A Economia das APIs, Confiança e a Teoria dos Contratos

O que é a Economia das APIs e o que ela tem a ver com Confiança e com a Teoria dos Contratos? Os executivos de negócios estão sob forte pressão para melhorar eficiência, aumentar produtividade, e transformarem suas proposições de valor de forma a prosperarem no mundo hiperconectado de hoje. Ter uma estratégia digital viável pode fazer a diferença entre transformar seu negócio e assistir seus competidores capitalizarem oportunidades antes inimagináveis. As APIs — Application Programming Interfaces (Interfaces de Programação de Aplicações) — desempenham um papel de alicerce em materializar tal estratégia.

Uma API conecta seus processos de negócios, serviços, conteúdo, e dados a canais de parceiros, equipes internas, e desenvolvedores independentes de forma fácil e segura (ver Figura 1 à frente). APIs estão se tornando rapidamente o padrão de facto pelo qual as empresas trocam dados e constroem consistentes experiências de consumidores por canais cruzados (elas são consideradas como a “cola” do mundo digital). Além disso, as APIs têm servido de base para a definição de vários novos modelos de negócios, marcadamente no que diz respeito a novas modalidades de precificação e receitas.

As APIs são escritas usando dois grandes protocolos técnicos: o protocolo Representational State Transfer (REST) e o Simple Object Access Protocol (SOAP). O REST é de longe o mais popular padrão para as APIS de hoje, segundo dados da Programmableweb (um dos maiores repositórios de APIs e de outros recursos relacionados do mundo). John Musser, fundador da Programmableweb, e hoje na Basho Technologies, vem demonstrando há alguns anos pelo menos uns vinte modelos de negócios que estão sendo criados a partir das APIs e de métricas relacionadas.

Mas como as APIs se relacionam com Confiança e com a Teoria dos Contratos? Inicialmente, vamos ao significado da teoria. A Teoria dos Contratos, teoria cujos principais contribuintes foram os recentes recebedores do Prêmio Nobel de Economia de 2016, os Professores Oliver Hart e Bengt Holmstrom, estuda o design (projeto) de acordos formais e informais que motivam as pessoas com conflitos de interesse a tomarem ações que sejam de mútuo benefício. Ela vai muito além dos meros contratos jurídico-legais.

Os contratos nos ajudam a sermos cooperativos e a confiarmos quando nós, de outra forma, poderíamos estar desobrigados ou desconfiados em fazer acordos. Uma importante razão para desenhar um contrato é regular ações futuras. A Teoria dos Contratos nos provê com mecanismos gerais de entender o desenho de contratos. Uma das metas da teoria é explicar porque os contratos têm várias formas e desenhos. Outra meta é nos ajudar a trabalhar em como desenhar melhores contratos, portanto, conformando melhores instituições na sociedade.

Acontece que a Teoria dos Contratos foi pensada a partir de, e para, o mundo “analógico”, um mundo onde as relações sociais, econômicas e políticas se processavam eminentemente num mundo pré-digital antes da existência da Internet, representante maior do chamado mundo digital (*). Neste mundo analógico um conceito crucial para essas relações era um conceito/valor específico de Confiança (Trust, em inglês). Entretanto, hoje (no mundo crescentemente digital) nós estamos assistindo/convivendo com um outro conceito/valor de Confiança/Trust.

De acordo com Rachel Botsman, especialista internacional na questão de Trust, nós estamos vivenciando uma terceira e nova etapa de confiança na humanidade, o que ela denomina de Distributed Trust (Confiança Distribuída). Segundo ela, a primeira etapa da confiança na humanidade se manifestou quando nós ainda convivíamos em pequenas vilas, e a confiança era predominantemente moldada pelas relações familiares e de vizinhança local (ou seja, a Confiança Local). Com a evolução da sociedade, passamos a conviver com uma Confiança Institucionalizada, que é aquela que passamos a aceitar (predominantemente na era industrial) e que ainda molda o mundo analógico nos dias atuais.

A Confiança Distribuída é aquela que emerge com, e a partir de, avanços das tecnologias de informação e comunicação — TICs, e, marcadamente da evolução das relações globais permeadas pela Internet. É o que alguns estão denominando mais recentemente de o fenômeno da “Uberização do Planeta”, onde novas inovações e novos modelos de negócios são pautados por reconhecimento de que eles (inovações e modelos) estão permitindo aumentar a produtividade, a lucratividade e o bem-estar dos indivíduos e de organizações em escala global, sem a necessidade dos padrões, regras (e, principalmente, contratos) da era analógica dominada pela Confiança Institucionalizada.

Neste sentido, como o desenvolvimento das tecnologias e inovações não para (e a Fronteira Tecnológica Global cada vez mais se expande), e como novas empresas baseadas em tecnologia cada vez mais cooperam/colaboram entre si e se tornam inter-dependentes, usando ferramentas como as APIs (ou outras, como Virtual Assistants e Chat Bots), faz-se mister uma urgente adequação dos mecanismos propostos pela Teoria dos Contratos ao mundo digital e aos seus novos domínios, como a Internet das Coisas.

Em resumo, para que possamos avançar mais no mundo digital, superando obstáculos até hoje considerados como intransponíveis, precisamos urgentemente inovar nossas instituições para que as novas empresas, tecnologias, inovações e modelos de negócios possam nos trazer mais benefícios a muito mais pessoas no planeta. E para tanto, precisamos pactuar novos contratos sociais, econômicos e políticos, numa era onde a confiança é cada vez mais distribuída e compartilhada!

(*) Hoje 40% dos habitantes do planeta já são usuários da Internet (ver: http://www.internetlivestats.com/internet-users/)

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