Renovação Livres utiliza preceitos velhos da política

Apesar da ideia ser boa, o PSL com sua renovação Livres segmenta ainda mais a política

Membros do Livres em Salvador, movimento de renovação do PSL (Divulgação/PSL)

De tempos em tempos surgem movimentos de renovação da política brasileira. São essas ações que tornam a política viva e possível de transformar a sociedade. Quando essas mudanças ocorrem em partidos políticos melhor ainda, nos fazem pensar que situações assim podem dar certo.

Isso está ocorrendo com o Partido Social Liberal (PSL) em todo o país. Depois de quase desaparecer, o partido fundado por Luciano Bivar em 1998 está com uma nova formatação. Agregando jovens voltados ao pensamento liberal, organizaram em janeiro de 2016 o movimento interno denominado Livres. Este movimento tem por objetivo, de acordo com elucidado na fan page, “organizar o partido de baixo para cima e de dentro para fora”.

Com uma proposta focada principalmente em abordar temas antes discutidos pela a esquerda, o Livres quer utilizar o crescimento do pensamento liberal com a vertente social. Assim leva como bandeira o social-liberalismo, que seria uma visão particular do liberalismo bleeding heart.

Proeminentes influenciadores do liberalismo no Brasil estão ingressando no Livres, no intuito de organizar o partido para se tornar um contra ponto entre a esquerda radical e a direita radical, um meio termo.

Fábio Osterman, membro do Livres (Omar Freitas/Agência RBS)

Alguns nomes que estão participando do Livres são Fábio Ostermann que foi diretor do Instituto Liberal e o jornalista Leandro Narloch. Ambos são críticos das políticas de esquerda, entretanto acreditam no conceito social do liberalismo.

Por ser um movimento novo e jovem, o Livres se utiliza muito das redes sociais. Sua fanpage é recheada de posts e textos que remetem ao vácuo deixado pelo PT, se assemelhando em parte com o cuidado de retratar a vida do mais humilde de uma maneira diferente. Tem como proposta empoderar o cidadão comum, tornando ele um cidadão globalizado e voltado a construir uma sociedade melhor por meio do trabalho.

Alguns candidatos até surgiram para disputar as eleições de 2016 carregando essa premissa. Um nome forte dentro do PSL foi o próprio Fábio Ostermann, que concorreu para a Prefeitura de Porto Alegre, mas perdeu ainda no primeiro turno conquistando 7.054 votos, chegando a 0,99% dos votos válidos. Além dele ainda houveram em diversas cidades candidatos a vereador, sendo o grande centro do partido a cidade de São Paulo.

Mesmo com toda a mídia nas redes sociais, o resultado do Livres nas eleições de 2016 foi abaixo do esperado, como pode se verificar com a votação de Fábio Ostermann. Entretanto os antigos filiados do partido, contrários a renovação tiveram êxito. De acordo com as informações do Estadão, o partido obteve 30 prefeituras, sendo a maioria delas no Nordeste e Norte. Ao todo o PSL obteve 487.592 votos para prefeito no 1º turno, sendo todos os eleitos prefeitos não ligados ao Livres.

O estado que mais prefeituras vez para o PSL foi a Bahia, quinze no total, apesar de concorrer em 51 municípios. Exemplo é o prefeito da pequena cidade de Macururé, no norte da Bahia. Everaldo Carvalho Soares foi eleito com pouco mais de 4 mil votos. Em seu perfil no Facebook não se encontra nenhuma referência ao Livres e a renovação do PSL.

Em contato com o diretório nacional do PSL em Brasília recebemos a informação que ocorrem problemas do partido com a renovação do mesmo. Apesar de estarem de acordo com a possibilidade de mudanças internas o partido está tendo dificuldades com antigos filiados que se sentem coagidos a aceitar as alterações.

Liberdade de verdade

Sabemos que a política se faz com demonstração de força, ainda mais nos grotões do país. Não é atoa que potenciais caciques partidários locais possam estar preocupados com o crescimento vertiginoso do Livres dentro do PSL. No entanto verificamos que alguns membros do Livres tiveram problemas nas suas candidaturas em grandes centros.

Um candidato a vereador em 2016 pelo PSL e com apoio do Livres em uma grande cidade, que não quis se identificar, esteve descontente com a forma como era feita a gestão das decisões internas. Segundo relato deste, que circula pela internet, houveram atritos por posições políticas anteriores ao seu ingresso no Livres. Um dos atritos ocorreu por querer o envolvimento dos antigos filiados do PSL nas eleições de 2016, algo que o Livres chama de “PSL 1.0”.

Esse não foi um episódio isolado, outros candidatos e pretensos candidatos pelo Brasil tiveram problemas com a renovação. Além disso, pessoas que se filiaram por meio da plataforma online que o partido disponibilizou estão aguardando seu ingresso no partido há meses.

Se não bastasse o partido, apesar de se denominar contrário a partidos de esquerda, sendo que em alguns estados lançou resoluções proibindo coligações com partidos dessa corrente, nas últimas eleições se coligou com PCdoB e PT em diversas cidades. Uma delas foi Guaíba, onde a cabeça de chapa ficou com o PCdoB. Sendo questionado a época sobre o episódio, o movimento Livres se referiu ao “PSL 1.0”, colocando a culpa em filiados antigos.

Marketing desconexo

Apesar de boas intenções infelizmente a realidade se torna diferente. Com marketing envolvente, o movimento Livres tenta conquistar principalmente jovens que descrentes da política defendem pautas da esquerda mais liberal.

Post sobre o lado inventivo de Steve Jobs (Divulgação/PSL)

Criaram uma imagem de algo moderno, conectado com as demandas sociais, envolvido com conceitos das camadas mais pobres da sociedade. Entretanto se observa no site do PSL e do Livres que ambos simplesmente ignoram aspectos como estatuto, programa, entre outros. Tem como enfoque perguntas frequentes e as redes sociais que fazem parte.

Essa nova perspectiva fez com que diversas pessoas se envolvessem através de filiações online. Seria interessante se estas fossem de fato realizadas, porém esquecem que para uma filiação partidária ter valia ocorre quando esta é registrada em sistema próprio do TSE. Com isso inúmeras pessoas lançaram mão de seus dados pessoais no site do PSL e não obtiveram retorno.

Comentário retirado da fanpage do PSL (Reprodução/Facebook)

Não se sabe ao certo hoje quantos filiados seguindo essa nova orientação do movimento Livres estão vinculados ao PSL. Algo que se sabe é que infelizmente existem diversas brigas internas por poder, tal qual os partidos já existentes. De toda forma, apesar de haver a vontade de eliminar caciques antigos, se fortalece a criação de novos caciques.

Se não bastasse existe um filtro ideológico por parte dos novos caciques aos filiados, impossibilitando a criação de um partido verdadeiramente livre, como diz seu nome. Circulam nas redes sociais diversos depoimentos, cartas abertas e comentários vinculando a nova forma de fazer política do PSL as práticas antigas da política. Em outras palavras: a mesma política de sempre com palavras bonitas e fáceis.