RUIDO BRANCO CHEGA A SÃO PAULO

Aqueles que tem o habito de acompanhar a Cantora Ana Carolina em suas apresentações achou estranha a estreia de “Ruído Branco”, dia 9 de fevereiro no Teatro Santander em São Paulo — show homônimo de seu livro lançado em meados de dezembro, pela Editora Planeta. O silencio da plateia era inquietante. As conversas em voz baixa, quase sussurrantes parece que anunciavam o tom do espetáculo. Mas quem esperou por músicas e apresentações do conhecido repertório da artista, recebeu uma dose elevada de Ana Carolina, exposta como nunca vi em nenhum artista, emoção a flor da Pele, na alternância entre poemas de sua autoria, canções suas e outras emprestadas de vários compositores, como Kiko Zambianchi, Rita Lee e Renato Russo.

A voz de Maria Bethania cortou o silencio numa Rotatória de palavras, com o vídeo de Grima Grimaldi ao fundo. Imagens urbanas se sucediam na sensibilidade de uma artista conectada a existência humana. “A vida inteira já não basta… Agora você sabe quem eu sou e por isso me desconhece”. O texto parece prenuncio da vida real. Com 18 anos de carreira completos em 2017, Ana Carolina já testou vários ritmos, parcerias, experiências vividas nos palcos brasileiros, diria mesmo do Oiapoque ao Chui — e Internacionais com shows em Portugal, França e Canadá entre outros.

A cantora arrasta multidões de fãs que não poupam esforços para segui-la. Atualmente com mais de 9 FC´s é comum ver as notícias sobre sua intimidade espalhadas pela WEB. Mas quem de fato conhece Ana Carolina? Ou quem a conhece de verdade, ou apenas vê a artista multinstrumentista, escritora, compositora, pintora, desconhece a Ana Carolina que treme ao ler “O silêncio” para a plateia que mal respirava. Ali ela é a menina criada no amor da mãe e na ausência do pai. Uma saudade de “não sei como podia ter sido”, de lembranças que podiam existir, mas se alimentam de pura imaginação, na adulta que expressa com sensibilidade a poesia da falta, da carência. Neste momento do show, ela está definitivamente entregue ao seu público. Quem precisa de fofocas privadas para quem recebe de graça um pedaço do coração da artista, dos seus segredos e de sua vida?

A música “Outras paisagens” (Ana Carolina / Edu Krieger) explode serena (como se essa conjunção fosse possível) nas caixas de som do Teatro Santander. É o desejo em ver outras paisagens, o desejo de querer ir, e que é preciso andar, num “estágio mais avançado de si” (Eu, Eu/Ana Carolina — Ruido Branco). A mostra de uma Ana Carolina que extrapola os palcos. Séria, compenetrada. Nervosa. “Como se falasse atrás de uma porta fechada” pela primeira vez ao público. A sequência se encerra com: “Dentro de mim mora um anjo” (Sueli Costa e Cacaso): e será que isso é uma paráfrase da artista? “Quem me vê assim cantando/Não sabe nada de mim/ Dentro de mim mora um anjo/Que arrasta suas medalhas/E que batuca pandeiro/Que me prendeu em seus laços/Mas que é meu prisioneiro”.

Qual é” mais uma poesia musicada saída do livro da cantora/escritora— não podemos deixar de reconhecer os poemas que vieram ao mundo em formato de música como: “Eu que não sei quase nada do mar” (Ana Carolina/Jorge Vercillo), “Trancado” ( Ana Carolina) entre outras — chega com força, num ritmo forte, num drama compartilhado, vivenciado na rua, no metrô, “ a origem do mundo ou a parada gay/ O seu pranto, seu líquido sal/um filme da fatalidade da vez/ ou a banalidade do mal”. Paradoxo com a realidade inventada e água com açúcar da TV. Atual como “Noticias populares” (Ana Carolina), simbólico de um temperamento que não aceita o mal caratismo como resposta a maldade. Aliás por falar em mal caratismo, singelamente Ana Carolina relembra que Temer também já escreveu um livro de poesias em 2013,e recitou uma inédita do atual Presidente: “No meio do caminho tinha uma pedra no caminho/ Tinha uma pedra no meio do caminho/A pedra se chama Dilma, pra quem não entendeu/Eu tirei essa pedra e agora pedra sou eu”.

Num texto inédito faz uma rápida viagem ao futuro onde é seu neto que pergunta: você escreveu um livro vovó? Escrevi — responde, mas a falta de conectividade desse artefato do passado perde o interesse nas décadas que virão e por aqui — no presente — há aqueles que compraram e fingiram que leram, uma parcela que não entendeu e outra que tornou a leitura uma breve passagem.

