
Na minha igreja, em todos os cultos matutinos, a liturgia contém duas seções: uma chamada “padrão de justiça” e outra chamada “promessa de perdão”. Entre as duas há uma oração de confissão. Toda semana, se você visitar a Trinity de Hatboro, PA, você encontrará esses três passos na manhã de domingo. Eu não sei há quanto tempo eles fazem isso, mas eu estou fazendo com eles há cinco anos.
Eu amo esse padrão. Ele lembra o que deve(ría)mos fazer, o que não conseguimos/podemos fazer, a quem recorrer, como recorrer, e que — apesar de todos os padrões, todas as leis, todos os mandamentos, apesar de nossas falhas, nossos defeitos, nossos pecados, nossa má vontade e incapacidade — há solução, há conforto, há alguém cuja munificência vai além das nossas consciências feridas. Sim, há uma lei. Mas, tem algo mais.
Não é assim na internet.
Na internet, todos os dias nos deparamos com padrões de justiça. Não estou falando apenas de crentes farisaicos proibindo os outros de ir ao cinema. Esses são muito óbvios. Há padrões de justiça mais sutis. Porque tem algo mais profundo na internet. Há uma liturgia. Uma liturgia de um passo. Uma música monotônica e monótona. Um samba de uma nota só, só que só com uma nota mesmo.
Na internet, há o padrão de justiça. Fim. Pronto. Ponto.
O fariseu que proíbe usar saia. A mãe que define maternidade como colocar fralda de pano do bebê. O coach que te lembra as regras de viver melhor. O personal que postou sobre o mau uso do seu sábado à tarde. A professora de EBD lembrando o que é namoro santo e não é esse que você está praticando. A fanpage de família tradicional questionando o emprego da sua esposa. O progressista que nos atualiza sobre o que é preconceito ou não, o que é injustiça e o que não é. O minion que proclama quem ou não é “de esquerda” (e assim, um réprobo). O bem intencionado irmão que te lembrou que o Dallagnol tem apenas 20 anos e fez mais que você jogando Mario Go. O jornalista velho falando de boa educação e boa ortografia. O conselheiro cristão lembrando que você não pode estar triste.
Padrão de justiça. Ponto.
Isso quer dizer que vivemos sem regras? Regras são ruins? A lei é má? Evidentemente, não. Eu não estou falando sobre não postar regras. E nem quero criar uma regra sobre não postar regras. Posta aí se você quiser. Vai lá. Eu estou falando de uma mentalidade comum na internet, que atravessa os mais diversos segmentos. Incluindo (e não apenas) os cristãos.
Eu não sou o J.K.A. Smith nem filho do J.K.A. Smith mas queria usar uma ideia dele. É algo que ele envolve o conceito de liturgia da vida. Ele diz o seguinte:
Liturgias são formativas precisamente porque elas são repetitivas, moldando-nos com o tempo dentro do contexto da história cristã quando ela é “desenvolvida” nas práticas do culto.
(retirado de um blog porque não estou com o livro por perto)
Aqueles três passos mencionados no início (padrão-confissão-promessa) criam um ritmo no nosso domingo e moldam um tipo de mentalidade que engloba a consciência de que (1) existe um caminho certo, de que (2) você deve seguir esse caminho certo e de que — se infelizmente, se por algum motivo, se porque infelizmente você é humano caído pecador, você não alcançou esse padrão — (3) ainda há perdão. Não foi tão bom quanto o Dallagnol? Ok, vamos ver como vai ser essa semana. Se irritou? Deixou de ir na academia? Fique tranquilo, há uma promessa para quem vacilou. Você sabe disso porque estamos andando juntos há alguns dias, semanas, anos e posso te garantir que vai ter sim a promessa de perdão no próximo domingo.
E, assim, semanalmente, aprendo que posso ser tanto o que errou como aquele que sofre por causa dos erros dos outros. Eu aprendo sobre a lei, sobre mim e sobre os outros. E aprendo a perdoar pois sei que os outros também não conseguem alcançar o padrão de justiça. Eu conheço a lei, a promessa e me torno semelhante a quem inspira minha liturgia.
Na internet, as coisas são um pouco diferente. Esse passo único (configura-se passo, se é só um passo?) cria um ritmo para o nosso resto de semana e molda um tipo de usuário que está ali para dizer o que é o certo e quem está errado. Se você não alcançou esse padrão, ok, vamos ver como será na próxima semana quando eu postar novas leis complementando o que é esperado de você. Você não foi tão bom quanto o Felipe Neto/G. Martins? Parabéns, você foi CANCELADO. MASSACRADO. DESATIVA ESSA CONTA. Você sabe disso porque estamos andando juntos há alguns dias, semanas, anos e nem preciso mais explicar que, aqui, na nossa igreja virtual, não tem perdão.
Não há misericórdia na rede. Um exemplo é o simpático padre que ousou criticar as “saidinhas” de um certo presidiário depois de ele mesmo publicar diariamente seus padrões e ser aplaudido pelas multidões. Não há perdão para ele. Se você tropeçou em um item da nossa justiça, não há lugar para você.
E, assim, diariamente, aprendo que eu sou quem acertou e aquele que sofre por causa dos erros dos outros. Eu aprendo sobre a lei, sobre mim e sobre os outros. E desaprendo a perdoar pois sei que os outros não conseguem alcançar o padrão de justiça. Eu conheço a lei e me torno semelhante a quem inspira minha liturgia. Eu mesmo.
Há solução? Obviamente, sim. Lembre-se dos três passos mencionados. Quer postar uma orientação? Poste. Mas lembre-se de que há perdão para os que (por motivos certos ou errados) não se encaixam nisso que você postou. Quer postar orientação? Poste. Mas não poste só isso. Não repita a liturgia monotemática das regras. Rompa a monotonia com confissão e conforto. Molde sua mente e a mente dos outros de uma maneira que não gere frustração e farisaísmo. Eu não quero só seus conselhos, quero ouvir sobre suas falhas e dores, quero que nos encorajemos e confortemos mutuamente. Quero saber se você tropeçou pra dar uma força aí nesse pé baleado.
E para você que está na rede social sentindo-se abaixo de todos os padrões impostos: há consolo e conforto. Há alguém cujas palavras sempre envolvem uma promessa de perdão, mesmo que seu coração e sua consciência te acusem de ter pecado gravemente contra os mandamentos da internet. A liturgia da nossa vida não é composta apenas de padrões de justiça. Há alívio, descanso, desabafo, choro e recomeços.
E, no fim das contas, há uma solução simples: aperta o botão de unfollow, desliga um pouco esse dispositivo. E junte-se aos cancelados e massacrados fora do arraial. Essas redes vão passar. Há um mundo permanente lá fora.
