As crianças da Mauá e a redução da maioridade penal

Festa simbolizou luta e reuniu artistas, intervenções e muita brincadeira

por Oscar Neto com fotos Mídia NINJA para os #JornalistasLivres

Lá pras 17h30, saio da Estação da Luz e chego à imponente Comunidade Mauá, símbolo dos movimentos de luta por moradia de São Paulo. O prédio ficou abandonado por 17 anos antes de ser ocupado, em 2007, e hoje é o lar de mais de 200 famílias que procuravam um lugar para morar.

Passo por uma portaria que parece ter sido reformada recentemente. Sou cumprimentado pela moça da guarita e orientado a seguir até o fim do corredor. Quando entro pela passagem que dá ao pátio…

“Qual o seu nome?”
“É Oscar. Tudo bem?”
“Me gira nos braços?”
“É claro.”
“Seu olho é azul?”
“Sim, e o seu?
“Tio, o que você faz?”
“Sou jornalista, escrevo coisas.”
“Me gira nos braços também?”
“Mas você é muito grande, não te aguento…”

Havia ali, pelo menos, umas 30 crianças. De todas as idades, formatos, cores e cabelos. Tantas e tão eufóricas que todos os adultos que chegavam ao local tinham a sensação de ser um deus tentando andar “arrastando” a molecada.

Era dia de festa na ocupação, uma festa de mobilização contra a redução da maioridade penal, dentro da programação de intervenções culturais e artísticas a que se deu o nome de #ViradaPenal. As crianças eram um dos públicos-alvo do evento, que pretendia simbolizar a gravidade do erro a que a sociedade brasileira pode estar sendo condenada.

Uma tarefa um tanto complexa quando se tem algumas dezenas delas, uma bola (furada), giz-de-cera, latas de spray, notebooks, cones e um monte de gente nova no pedaço. Afinal, são crianças. Todos já fomos e sabemos a despreocupação em segurar as emoções e vontades nessa fase, sejam elas do tipo que forem.

“Já fui menor, mas nunca fui infrator”, conta Rico Dalasam, o jovem rapper que está bombando no cenário atual do ritmo e da poesia, após se apresentar para o público mirim. “Na infância, com 11, 12 anos, cometi pequenos furtos. Só que esse é o período em que as ideias estão em construção e você não pode sentenciá-las. Ao fazer isso, as mazelas sempre chegarão para nós, pretos, pobres e retirantes. E sempre querem trazer a culpa para nós.”

A festa cumpriu seu objetivo. Levou a mensagem — que já havia sido passada em reunião do dia anterior –, aos pequenos e aos seus pais, aos adolescentes e aos recém-adultos presentes. Cada fala ao microfone no pátio interno do edifício saía dos alto-falantes e entrava pelas janelas dos apartamentos. Enquanto isso, no meio de mil dedos minúsculos apertando simultaneamente as teclas deste computador e outras mil vozes bem perto do meu ouvido, eu confirmava a importância daquele momento.

“Na década de 1970, o hip-hop surgiu no Brasil dentro das festas, mas tinha caráter político. Foi isso que fizemos aqui hoje”, define o MC Marcello Gugu, outra das atrações do encontro. “Muita gente defende essa lei sem pensar nas consequências pro futuro. É algo que só vai trazer problemas pro nosso próprio povo. Parece uma comparação forte, mas ninguém toma aspirina para se curar da aids. A prevenção é a única solução. Acredito mesmo na educação em primeira instância, não em punição”.

A tarde do sábado de Virada Penal na Mauá foi recheada de arte, diversão e um clima de fim de semana no parque. O produtor musical, DJ e diretor artístico WC Beats deixou o recado dele, com um loirinho insistente trepado no pescoço: “É uma causa óbvia. A redução no Brasil não vai resolver o que tem de ser resolvido. Isso é tirar o futuro, pois as crianças são o futuro. Colocar elas no cárcere fará com que saiam mal influenciadas. O Brasil não precisa disso”.

As paredes da comunidade também ficaram marcadas pela intervenção. “Sou contra a redução da maioridade penal e o grafite é uma maneira de ensinar e aprender com os outros. Uso ele como meio de comunicação e voz para as causas de movimentos sociais”, conta o grafiteiro colombiano Cris Nomada, que dividia suas tintas com praticamente todos os meninos e meninas.

Assim foi o dia de Dalassam, Gugu, Beats e Nomada, cercados de crianças curiosas, brincalhonas e tão ativas que quase não os deixavam fazer o seu trabalho. Não que esse fosse um problema. Muito pelo contrário. Brincaram e se divertiram com todas, pois não viam nelas qualquer ameaça e sim um futuro.

No fundo, eles enxergaram — assim como eu e os outros Jornalistas Livres presentes — uma oportunidade única de distribuir lazer, arte, cultura e informação (honesta).

Naquele espaço, ninguém olhava para aquelas crianças com ódio, medo ou qualquer outro tipo de descrédito. Os artistas convidados notaram a importância de lapidar as mentes de criaturas em formação inicial e permitiram que elas interpretassem esses insights da maneira delas, na velocidade delas, com as particularidades delas. Realizaram com louvor a tarefa de ensinar admitindo a atenção e a concentração ainda em formação durante a infância, até porque não se deveria reprimir alguém por estar feliz. E, sobretudo, concordaram com a carência estrutural de vida desses jovens, pobres, excluídos, discriminados e expostos a uma carga negativa sobrenatural.

Curioso é que essas são justamente as responsabilidades que muitos legisladores brasileiros parecem não querer priorizar, como percebeu e concluiu, com contundência, Ivaneti Araújo, coordenadora da Comunidade Mauá:

“Estamos vendo professores na rua apanhando enquanto nossos jovens precisam de formação. Eles não precisam dessa lei imposta por uma minoria fascista, suja, que não vê que as crianças não são as mesmas de antigamente. Eles querem fechar os olhos delas pra que não enxerguem o que é direito delas reivindicar”.
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