do Careca é a casa de Regis, que passa seus dias vendendo crepe no carrinho de um amigo. Ele não gosta de tomar banho de mar, mas conta que relaxa vendo a praia. Pelo serviço, o homem quieto, de 36 anos, ganha uma diária de cinquenta reais.

Pode soar como pouco dinheiro, mas seu Regis agradece por ter um valor fixo, independentemente do movimento do dia. “Trabalhando com honestidade, o pouco, com Deus, é muito”. Como um olhar observador sobre tudo, ele vê a praia ficando cada vez mais cheia de ambulantes e conta sua vivência em seus dias de glória como vendedor, em 2002, quando seu patrão-amigo tinha quase todos os carrinhos ambulantes da orla.

Hoje, Huson vive sozinho na Vila de Ponta Negra, numa casa alugada. Quando sente vontade, diz que toma uma cerveja num bar perto de casa após o trabalho. Não gosta muito de sair de casa. Seu salário mensal é o suficiente para suprir seus poucos gastos com alimentação, aluguel, energia e com seus momentos de diversão com os amigos.

Nos quinze anos ganhando a vida na praia, passou um ano e quatro meses sem ser funcionário de Hudson, que nunca deixou de lhe pagar. Durante um ano, tentou ser autônomo. Durante dois meses, saiu para ser gari na Marquise, onde recebia menos que hoje. Em outros dois meses, trabalhou vendendo crepe para outra pessoa que “ofereceu vantagens, mas pisou na bola”. Nos três retornos, sempre foi recebido pelo chefe, que o conhece desde os dez anos de idade, sem nenhum problema. “Quem trabalha com honestidade sempre tem o trabalho reconhecido”, conta.

Animado, relata os famosos que conheceu na praia. Diz que já viu os humoristas Shaolin, Espanta Jesus, e Zé Lezinho. Alegra-se ao contar que já tirou foto com seu mais especial cliente, o chefe Érick Jacquin, que comprou — e aprovou — o crepe em todos os dias durante a estadia em Ponta Negra. “Sempre pedia o crepe de Nutella”. Além dos famosos, fala que uma década e meia na praia o fez conhecer muitas pessoas e fazer amigos.

Seu Regis, falando sobre dificuldades, revela que a prefeitura proíbe que os carros fiquem no calçadão, e que a fiscalização apreende carrinhos quando não é possível deixá-los na praia, por conta da maré alta. “A própria justiça gosta que seja vagabundo”. No final do dia, o patrão paga R$7,00 para dois jovens empurrarem o carrinho ladeira acima, quando Regis leva-o até a casa de Hudson.

DOIS FILHOS E UM CARRINHO DE COCO

Por Pedro Maciel e José Geraldo

Josimário vende cocos na Praia do Forte (Foto: Pedro Maciel/Agência Fotec).

Padeiro de profissão, vender água de coco na Praia do Forte é hoje a fonte de renda de Josimário. Nascido em Poço Branco, baixa verde potiguar, o vendedor ambulante migrou para Natal em busca de uma oportunidade de trabalho e, motivado por Jose, seu filho, encontrou na praia a solução para cuidar de sua família.

“Certo dia o meu mais novo chegou em casa com o equivalente a duas diárias minhas como padeiro, foi aí que vi que o cocô poderia ser uma alternativa para pôr comida em casa”. Fala o vendedor sobre a influência do filho no inicio da sua profissão.

Vindo do interior e pai de dois filhos, Jose e Joedson, órfãos de mãe, o ambulante tem a dura missão de construir cotidianamente, por meio de seu trabalho honesto, as garantias para o futuro de seus filhos. Ciente da dificuldade relativa à instabilidade da profissão, Zosimário se utiliza do bom humor para cativar e fidelizar seus clientes. “O sorriso no rosto é o meu melhor coco” diz o vendedor.

Acompanhamos o início do dia ao lado do ambulante. Residente do Bairro de Santos Reis, ele sai todos os dias às 7h e caminha de sua casa até a Praia do Forte, local onde fica até às 17h exposto ao sol e ao calor. “É aqui o meu local de trabalho, não é fácil, mas é honesto, digno”, conta-nos o ambulante sobre o orgulho da sua atividade laboral.

A ARTE DA SOBREVIVÊNCIA

Por Aline Anúzia e Letícia Clemente

Elis, à esquerda, e seu filho Jorge, à direita, no calçadão da praia de Ponta Negra expondo as peças da artesã (Foto: Arquivo pessoal).

Natural de Jaboatão dos Guararapes (PE), filha de Napoleão Rodrigues de Araújo e Maria Aldelino de Araújo, Elisabeth Rodrigues de Araújo, segundo grau completo, tem 32 anos e uma história movimentada para contar. Por conta própria, deu seus primeiros passos na arte manual ainda criança, fazendo “xuxinhas” de retalhos e roupinhas de boneca para vender.

Com um pai alcoólatra e uma mãe analfabeta, Elis, como gosta de ser chamada, conta que teve uma infância tranquila. Foi criada com liberdade, fazia de tudo e ia de bicicleta onde bem entendia. Morou em Recife até 1998, quando, após a morte de seu pai devido a um câncer de garganta, seguiu com sua mãe para Campina Grande (PB). Entre idas e vindas pela Paraíba, sempre junto com sua mãe, conviveu com artesãos e desenvolveu sua própria arte.

Elis decidiu morar em João Pessoa em 2008, quando seu primeiro filho nasceu. Para ela, nas praias de lá haveria melhor mercado para suas bijuterias; Mas foi de 2010 a 2015 que a pernambucana teve sua melhor fase financeira, quando mudou-se para Pipa (RN). Nesse período, quando teve sua filha, nunca se preocupou com baixas; não faltavam clientes e boas vendas. Em plena boa fase, ainda em 2015, Elisabeth veio com a família para Natal, onde reside até então.

De segunda à sexta, 5:30 da manhã, Elis acorda para preparar e levar sua filha de 5 anos de ônibus até a creche, na Vila de Ponta Negra. De lá, desce para trabalhar na praia. No fim da manhã, sobe para buscar a filha e juntas retornam para Nova Descoberta. Às vezes retorna à praia, depende do movimento do dia. Nos fins de semana toda a família vai à praia.

Elisabeth costuma fazer uma produção grande de peças para ficar um bom tempo se preocupando só em vender. Ela também trabalha com filigrama em aço, que é árduo de fazer, calejando as mãos, mas tem um resultado delicado muito bonito. Infelizmente, para ela, não há mercado para isso aqui na capital potiguar. A pernambucana revelou que as vendas estão muito baixas e pretende voltar a morar na Pipa pra gastar menos com transporte.

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