Barulho

Um salve para as minhas vizinhas do andar debaixo que decidiram ter uma noite das amigas e ficaram bêbadas, gritando, falando alto e derrubando coisas até às 3h da manhã.
Um salve para quem pode fazer tal ato tão descompromissado de amizade, empoderamento e privilégio em plena quinta-feira sem o compromisso proletário do expediente de sexta-feira.
O que mais me chocou é que vizinhos barulhentos e perturbações domésticas todos têm, ocasionalmente. Quem nunca se irritou ou perdeu o sono com uma festa que seguiu madrugada adentro ou um jovem um tanto quanto mais empolgado com seu som automotivo, fazendo sua cama vibrar ao ritmo do putz-putz.
Mas esta foi a primeira vez que fui mantido insone contra a minha vontade por vozes fora da minha cabeça. Os macaquinhos não estavam no sótão, mas inebriados no andar debaixo. Pela primeira vez, fui mantido acordado por gente que fala alto. Risadas anasaladas, vozes embargadas, confissões do coração.
Acho que criei uma ojeriza permanente, agora, à palavra “amiga”, repetida à exaustão ao longo de cinco horas ininterruptas de sofrência.
Cogita-se chamar a polícia, mas já sei por experiência que isto não dá muito certo: se for apartamento, sem chance; se for casa, só vão se você topar dar a cara a tapa e ir junto, encarar os malfeitores nos olhos e preencher na cara do seu vizinho o boletim de ocorrência. Se recomenda chamar os fiscais da Amma, que cordialmente não atenderão o telefone do plantonista.
Você aguenta a barulheira até perder a paciência e gritar pela janela, interfonar, tentar chamar o síndico. É tudo inútil. Quando as coisas chegam a esse ponto, os culpados já estão acolchoados com uma camada protetora de álcool, imunes às reclamações e multas (pelo menos até a manhã seguinte). De nada adianta bater na porta e alimentar pensamentos vingativos e retribuição, que são muitos.
Você pensa: assim que forem dormir, vou descer lá e bater mais na porta. Assim que dormirem, vou colocar um som alto. Amanhã de manhã, quando levantar insone, vou disparar um alarme, bem na porta delas. Pensamentos e picuinhas mil para punir os incautos transgressores, culposos de furtarem-lhe o sono e a paz de Morfeu.
Por fim, chega-se derradeira e inevitavelmente à fase da aceitação após o luto, para além da raiva e da negociação, em que se conta nos dedos, na melhor das hipóteses, quantas horas de sono se terá, como resistir ao dia virado e quais as estratégias para se manter acordado na jornada de trabalho que se aproxima.
Cabe apenas suplicar: ó grande almofariz do tempo, por favor permita-me adormecer antes da chegada da alvorada voraz.
