Um sonho de liberdade

Acordo com o jingle tradicional de “notícia extraordinária”, aquele que quando tocava nas TVs de tubo dos anos 80 e 90, a família brasileira se aglutinava na sala, ansiosa, para saber, em primeira mão, o que de urgente acontecia no país e no planeta.

Acordo na cama. Sonhava estar na sala de tacos encerados com sofá de couro verde onde passei grande parte da minha infância assistindo TV. Olho no celular. Era o alarme. Mais uma noite de sono pobre. Estou acabado, quero dormir mais. Mal consigo ficar de olhos abertos. Mas há muitas notificações pendentes de leitura, sou avisado pelos ícones na parte superior. Quero voltar pro sonho nostálgico mas há uma sensação nítida de abstinência química que move meus dedos naquela tela para obter a microdose de dopamina oferecida quase de graça pelo Facebook. 18 mensagens não lidas, uma quantidade que me impede de recolocar a cabeça no travesseiro e voltar para aquela casa de há tanto tempo.

Confesso não ter uma grande expectativa de ler notícias bombásticas aquela hora da manhã, mas, para o minha surpresa, há algo de realmente grave acontecendo. Manobras realizadas na surdina lá no topo da pirâmide da capital federal desmantelaram e acabaram com a “Operação Lava Jato”. As pessoas nem esperaram o sol para ir às ruas protestar. O país inteiro amanhecia em alvoroço.

Em poucos dias a situação evoluíra de forma exponencial. Em todas as capitais, sem exceção, o confronto entre povo e poder público ultrapassava, sem dó, todos os limites aceitáveis em uma sociedade considerada normal. Comentaristas internacionais discutiam diuturnamente uma hipótese sociológica e historicamente intrigante: o Brasil vivia o início de uma grande guerra civil sem paralelos em sua história.

Especialistas em política justificavam com o que lhes parecia mais do que óbvio, que a judicialização excessiva pressionara os poderes legislativo e executivo a adotarem medidas “contracílicas” para conter o avanço do judiciário. Era o estado democrático de direito lutando contra si mesmo pela própria sobrevivência.

Sociólogas e historiadores afirmavam que, ao contrário de outros países do primeiro mundo, que vivenciaram o amadurecimento de suas democracias em um mundo que mudava de maneira mais lenta e linear, o Brasil de 2017 e sua jovem e tenra democracia discutiam a relação em um mundo completamente diferente, mais complexo, hiperconectado, interdependente. E que este contexto inseria caos em um sistema social que fora construído lentamente ao longo dos últimos séculos, e cujas instituições, geradas e constituídas em épocas remotas, não eram mais capazes de absorver tantas ondulações e mudanças, muito menos de processar um nível cada vez maior de informações. O que víamos nas cenas que abarrotavam a internet era apenas a falência definitiva destes enormes elefantes-brancos-institucionais, já totalmente destituídos de suas capacidades de prover respostas para os problemas do povo. A ilusão do Estado desaparecera da mesma forma mágica com que fora criada: tornando-se uma estória que ninguém mais gostaria de ouvir. O gigante acordou.

Em cada veículo, programa de TV ou canal da internet havia um recorte, um infográfico, as 10 coisas que você precisava saber sobre a Guerra Civil Brasileira, um vídeo com o resumo de 15 segundos sobre as origens históricas do conflito, fofocas, nudes, selfies, além, é claro, da opinião de milhões de anônimos, cada um falando com seus próprios microclusters de audiência. A fragmentação que se via no Brasil era apenas um retrato tardio de um processo estrutural mais amplo, global, que claramente era acelerado pelo avanço tecnológico que corria à revelia e sob ampla ignorância da camada política dirigente.

Na terça-feira seguinte, a primeira tentativa de assassinato ao presidente temer. Dados coletados das mídias sociais mostravam que os internautas brasileiros apostavam que alguma figura importante morreria em menos de 30 dias. Havia sites de apostas aceitando criptomoedas. Grupos extremistas clamavam por decapitação em praça pública. Memes com cabeças rolando eram frequentes. Era pelo exemplo, diziam. Revolução Francesa com samba, feijoada e caipirinha, foi o título de uma charge sem graça compartilhada dezenas de milhares de vezes. “Brasília” deveria se chamar “Bastilha”.

Para aumentar a minha sensação de espanto, leio que uma família de 27 patos-bomba fora estrategicamente colocada dentro do prédio da FIESP, em São Paulo, causando a morte de alguns diretores. Nem os protetores de animais tiveram coragem de protestar. Afirmava a imprensa que não era receio de represália. Era consciência social e cívica. “dos males, o menor”, escreveu o algoritmo responsável pelo editorial do principal jornal virtual tupiniquim.

