Tempo de Morrer

Tenho cinquenta anos e as pílulas estão na minha frente.

Olho no espelho e vejo as marcas em meu rosto. Cada ruga, cada cabelo branco tem sua história. Momentos de prazer e sofrimento, alegria e desilusão podem ser lidos em meus olhos. Meu corpo é um livro aberto sobre a minha vida e eu sou o autor. Não reescreveria uma página.

Lembro que muitos anos atrás, mais do que gostaria de lembrar, após uma noite de loucuras, fiz um juramento a uma amiga. Jurei jamais passar dos cinquenta e enfrentar a decadência física e mental que vem com a velhice. Iria tirar tudo o que pudesse da vida e quando sentisse que não dava mais, simplesmente partiria. Sem ressentimentos.

Olho no espelho e relembro aqueles anos loucos. A necessidade insaciável de conhecer, de experimentar. Ignorando limites e abrindo as portas da percepção. Mesmo quando havia um preço a pagar por isso.

Tudo parecia valer a pena quando juntávamos um grupinho e um baseado começava a rolar ou, quando a grana permitia, uma carreira para animar. Tomávamos banho de piscina regados a vodka e cachaça e os que resistiam à maratona jogavam-se entre os lençóis para empreitadas sexuais- em geral, não muito bem sucedidas.

Durante mais de uma década, vivi com a lua. O sol era quase um ser mitológico para mim que estudava à noite e depois esticava direto para shows alternativos, peças de grupos de teatro amadores, declamações de poesia e performances de travestis. Na saída, rolava uma erva e tudo ficava na paz.

Os rostos da época se confundem em minha cabeça exceto da minha querida Canabinha que me acompanhava mesmo antes dos anos de loucura. Só ela me entendia. Era uma ovelha negra para a família tanto quanto eu e dava a mesma importância. Ríamos muito, vendo nossos pobres irmãos se produzindo e buscando um emprego que lhes desse estabilidade na vida. Eles não sabiam que a estabilidade vem de dentro e que o importante era conhecer novos caminhos interiores, não novos bares da moda.

Canabinha era a mais louca de nós embora eu achasse que ela buscasse algum sentido nesse caos. Às vezes, sentava ao meu lado fumando um baseado e deitando filosofia sobre Nietzche, religião, Deus e o cosmos. Terminava chorando, dizendo que nada fazia sentido.

Para mim, nunca fez mesmo. Sempre achei que a vida era como uma boa erva: você não sabe de onde surgiu mas, já que está à disposição, o negócio é aproveitar. Pode ser cínico mas é menos doloroso. Sem muito pensamento, sem ressentimentos.

Pena que Canabinha caiu naquela traiçoeira viagem que pega a gente direto na veia e não tem volta. A única mulher com quem trepei e realmente amei foi encontrada morta e nua no banheiro do Maracanãzinho depois de um show. Ao seu lado, apenas uma seringa. Alguém havia roubado suas roupas e até sua colher de estimação.

Foram tempos duros. Quase desisti de tudo mas concluí que Canabinha, onde quer que estivesse, iria querer que eu continuasse nossas viagens. Desde então, minha primeira dose de álcool da noite era dedicada à ela e, uma noite, depois de uma carreira, pude jurar tê-la visto num vestido branco, sorrindo. Obviamente, não acreditaram em mim.

O tempo passou. Os rostos se tornaram difusos e desapareceram. O corpo passou a sentir mais a ingestão do álcool e das drogas. Cada noitada me deixava dois dias na cama. Comecei a me sentir como um dinossauro, passeando pelos lugares de minha juventude e vendo aquela carne adolescente, tão nova e cheia de possibilidades. As minhas haviam se esgotado. Era hora de tirar o time de campo.

Chegou o momento de minha última experiência, da última sensação. A maior e mais definitiva de todas. Estranhamente não sinto medo, apenas curiosidade.

Sinto-me como se estivesse num teatro e o palco à frente fosse minha vida. Vejo suas luzes se apagando pouco a pouco e sorrio. Lembro da peça que foi exibida e não me arrependo. Não visto a máscara da tragédia nem a da comédia. Tive o suficiente das duas.

Fecho os olhos e espero encontrar Canabinha.

Tenho cinquenta anos e as pílulas não estão mais na minha frente.

Sem ressentimentos.