Miopia Evolutiva ou Cegueira Seletiva?

Me deparei com uma matéria sobre a posição de Celso Russomano em relação ao Uber. Confesso ter ficado preocupado, não especificamente com a legalidade/disponibilidade do serviço em si, mas por imaginar que tal opinião evidencie um problema maior. Assim como a febre pode ser sintoma de uma simples gripe ou de uma pneumonia, creio que estejamos diante, além das finalidades eleitoreiras óbvias, de uma doença mais séria.

Olhar pro Uber apenas como “concorrente de táxi” é de um reducionismo triste e improdutivo. A cidade de são Paulo ganharia MUITO MAIS se o aplicativo fosse encarado como um exemplo de como a tecnologia pode ser utilizada na solução dos gravíssimos problemas de mobilidade em uma cidade como SP.

Aumentar opções de transporte, melhorar a taxa de ocupação de veículos (para otimizar a utilização das vias, levando mais pessoas “por metro quadrado” de ruas e avenidas), melhorar e ampliar as opções de transporte público etc, deveriam ser medidas seriamente consideradas pelos administradores públicos. Reduzir as externalidades negativas de décadas de estímulos ao transporte individual é mais do que fundamental, não apenas com foco na redução de tráfego, mas também para reduzir o impacto no meio ambiente.

O ponto aqui é que o conflito “Uber vs Taxi” é a ponta de um iceberg muito maior, que engloba reflexões e discussões mais amplas e profundas sobre a adoção de novas tecnologias para solucionar problemas que as antigas já não dão mais conta. Isso tem relação direta não apenas com o “serviço Uber” em si, mas também com a evolução de tecnologias relacionadas ao transporte individual: veículos autônomos já são realidade e estarão presentes na nossa vida muito mais rápido do que imaginamos (vale ler este manifesto da Tesla, marca estadunidense que produz carros elétricos). Os especialistas da área afirmam que, em uma janela de 10 anos, redefiniremos conceitos como “automóvel” e “transporte individual”. Por que isso não entra na pauta da discussão dos nossos candidatos/representantes eleitos?

Este cenário, na minha humilde visão, demonstra a existência de uma “patologia” que está presente em uma parcela muito grande dos nossos representantes: a falta de conhecimento sobre o que está acontecendo no mundo e a baixa capacidade de discussão e mobilização dos diferentes setores da sociedade. As causas desta “miopia evolutiva” vão desde a ignorância simples, isto é, o desconhecimento do assunto, até o que eu chamo de “parcialidade intencional”. Este último elemento, aliás, talvez seja o mais sério dos sintomas (e talvez o mais presente em nossa classe política), pois o candidato troca, no médio e longo prazos, o bem-estar da cidade e de seus habitantes por vantagens pessoais de curto prazo. Em outras palavras, ele se locupleta de um conflito momentâneo e natural em períodos de transição (como este que vivemos hoje no mundo) para se eleger.

Adotar este tipo de comportamento escolhido pelo Sr. Russomano pode ser ainda mais grave, na medida em que ele não só aborda de maneira rasa um problema muito mais complexo e multifacetado, mas também ignora um fato histórico indiscutível: tecnologias e instituições são elementos inseparáveis em uma sociedade. São fios que compõem o mesmo tecido. Trata-se de uma relação que precisa ser mediada e encarada a partir da análise de todas as variáveis envolvidas, e não por meio de uma simples canetada.

Você talvez esteja pensando: “ué, mas não é exatamente isso que todos os políticos fazem, em menor ou maior medida, em períodos eleitorais?”

Talvez sim, ainda que toda generalização seja perigosa. Mas se olharmos com atenção para o cenário eleitoral, ao menos em São Paulo, é possível encontrar vários candidatos que abordam esta questão sob óticas muito mais úteis e interessantes para o futuro da cidade (mas não necessariamente de acordo com o ponto de vista deste autor).

Mas antes que este despretensioso texto seja jogado na pasta “discursos eleitorais em época de eleições”, permita-me convidá-la(o) para uma reflexão um pouco mais ampla: ao longo da História, este tipo de “miopia evolutiva” costuma ocorrer com uma frequência muito mais alta do que esperaríamos se o ser humano fosse tão racional quanto o pensamento econômico tradicional afirma que é.

Talvez uma descrição mais próxima da realidade precise contemplar toda a complexidade envolvida nas intrincadas relações de interdependência entre a tecnologia e a sociedade. No livro “Innovation and its enemies: Why People Resist New Technologies” o autor discute a questão em termos bem interessantes: “Sociedades não evoluem e respondem a mudanças se gerar uma maior variedade em suas capacidades adaptativas. Por outro lado, uma sociedade não funciona sem um certo grau de continuidade institucional e estabilidade social. Administrar as interações entre mudança e continuidade continua sendo uma das funções mais críticas de todos os governos” (em tradução livre). Aparentemente, segundo a mesma obra, o problema se encontra na maneira como as pessoas percebem e calculam os riscos e benefícios de uma nova tecnologia: há uma maior probabilidade de oposição a uma nova tecnologia se esta for percebida como causadoras de problemas no curto prazo (ainda que ofereçam mais benefícios ao longo do tempo). Qualquer semelhança com o comportamento dos nossos políticos não é mera coincidência, diga-se de passagem. A percepção quanto à distribuição dos benefícios nas diferentes camadas da população também parece ser um fator importante. Um último fator tem natureza cultural, e aqui talvez haja um ponto de conexão mais direto com o objeto deste texto: “inovações que ameaçam alterar elementos/identidades culturais costumam gerar intensas preocupações sociais. Desta forma, sociedades que apresentam grande desigualdades/instabilidades econômicas e políticas tem uma chance maior verem aumentadas suas controvérsias tecnológicas”. (em tradução livre)

Saber que este problema de visão é algo comum ao longo do tempo nas mais diferentes épocas e países é reconfortante, de certa forma, pelo fato de não sermos os únicos a enfrentar este tipo de situação. Nossa geração, no entanto, possui um diferencial importante: a consciência de que a miopia existe e que a cegueira seletiva é adota ampla e abertamente pelos mais diferentes personagens, nas mais distintas situações (com especial preferência por períodos eleitorais, claro).

Resta claro que redefinir nossa relação com os avanços tecnológicos é imprescindível em um período de mudanças tão profundas como este que vivemos hoje. Daqui pra frente a mudança deixa de ser exceção para se tornar regra. E sua velocidade tende a ser cada vez maior. Para casos como o de Russomano, que inspirou a elaboração deste texto, receio não haver canetas o suficiente para interromper o processo. Retomando a metáfora da doença, a canetada se torna aquele remédio que deixa de cumprir sua função primordial e precisa ser descontinuado por causar apenas efeitos colaterais desagradáveis.

Com tal diagnóstico em mãos, estamos, por fim, perfeitamente aptos a providenciarmos os óculos apropriados, com lentes que corrijam as distorções causadas por este tipo de miopia. Quem sabe assim, enxergando melhor, consigamos digitar os números certos na urna eletrônica no dia 02 de outubro contra aqueles que oportuna e conscientemente escolham ignorar a realidade para ganhar votos.