Amanhecer na terra protegida

“O Jaraguá é Guarani! O Jaraguá é Guarani”, grita feliz Lucas, filho do cacique Ari. Em Itakupe, aldeia Guarani Mbya no bairro paulistano, o fim de semana foi de comemoração. Na sexta-feira, o ministro da Justiça Eduardo Cardozo assinou a portaria declaratória da Terra Indígena Jaraguá.

Adriana Carvalho, colaboradora da Comissão Guarani Yvyrupa — CGY, para os #JornalistasLivres. Fotos: Didier Lavialle — 17 texto & fotos

Eu leio no Facebook comentários ofensivos aos Guarani. Fico indignada e começo a protestar em voz alta. Uma amiga me pede para falar mais baixo porque ali perto, Karai Popygua ou David, como é conhecido o líder guarani, dá uma entrevista a uma rede de TV usando um cocar de penas azuis. Eu me calo. Olho ao redor e percebo que começam a aparecer inúmeros passarinhos. São lindos, diferentes, tantas plumas, tantas cores. Parecem saídos de um desenho animado. Maravilhada, acordo. Era um sonho.

Quem me despertou foi o galo, que na madrugada cantou 21 vezes seguidas. Procuro me ajeitar na rede, dividida com meu companheiro de vida e de militância, o fotógrafo Didier Lavialle. Puxo o cobertor, descubro o pé, a perna dói, as costas estão geladas. Chove muito. A sensação térmica é de dez graus. Mas nenhum desconforto, maremoto ou terremoto me faria desistir de estar em Itakupe hoje. E de ver o amanhecer do domingo nesta terra agora mais protegida. E de constatar que aquilo pelo que tanto os Guarani lutaram e que nós apoiamos não é mais sonho, virou realidade: na sexta-feira, após dois anos de espera, finalmente o ministro da Justiça Eduardo Cardozo assinou a portaria declaratória da Terra Indígena Jaraguá.

Trata-se de uma grande vitória — que para ser completa ainda depende de homologação pela presidente Dilma Rousseff — que reduz o risco de reintegração de posse das terras de Itakupe. Risco que era iminente devido a um processo movido pelo ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Antonio Tito Costa, que se diz dono da área.

Quando chegamos, no sábado à tarde, Lucas, filho do cacique Ari, pulava de alegria e gritava: “O Jaraguá é Guarani! O Jaraguá é Guarani!”. Ao nos receber abraçou cada juruá (não indígena) com carinho e emoção, agradecendo nosso envolvimento e partilhando os louros da vitória.

“Quando eu ouvi a notícia, não sabia bem o que fazer. Apenas abracei meu filho, Evandro, e disse que agora ele poderia crescer e viver em paz”, contou Tupã Mirim durante sua fala na Opy (casa de reza) de Itakupe na noite de sábado. Entre as paredes de madeira que deixavam ver a paisagem da Terra Indígena de 532 hectares remanescentes de Mata Atlântica, guarani e juruá, crianças, moços e mais velhos se reuniram para rezar, cantar, dançar de mãos dadas e agradecer a Nhanderu (o nome de Deus para os guarani) pelos bons frutos da luta conjunta. Aquecidos pela fogueira, iluminados apenas pela brasa da lenha, das velas e do petyngua (o cachimbo guarani), todos tiveram oportunidade de falar sobre o momento que muda a história dos guarani mbya em São Paulo. “Meu sentimento é de gratidão a todos vocês que participaram dessa luta. Sabemos que foi uma luta por amor, sem interesse, com carinho, com respeito. Quando recebi a noticia estávamos reunidos na Opy da aldeia de baixo, ia começar uma reza, todos ficaram muito felizes e emocionados. Quando a gente se une, conseguimos alcançar nossos objetivos”, disse Karaí Popygua. “A união é que faz a força. Uma andorinha só não faz verão”, acrescentou o cacique Ari.

Enquanto eles falam, eu fico analisando em qual momento conseguirei me levantar para falar sem embargar a voz por causa da emoção. Finalmente me levanto pra dizer que estar ali e poder dividir isso com eles, com meu companheiro, com tantos novos e antigos amigos, e também com meu filho de 12 anos é um privilégio sem tamanho. Mesmo que eu tivesse dinheiro para leva-lo para uma volta ao redor do mundo, não conseguiria que fosse tão longe como nessa experiência no Jaraguá. Depois de falar e rezar, aproveitamos a noite para ouvir histórias de seu Ari sobre onças, peixes, convivência com a natureza. A pequena guarani Ariele adormece aninhada no colo da juruá Julia.

Penso que a assinatura do ministro da Justiça não é o final feliz de uma história. Pois não é um final. Ainda é necessária a homologação da Terra Indígena Jaraguá, ainda é preciso que ganhar oficialmente os processos contra os jurua que se dizem donos das terras, ainda há outras lutas para abraçar, outras terras e outros povos que pedem restituição do que lhes foi e continua sendo arrancado. Os guarani Mbya estão a poucos passos de ganhar suas terras. Nós juruá ganhamos muitos amigos e temos muitos outros sonhos para realizarmos com eles. Muita história pra contar em torno da fogueira, muita coisa para aprender, muita risada para dar, muito milho, tipá, kaure e biju (comidas típicas) para assar.

A manhã avança e outros guarani e juruá vão chegando, se abraçando, comemorando. Dois tucanos pousam no alto de uma árvore. Em outro galho alto, repousa uma garça branca. “Não queremos que vocês larguem a gente “havia dito Thiago Henrique na noite anterior na casa de reza ao falar que não só na luta quer estar junto conosco, jurua. Nós também, pode ter certeza, não queremos mais nos soltar dos guarani. Não queremos ser da chamada “sociedade envolvente”, como é chamada a sociedade dos jurua. Queremos ser cada vez mais a sociedade envolvida.

A mobilização continua: