Jerry e os pequenos começos

Episódio 101: The Seinfeld Chronicles

We’re honking our horns to serve you better. (Seinfeld)

(Minha ideia aqui é escrever rapidamente sobre o que pensei em cada episódio de Seinfeld — o mais rápido possível após assistir, o mais rápido possível que eu conseguir. Não há qualquer pretensão além de voltar à prática de escrever com frequência.)

Eu nunca tive simpatia pelo primeiro episódio da série. Não há Elaine, Kramer se chama Kessler, o apartamento é estranho, há um cachorro, Jerry em dúvida se limpa o banheiro ou não, George parece mais sábio que o normal. Pilotos são sempre estranhos (O apartamento de Mônica e a roupa horrível de Joey em Friends, a entrada do Sacred Heart em Scrubs, o filtro laranja em House, e por aí vai…). Mas, meu problema maior não era isso. O problema era que parecia um enredo bobo demais para o Seinfeld, o enredo normal de o que fazer no dating, como os homens são bobos, etc.

Revendo com boa vontade, porém, é possível perceber que, sim, a história men seeking women se encaixaria num episódio de Friends ou How I Met Your Mother, por exemplo (sem querer desmerecer Friends ou esse tipo de enredo em si), mas Seinfeld consegue fazer diferente ao inserir no meio da história os comentários e discursos que apenas seus escritores conseguiriam fazer. A cena na lavanderia é fantástica, prenunciando futuros discursos, como o do pônei. As partes sobre relacionamentos não chegam a ser geniais, como aconteceria mais para frente, mas ainda são marcantes. “Dating é como uma entrevista de emprego que dura a noite toda, mas que há a possibilidade de você ficar nu no final” ou “nós [homens] estamos buzinando para melhor servi-las”.

É claro, a última frase nos lembra como Seinfeld é um programa data em alguns aspectos. Em primeiro lugar, uma piada sobre homens buzinando e gritando de construções para mulheres claramente seria problematizada hoje em nossas redes sociais. (o que lembra a recente polêmica em que o humorista se meteu por se recusar a falar nos politicamente corretos campi universitários dos nossos dias). Evidentemente, não sou especialista nem bobo de comentar sobre tal tópico nesse espaço, mas Jerry oferece uma explicação alternativa para o fenômeno das cantadas que não seria bem recebida hoje — os homens simplesmente não sabem o que fazer.

Da mesma forma, o monólogo inicial sobre querermos sair para não sermos achados é quase uma impossibilidade hoje: não apenas porque é quase impossível, mas porque é quase indesejável. Ainda assim, há verdade na noção de querermos sair, escapar, tal qual meias fugindo e desaparecendo quando são jogadas na máquina de lavar roupas. Com #Insta gram ou não, o sentimento é real:

To be out, this is out…and out is one of the single most enjoyable experiences of life. People…did you ever hear people talking about “We should go out”? This is what they’re talking about…this whole thing, we’re all out now, no one is home. Not one person here is home, we’re all out! There are people tryin’ to find us, they don’t know where we are …Once you’re out, you wanna get back! You wanna go to sleep, you wanna get up, you wanna go out again tomorrow, right? Where ever you are in life, it’s my feeling, you’ve gotta go. (Monólogo de abertura)

Reassistir o piloto me fez gostar mais do episódio? Certamente. Assistir com atenção aos detalhes pode fazer-nos gostar mais ou menos de certa obra. No caso, felizmente meu apreço por esse estranho capítulo aumentou. Claro, ainda é difícil imaginar que esse seria o primeiro passo de uma série que alcançou tamanha importância em nossa cultura, mas, como disse Zacarias (o profeta, não o humorista), o dia das pequenas coisas (ou começos) pode não ser algo a se desprezar.