Jornalistas em crise. Salve-se quem puder.

O Jornalismo vai bem, obrigada. Mas os jornalistas... hummm.
O Jornalismo vai bem, obrigada. Mas os jornalistas… hummm.

Faz um ano que escrevo para jornalistas que querem tirar ideias do papel e colocar projetos na internet. Compartilho motivação e ferramentas de produção de conteúdo para quem precisa se atualizar. Confesso que sempre adiei o dia em que teria que escrever sobre o verdadeiro problema que angustia a mim e outros colegas de profissão.

Mas dessa vez não tenho como escapar. A repercussão dos erros da imprensa na cobertura das eleições nos Estados Unidos foi o estopim para a necessidade de repensar a profissão — realmente. Eis minha árdua tarefa.

Ego inflado e preguiça

O primeiro ponto é o mito de que o Jornalismo está em crise. Acredite: ele vai muito bem. Se o conceito de que a função é levar a informação certa a quem precisa dela é honesto, a área está riquíssima. São inúmeras possibilidades, formatos e mídias.

Quem não está nada animado com isso são os jornalistas. Nós estamos em crise. E boa parte dessa birra tem a ver com ego inflado e preguiça. Sim. Do alto da nossa arrogância em nos sentirmos detentores da informação, sair da zona de conforto é motivo de rodar a baiana. Ver tanta gente com celular na mão e produzindo notícia é uma afronta ao conformismo jornalístico.

Como grande parte não explora as novas mídias para servir melhor o público, reclama, aponta o dedinho e bate o pé. “Ai, que chuvarada de notícias irrelevantes. Ai, que ditadura de cliques. Ai, o Jornalismo morreu”. Sempre foi mais fácil ser rabugento, né? Quero ver é editor que propõe usar as redes sociais para construir a melhor reportagem da vida profissional.

Nossa cachaça vai nos matar

A expressão de comer ovo e arrotar caviar nunca foi tão encarapuçada a nós.

Enchemos a boca para dizer: sou repórter do maior jornal do centro-oeste. Mas continuamos a esconder o contra-cheque, a perder as festinhas dos filhos por causa do plantão no final de semana e a liderar as listas das piores profissões do mundo.

“Jornalismo de redação é como cachaça”. Ouvi várias vezes de colegas. E é mesmo. Ardente, com efeito prazeroso, viciante, mas que detona seu fígado devagarzinho. São tantos shots que te embriaga. É amor bandido. Dá-lhe Gabriel Garcia Marquez:

“Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.”

(Mas, calma aí, Verônica. Até agora não há big news). Até pararmos para pensar em quem seria o vilão do eterno descontentamento. Além do nosso próprio mimimi, o que intensifica nossa dor? Vem comigo no raciocínio.

Relacionamento abusivo

Principais dores:

  • baixo salário
  • excesso de trabalho
  • Desemprego
  • Insegurança
  • Assédio

Desde que nos conhecemos por jornalistas, sonhamos em ocupar redações de grandes jornais ou assessorias. Pensar além disso, seria para raríssimos malucos que apontávamos como pouco inteligentes.

O problema-raiz dos nossos choramingos é quem a gente sempre amou: o sistema que gerencia o trabalho formal de produtores de conteúdo jornalístico. WTF?

É esse sistema da grande mídia formal que te aprisiona e intensifica as dores citadas ali em cima. Isso porque ele favorece a hierarquia e tira autonomia; promove a competição entre funcionários (“Meu bloquinho de contatos não dou para ninguém”. Lembra disso?) e desestimula a colaboração; faz você acreditar que merece ganhar uma miséria porque tem uma fila de estagiários para ocupar sua cadeira; diminui seu tempo e cobra mais resultado; é escravo do anunciante; tem formatos de mídia com espaços limitados, fala para todo mundo e, com isso, fala para ninguém; prefere economizar no ar-condicionado do que mexer no bolso dos editores e acionistas.

Por essas e outras, salve-se quem puder. Há apelos desesperados por todos os cafezinhos, sites de freelancer, editais de concursos públicos.

O heroísmo dos desgarrados

Mas veja só: quem está na contramão e, um dia, foi zoado por sair de uma grande redação para tentar novos rumos vai tão bem quanto o Jornalismo. Além de explorar possibilidades na internet com entusiasmo e coragem, traça planos para realizar desejos.

Principais desejos:

  • Dinheiro
  • Tempo
  • Reconhecimento
  • Motivação
  • Qualidade
  • Propósito

O meu plano para chegar lá é a junção de um novo mindset com ferramentas certas. Seria o pensamento alinhado à autonomia, economia criativa, empreendedorismo e autoconhecimento. E habilidades como controle financeiro, realização de projetos, plataformas digitais, marketing e até programação. Acredite: tem dado certo.

Enquanto ser jornalista significar apenas intermediar uma informação, sempre haverá uma crise. Mas quando esse profissional souber responder Como realmente ajuda o público, aí o mundo será abundante e libertador. A boa notícia é que todos podem estar mais satisfeitos com a profissão. A má é que poucos têm coragem.

Abraço. V.

Mais? Escrevo no www.jornalista30.com.br

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