Sequestraram a Ação Popular! Liberdade para a AP! — JORNALISTAS LIVRES

Por Vinicius Souza e Laura Capriglione, especial para os Jornalistas Livres

Para quem não sabe, a AP, como era chamada, foi uma das principais correntes políticas a lutar contra a Ditadura Militar nos anos 1960 e 1970. Em dado momento de sua vida, a AP chegou a se chamar APML — o sufixo ML queria dizer “marxista-leninista”.

Na fundação, via o socialismo como uma espécie de humanismo cristão, ao qual caberia a crítica da alienação capitalista e sua superação. O humanismo cristão vinha das origens da AP na Juventude Católica. A dureza daqueles tempos custou a prisão e a tortura, quando não a morte, a vários militantes da AP, como o estudante de Geologia Honestino Guimarães, assassinado em 1973 sob tortura quando estava sob custódia do Estado brasileiro.

No final dos anos 1970, a AP foi fundamental para a reorganização do Movimento Estudantil, depois dos anos da repressão mais feroz. Dirigiu a reconstrução do Diretório Central dos Estudantes da USP, em 1976. Com militantes como Geraldo Siqueira e Vera Paiva, entre outros, a AP entusiasmou e encheu de coragem milhares de jovens que enfrentaram a tropa de choque, a cavalaria e as bombas de gás e de efeito moral do coronel Erasmo Dias, o então chefe da Segurança Pública de São Paulo.

Pois aquela AP sofreu um sequestro simbólico. A atual AP, na fala de seu porta-voz, Rafael Auad, “tem uma linha um pouco diferente, porque os tempos são diferentes”.

Em vez do horizonte utópico do socialismo, conforme defendia Honestino, Rafael Auad agora diz: “Reconhecemos que a economia de mercado é como o mundo funciona e precisamos trabalhar nesse sentido.”

A Ação Popular na versão morta-viva “é uma corrente de jovens que busca desconstruir o que está sendo feito no movimento estudantil e nos movimentos sociais”, explica Auad. Em vez das grandes lutas pela liberdade e pela construção de um país mais justo, a atual AP discute “um dos principais temas da agenda paulistana”. Qual é?

Engana-se quem pensa que seja o genocídio da população preta, pobre e periférica, ou a falta de moradia, ou as obras paradas do Metrô, ou…

Segundo a página da Ação Popular no Facebook, trata-se no aplicativo Uber (em que mundo esses caras vivem?). O debate, que aconteceu no dia 16 de julho, “contou com a participação de mais de uma centena de pessoas entre jovens, simpatizantes do Uber, taxistas, jovens tucanos e membros de diversas organizações e movimentos sociais.”

Dizem eles: “Nossa juventude Ação Popular chegou para ficar. Seremos o elo do partido com a sociedade, resgataremos a sensibilidade do partido com o pulsar das ruas.”

Ah, tá!

Libertem a Ação Popular. Não merece ser humilhada assim uma sigla com tão importante histórico de lutas, com tantas lembranças da resistência mais heroica ao arbítrio e à opressão.


Originally published at medium.com on August 18, 2015.

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