O Silva foi privatizado

Ele se orgulha de ser brasileiro. “Arautos da desgraça, inimigos da Pátria!”, vocifera sempre que alguém critica algo verde e amarelo, do futebol à política. Votou no Collor, mas até hoje não lhe perdoa o que entende como único erro grave: ter dito que o carro nacional era uma carroça.

Em mais um aspecto Silvestre Silveira da Silva se diferencia dos demais brasileiros: é sósia do ator norte-americano Arnold Schwarzenegger. Tão parecido, que até o original ficaria na dúvida. Só que ele detesta comparações com estrangeiros. Mas, não escapa das diárias cenas de constrangimento. Entra na padaria e lá vem: “Olha só, minha gente, é o Schwarzenegger!”.

Amarra a cara: “Shorts-de-nêga coisa nenhuma, vê lá!… Sou o Silvestre Silveira da Silva, das Minas Gerais!”. Vive fugindo das fãs, dos beijos, abraços e pedidos de autógrafos. Apesar da crise, recusou um bom dinheiro por um comercial de televisão. Época de eleições como agora, então, é uma loucura. Tem muito candidato e partido tentando contratá-lo para comícios, distribuir “santinhos”, aparecer no horário eleitoral da televisão.

E lá se vão anos de explicações: “Ele não é esse tal do nome complicado que a moça tá falando, ele é o meu Silvestre”, insiste Brasilina, esposa e mãe de Aryzinho. O nome do menino é Getúlio Tom Pelé Silveira da Silva, mas, em razão da “Aquarela do Brasil”, música favorita de Silvestre, o apelido é Ary Barroso — Aryzinho, para os íntimos.

Aos 51 anos, bom eletricista, sem negócio próprio, Silvestre aceitou trabalhar num motel. O nome do lugar, The Good, é um tormento para nosso herói e sua incorruptível consciência nacionalista. Contrariado, diz: “O Brasil está tão bem que até os americanos estão abrindo hotel aqui”. Sabe que é desculpa para justificar o emprego no lugarzinho suspeito, com nome fácil para casais apressados.

E a história do “não sou shorts-de-nêga” ganhou ênfase, porque paira sobre Silvestre a suspeita de estar a serviço dos “gringos”, no The Good. Numa noite de luar, quente e convidativa, nosso cívico cidadão foi trocar a lâmpada do banheiro no apartamento 69. Tocou a campainha e, para sua surpresa, abriu a porta uma tremenda loira. Saída do chuveiro, enrolada numa toalha, na penumbra, a gata olhou para o Silvestre e gritou abrindo os braços e deixando o pano cair: “Schwarzenegger, are you?!”.

Meio atônito, na dúvida entre o nacionalismo ou a felicidade, diante da deusa desnuda, ele decidiu rápido e respondeu: “Sim, minha gata, sou o shorts-de-nêga!”. À semelhança das nossas estatais, entregou-se e foi privatizado por uma estrangeira. Agora, só falta a Petrobras…