Certezas provisórias sobre mudanças irreversíveis

“O mundo está mudando” já virou slogan. Novos e velhos canais, jornais, veículos. Dos especialistas de áreas tradicionais aos “gurus”, todos adotaram a ideia de “crise estrutural” em seus discursos, textos, colunas, editoriais. Por todos os lados, segmentos e áreas a mesma mensagem é cada vez mais repetida. E a realidade, teimosa como sempre, insiste em lhe conferir uma veracidade cada vez maior. Em meio a um mar cada vez mais caudaloso de opiniões sobre um mesmo tópico, dúvidas que atingem o cerne da questão ainda se mantêm na superfície deste oceano de pontos de vista, respirando com certa dificuldade: o que de fato está acontecendo? Qual a magnitude destas mudanças? Qual o impacto disso na nossa vida?

Antes de prosseguirmos, um aviso: eu não sei as respostas e duvido que alguém saiba, por mais especialista ou “bem educada” que esta pessoa seja. É muito mais provável, inclusive, que “a” resposta seja, na verdade, “as” respostas (como veremos a seguir), e que elas sejam extremamente complexas. Talvez não sejam respostas, mas sim reflexões. Ainda não está claro. O que eu gostaria de colocar aqui, antes de começarmos o nosso papo, é o seguinte: duvide. Duvide de tudo. Duvide das minhas opiniões. Duvide dos especialistas e gurus. E pesquise. Pesquise muito e nas mais diversas e variadas fontes. Informações estão cada vez mais disponíveis, sempre a poucos cliques de distância. Isto posto, voltemos ao tema.

Se optei por começar com um clichê, peço licença para utilizá-lo novamente agora: sim, o mundo está mudando. No entanto, há alguns elementos importantes que fazem com que esta mudança pareça ser de um tipo “especial”, daqueles que aconteceram algumas poucas vezes na história da nossa espécie mas transformam muita coisa. Estas crises estruturais apresentam elementos curiosamente similares, isto é, em muitas das mudanças pelas quais as sociedades humanas passaram ao longo da história, algumas forças estiveram sempre presentes (ainda que em seus contextos históricos específicos). Neste texto o foco estará majoritariamente sobre a relação entre o avanço tecnológico (em especial as tecnologias de comunicação), e seu impacto sobre o tecido social.

Mas o que eu quero dizer com isso?

Em geral, sempre que uma nova tecnologia de comunicação surgiu e foi adotada em larga escala, ela transformou as estruturas daquela sociedade. Foi assim com a escrita e a prensa mecânica na Europa, por exemplo. De maneira bem simples, isso ocorre porque estas novas tecnologias oferecem novos formatos e caminhos para a informação circular. Quanto mais “vias” disponíveis pra informação circular, mais pessoas serão “conectadas” nessa rede. Existem várias situações que ilustram isso muito bem: quem não lembra, por exemplo, dos preços proibitivos dos telefones fixos no Brasil no início dos anos 90. Dentre uma série de motivos, um deles era uma rede (infraestrutura) limitada. Na medida em que essa rede foi sendo ampliada, seja na sua cobertura ou na capacidade de tráfego de dados, a oferta de pontos de conexão foi aumentando, o preço pro cliente final diminuindo e a circulação de informação crescendo a taxas cada vez mais rápidas. Este barateamento e a ampliação da rede (e do número de clientes) acabou ajudando a transformar bastante a vida das pessoas, empresas, serviços públicos etc.

Essa imagem da rede telefônica nos ajuda a enxergar bem a magnitude do poder de mudança: como era a vida antes do telefone, da televisão, da internet? Ou, sob uma outra ótica, uma sociedade que vende uma linha de telefone fixo por milhares de dólares é essencial e estruturalmente igual a uma outra em que o preço de um celular é $50? A dificuldade de enxergar a profundidade destas mudanças talvez seja provocada pelo fato de que tudo isso já está tão arraigado na nossa sociedade atual que mal percebemos sua influência (a não ser quando nosso sinal de internet cai, hehehe). Mas imagina se a internet mundial cai amanhã, o que aconteceria? Permita-me te convidar pra viajar um pouco mais longe nesta reflexão: suponha que ocorra uma tempestade magnética solar sem precedentes que provoque o derretimento instantâneo de todos os satélites, fibras óticas e cabos tradicionais que hoje conectam o mundo inteiro.

Num cenário como este, será que a vida continuaria a mesma?