Shangrilá (Rita Lee e Roberto de Carvalho) emerge com o espírito roqueiro da cantora, música de autoria conhecida e reconhecida pelo tempo, e “ Preciso cantar” (Arthur Nogueira e Dand M) onde ela se dispõe a dar credito a novos compositores, na sequência do espetáculo, fazendo ligação da canção ao poema Voo (Ana Carolina / Ruído Branco).

O que pode parecer aos menos avisados um roteiro aleatório ou panfletário fica a dica: o show Ruído Branco é um grito. Grito de uma arte multidimensional e mal compreendida muitas vezes pela crítica literária/musical (aliás para que a crítica literária/musical, não é mesmo? Ignore-se os padrões de sei lá quem comparado ao que sei lá o que. Tem gosto pra todos nessa vida e não somos ninguém pra dizer o que presta ou não, quando muito o que gosto e não gosto e gosto é como aquele ditado; … cada tem o seu, não é mesmo?)

A combinação sistemática de textos e música é para a gente que sente, que pensa, que se dispõe a receber o presente concedido pela cantora/autora Ana Carolina. É um espetáculo que passeia da infância (Andaime/Ana Carolina/Ruído Branco) a maturidade (Não Leiam — poema lido por Lazaro Ramos -Ana Carolina/ Ruído Branco).

A voz que decidida declamou no teatro Santander na noite do dia 9 de fevereiro, “A Selva” se aventura num ritmo próprio, pessoal, mesmo quando inclui no set list músicas como “Mais uma vez” (Renato Russo e Flávio Venturini), ou “Primeiros Erros” ( Kiko Zambianchi) assumindo o risco de uma criação e direção 90% sua. Sobrecarga emocional nítida no palco, com suspiros, e minutos contados do início ao fim. Talvez devesse dividir o peso de tudo com um diretor de cena — afinal o que “Ruído Branco” se propõe é exaustivo do ponto de vista emocional.

O espetáculo diga-se de passagem, vai na contramão da crise brasileira. Elaborado em cerca de três meses e meio, é “bancado” pela Cantora que produziu e editou os vídeos especialmente feitos para o evento.

Ao final do show, se recolhe aos braços da plateia, enquanto canta e recanta o refrão que expressa o que a menina de Juiz de fora e sua garganta estranha nem pensavam em alcançar e hoje mulher do mundo conquistou: mais de cinco milhões de CD´s vendidos, composições em trilhas de várias novelas e um coral de milhares de fãs mundo afora: o sucesso.

SOBRE A PLATEIA

No começo deste texto, disse que se a plateia esperava um repertorio meio repeteco dos 18 anos de carreira, deu com os burros n’ água. O Show é uma nova invenção e entendo que veio naquele momento, para um público mal acostumado. Não dava para dançar, ao som das batidas de algum violão ou pandeiro. Não dava para revirar os olhos apaixonados. Não dava para se embalar na melodia e letra. Ali havia um roteiro, pessoal, forte. Carregado de emoção. Ali, naquele palco a contribuição da artista era outra. Só dava pra pensar, refletir, tentar mastigar a vida declamada em prosa e verso. Adicionada a música de Ana Carolina. Não sei se a maioria dos que estavam ali ficaram atônitos ou decepcionados. Ouvi alguns fãs de carteirinha ou que se dizem assim replicarem na saída: “Ah ela estava tão esquisita. Devia ter cantado alguma coisa pra levantar a plateia”. Bom ela não fez porque o show tinha outro tom e você não percebeu, quase respondi, mas acho que isso não valia a pena. É um show de coração para coração. De emoção para emoção e para quem pensa.

Do show ficou a contribuição de cada um que passou brevemente ou por toda sua vida. Os que contribuíram com o acaso, com o descaso, ou com afeto ao que ela é hoje. O que parece um recado, mas de verdade é… “Meu caminho é cada manhã/Não procure saber onde estou/Meu destino não é de ninguém/E eu não deixo os meus passos no chão/Se você não entende não vê/Se não me vê, não entende/Não procure saber onde estou/Se o meu jeito te surpreende/Se o meu corpo virasse sol/Se a minha mente virasse sol/Mas só chove, chove/Chove, chove” (Kiko Zambianchi). Uma vez escrevi que qualquer talento só vale a pena se é devolvido ao mundo na forma de felicidade e bem comum. Ana Carolina está fazendo a sua parte. Parabéns a ela pela disposição em compartilhar sua vida, suas experiências, seu talento.

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