Mulheres na construção do direito à moradia

Jornalistas Livres
Sep 19, 2017 · 6 min read

Na comunidade da Pedreira Prado Lopes, são elas que põem o corpo, a cara e coração para ocupar e conquistar o território

Texto Isis Medeiros e Agatha Azevedo | Fotos Isis Medeiros

Fotos: Isis Medeiros

“Dorme filha e vamos sonhar.” — disse a mãe.
A menina, sentada no chão do galpão onde a mãe havia estendido o colchão, me olhava de longe. Saltei alguns colchões e cheguei mais perto dela, curiosa pra saber o que estava sentindo e perguntei:
“ _Você vai dormir? E com o que você vai sonhar?”
“_Não sei.” — respondeu rápido e logo pairou alí um silêncio buscando outra resposta.
A mãe, puxando pelo abraço e já arrumando a coberta onde ela iria deitar, insistiu:
“_Vem, filha! Vamos sonhar com a casa nova!”
Ela, ainda inconformada com a resposta da mãe, disse que não. Eu perguntei o porque.
“_Sonhar não, porque se sonhar, não vai realizar.” Respondeu certeira e olhou novamente para a mãe. Depois voltou o olhar para mim quando eu dei um sorriso e disse:
“_Dorme então! Amanhã, ou melhor, daqui a pouquinho você já vai acordar na casa nova.”
Ela deitou a cabeça no amontoado de panos preparado pela mãe, a abraçou e dormiu logo em seguida.


7 de Setembro de 2017. Madrugada do dia de comemoração da “Independência” do Brasil. Subindo o morro da comunidade Pedreira Prado Lopes, em Belo Horizonte, um grupo já se concentrava momentos antes do início da ocupação Pátria Livre. Ali o cenário já escancarava a realidade: a luta é mesmo substantivo feminino. Dentre as famílias que iriam ocupar o prédio abandonado na rua Pedro Lessa, viam-se poucos homens. As protagonistas da nova ocupação afirmavam que os maridos haviam ficado em casa, e só iriam se juntar caso “essa luta desse certo mesmo”.

Na concentração, já dispostas a encarar a missão, elas carregavam no colo as crianças e dividiam umas com as outras a tarefa do cuidado e da responsabilidade de um ato difícil, o receio de alguma ação de repressão da polícia e do fracasso na ocupação. Mas iam de qualquer forma. Iam carregando colchões, roupas, brinquedos e mantimentos, elas largaram em casa os maridos, mas traziam consigo a força e os filhos.

Enquanto as famílias adentravam a construção ainda sem energia elétrica, a pergunta que ia martelando naquelas cabeças vez ou outra alguém sussurrava em voz alta: “se há tanta casa sem gente, porque há tanta gente sem casa?”. A pergunta ia se repetindo madrugada adentro, pelos cômodos e escombros do prédio.

Foto: Isis Medeiros

Uma camada espessa de pó, pedaços de vidro e latas pelo chão iam sendo varridas, para dar espaço às crianças que, assustadas e curiosas, iam se aproximando em silêncio guiadas pela luz das velas naquele novo cenário a descobrir. Acendiam-se novas velas que iam iluminando caminhos, malas, caixas e mantimentos. Já era possível olhar nos olhos e reconhecer cada rostinho que se iluminava uma nova esperança.

Fotos: Isis Medeiros

Segundo Valéria Borges, integrante do Movimento de Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD), a maioria das famílias que ocuparam o prédio é da região da Pedreira. O sonho das famílias pela casa própria vem reforçado pela dificuldade de se manter e manter a família pagando aluguel. O acúmulo de território em desuso e como forma de especulação imobiliária é ilegal. Hoje a política habitacional, que deveria vir do estado, é feita pelos movimentos sociais e pelo próprio povo que reivindica moradia diante da baixíssima produção habitacional na cidade.

Com a chegada da manhã, veio também a polícia, poder repressor do estado, que já se concentrava na entrada do prédio. Do portão, eles já faziam perguntas questionando o motivo da ocupação, pressionando pela saída dos ocupantes. A partir daí ninguém entrava ou saía mais do prédio.

Fotos: Isis Medeiros

Foram horas na expectativa de que a negociação fosse feita e a entrada liberada. Enquanto isso, as famílias se mantinham fortes dentro do prédio, mesmo quando a água acabou. Com uma corda, um morador da Pedreira, depois do pedido de socorro de uma das ocupantes, enviou pela janela da casa uma garrafa pet de água. Outros moradores iam se aproximando e tentando arremessar alguns pacotes de biscoito para ser repartido entre as crianças que alí também ocupavam.

Fotos: Isis Medeiros

Do lado de fora do portão, crescia um cordão policial. Foram horas pressionando e impedindo a entrada de novas pessoas enquanto ameaçavam entrar no espaço que há tantos anos não era visitado e muito menos visto pelo Estado. Em cima de uma das lajes mais altas da comunidade, um grupo de mulheres surgiu entoando gritos e segurando uma bandeira vermelha em direção à ocupação. “Prefeito eu quero, prefeito eu quero morar! Sem moradia, sem moradia, sem moradia só me resta ocupar!”

Fotos: Isis Medeiros

Da parte de fora, cercadas e impedidas pela polícia de se aproximar, mais de 200 pessoas seguiam entoando o mesmo coro. Depois de quase 9 horas de negociação e tensão na entrada do local, o batalhão de choque da polícia de Minas Gerais recuou e cedeu espaço para que finalmente a comunidade pudesse acessar o local.

“Aiii meu Deus, nós conseguimos! Eu tô até agora muito emocionada! Não tô acreditando que a comunidade veio nos apoiar. Olha lá!”, apontava Valéria com lágrimas nos olhos em direção à laje da casa.

Fotos: Isis Medeiros

Com o recuo da polícia, se pôde ouvir por todos os lados um hino só entoado por todos: “O povo unido, jamais será vencido… O povo unido, jamais será vencido!”. Começava ali, naquele morro, mais uma história real de luta pela efetivação de direitos, a conquista e independência de um povo.

>> Assista o vídeo da Ocupação Pátria Livre aqui <<

Foto: Isis Medeiros

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