O exemplo é extremo, concordo, no entanto ele ilustra dois aspectos importantíssimos: o mais óbvio é a nossa crescente dependência tecnológica (sem juízo de valor). A outra, e que mais tem a ver com o argumento central deste texto, é que vivemos em um mundo cada vez mais hiperconectado e interdependente, em um nível sem precedentes na história da nossa espécie. Se por um lado este fato permite o surgimento de empresas, produtos e serviços incríveis (como o Google, Facebook, Waze, Uber etc, isto é, modelos de negócio que seriam impraticáveis antes da internet), por outro revela a raiz principal da crise que estamos vivendo: praticamente tudo o que conhecemos hoje, todas as instituições, modelos de empresas, escola, política, democracia etc foram, de certa forma, moldados a partir da influência do avanço de tecnologias que surgiram e escalaram em suas épocas, algumas delas há centenas de anos atrás. Isso significa que suas lógicas e estruturas internas, seus “sistemas operacionais”, foram concebidos em épocas completamente distintas da nossa, para resolver problemas totalmente diferentes destes que vivemos hoje. Ainda que elas tenham sido fundamentais para nos trazer até aqui, seus modelos tiveram esgotadas suas capacidades de gerar respostas e soluções para os desafios que encaramos hoje. Quem nunca ouviu a frase “novos desafios exigem novas ferramentas” (ou algumas de suas variações)? A grande verdade é que a data de validade da maioria das instituições e modelos existentes no mundo como o conhecemos venceu, dos partidos políticos à escola tradicional. Das indústrias às empresas hierárquicas clássicas. E o ponto principal é que ninguém tem muita certeza sobre como serão as novas configurações deste mundo novo que está nascendo. Mas existem alguns indicadores que dão pistas interessantíssimas (falaremos sobre isso ao longo dos próximos textos).

Seria injusto encerrar este texto sem dar o devido crédito às palavras que compõem seu título, elaboradas por um grande amigo, o Prof. Carlos Nepomuceno. Disse o mestre: “vivemos em uma época de certezas provisórias”. Assim como ele, outros tantos especialistas debruçaram seus cérebros brilhantes para tentar aumentar nossa compreensão sobre este momento de profundas transições e, especialmente, sobre a ausência de novas narrativas que deem conta de abarcar e dar vida a uma nova visão sobre a realidade: de Zygmunt Bauman, que afirmou que “estamos num interregno: entre o que deixou de ser e o que ainda não é. Nenhum dos movimentos sociopolíticos que ajudaram a minar as bases do velho mundo está pronto para herdá-lo. Não surgiu nenhuma ideologia ou visão consistente que prometa dar forma a novas instituições para este novo mundo”, até Frederic Jameson que, por sua vez, destacou que “de nada adianta substituir uma estrutura institucional inerte (o planejamento burocrático) por outra estrutura institucional inerte (o mercado). O que se requer é um grande projeto coletivo do qual participe uma ativa maioria da população, como algo pertencente a ela e construído por sua própria energia”.

Por onde começamos a construir este “projeto coletivo”? As novas tecnologias disponíveis hoje (contextualizadas em suas capacidades de avanço exponencial) nos permitem redesenhar a realidade e construir novos modelos e paradigmas?

Como eu afirmei no início deste texto, não sei a resposta “correta”. Mas desconfio que haja alguns caminhos possíveis. A verdade é que quando ninguém sabe a resposta e as informações estão cada vez mais disponíveis, todos nós nos tornamos parte fundamental da solução do problema. O futuro ainda está por ser escrito e, num mundo cada vez mais hiperconectado, o protagonismo e a responsabilidade desta autoria são nossos. A Terra precisa que eu e você sejamos coautores destas novas narrativas, que escrevamos estas páginas com responsabilidade e uma visão sistêmica, em rede, que considere todas estas relações de interdependência que tornam o planeta um grande organismo vivo, intrínseca e irreversivelmente conectado.

Lacan afirmou que “no real não falta nada: toda percepção de uma falta ou de um excesso implica um universo simbólico”. Por esta ótica, talvez o desafio se torne um pouco mais palatável, na medida em que toda essa mudança necessária, por maior que seja em termos de magnitude e amplitude, possa começar por nós mesmos, pela simples alteração da maneira como olhamos as coisas.

O primeiro passo para salvar o planeta, portanto, pode ser tão fácil quanto trocar as lentes dos óculos por meio dos quais enxergamos o mundo e o nosso papel nele.

A questão é se estamos de fato preparados para deixarmos o “velho paradigma” pra trás. Ou se ainda temos alguma outra opção que não seja lançarmos as naus neste oceano de águas incertas que chamamos de futuro.