“Novos problemas exigem novas ferramentas” dizia o anúncio de uma palestra com mais um pseudo-guru da inovação.

Exatos 17 dias depois, oito ou nove drones, ninguém sabe dizer ao certo o número, ardilosamente fantasiados de jaburus, entraram na residência presidencial recheados de explosivos e deram cabo do presidente. Massas humanas de proporções gigantescas dançavam em êxtase do Oiapoque ao Chuí. O termo “carnaval de rua” não era mais capaz de abarcar tamanha festança. Ainda que sob efeitos de felicidade intensa, o que se viu nas horas seguintes teve um sabor meio amargo: foi o maior derramamento limpo de sangue sujo de que se tem notícia, na medida em que o povo, outrora pacato, invadia o congresso e assassinava um por um. Deixavam de ser a platéia do pão e circo para assumir o papel de gladiadores das arenas da copa. Nunca na história deste país houve um serviço de dedetização tão completo. A Nova República Brasileira tinha início.

“7x1 pra gente”. “Com brasileiro não há quem possa”. Eram as manchetes que estampavam folhetos clandestinos, já que as principais redações jornalísticas agora ardiam em chamas. Futebol também é contracultura. A limpeza precisava ser completa, diziam. O país estava sendo formatado para a instalação de um novo sistema operacional.

Acordo na cama. Sonhava estar sonhando. Pego o celular, desligo o alarme. 18 notificações me esperam. Depois de pouco mais de 4 horas de sono, meu cérebro implora por dopamina enquanto meu corpo dá claros sinais de falência por cansaço. O maestro da caixa craniana comanda os dedos na tela do celular para curar sua abstinência. Vejo a luz azul do Facebook enquanto o aplicativo carrega. Meu coração bate mais forte. Esboço um sorriso tímido. Leio a primeira matéria, apreensivo sobre a situação calamitosa do país. Em sua 334 fase, a Lava Jato conduzia coercitivamente o neto de Lula para esclarecimentos sobre aquele triplex do avô. Queriam saber ser era realmente dele. Não havia guerra. O país estava em paz. Os políticos estavam vivos, jornais circulavam normalmente. Temer era capa de revista com a família no Palácio do Jaburu. Senti um desconforto mas não era refluxo. Meu cérebro retorcia ao redor da sensação de justiça oferecida em doses homeopáticas pelas incontáveis fases da Lava Jato, que aparentemente serviam apenas como microdoses de dopamina para manter o povo nos trilhos. Deles, é claro. O gigante dormia sob uma longa e morosa canção de ninar, dividida em suaves e intermináveis prestações, como não podia deixar de ser no país do carnê e da parcela sem entrada.

“E você, quer pagar quanto?” Foi o que o italiano me perguntou, disse Marcel, grande empresário envolvido em negócios escusos, em sua delação premiada. Mais de 2.549 pessoas haviam sido citadas até aquele momento. Os tentáculos da operação cresciam em projeção geométrica na medida em que cada novo acusado assinava acordo de delação e criava uma nova ramificação da história, com novos personagens. Parecia que o país inteiro estava envolvido. A República Federativa do Brasil era um sistema prisional de dimensões continentais a céu aberto.

Muitos haviam sido presos, é verdade, e de ambos os lados. Mas tudo continuava temerariamente igual. Pelo menos era o que dizia a minha bolha no Facebook. Voltei a dormir me perguntando se o efeito colateral da Lava Jato, enquanto atacava cirurgicamente o câncer nacional, era provocar letargia social. A quimioterapia drena energia de seus pacientes, explicaram os médicos. Ou talvez fosse apenas o excesso de dopamina diária que transformara nosso cérebro em uma insensível e inócua esponja de fatos alternativos e pós-verdades. Esponja me pareceu leve e a sensação da cabeça contra o travesseiro se amaciou. Fechei os olhos ansiando pelo sonho de quando a vida era lenta, previsível e a ilusão de segurança me abraçava com carinhos de mãe bastarda, mas sincera.

Administrar nosso próprio consumo diário de dopamina e consumir. Comprar. Clicar. Arrastar. Abrir. Transmitir. Conectar. Curtir. Compartilhar. Conquistamos, finalmente, a liberdade que centenas de gerações passadas puderam apenas sonhar em suas vãs filosofias e literaturas. Que bom. Agora posso dormir tranquilo até a próxima notificação.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.