A idolatria da concorrência

George Bellows: A Stag at Sharkey’s, 1916.

Um dos meus passatempos prediletos é andar pela cidade observando a arquitetura, as pessoas e a atividade local. Em pouco mais de cinco anos vivendo na região dos bairros centrais de Campinas, vi muitos negócios abrirem e fecharem rapidamente suas portas enquanto outros iam nutrindo e proliferando lentamente o seu território. O quê poderia estar por trás dessa diferença tão grande entre fracasso imediato e sucesso a longo prazo?

Existe uma mentalidade geral, proveniente da microeconomia liberalista, que prega e estimula a competição nos negócios e que nos leva a pensar no estado de concorrência perfeita como o melhor e mais saudável dos mundos para todos. O fato é que, no limite, essa ideia pode se assemelhar mais à uma política de estagnação do que de crescimento, e há um fator crucial que nos leva a observar isso na prática: seguindo a evolução natural da economia e da hierarquia das necessidades, as pessoas demandam cada vez menos uma grande oferta de bens parecidos entre si e cada vez mais opções diferentes e variadas de produtos, serviços e experiências.

1. O empreendedor: analista ou ponto fora da curva?

Jean-Michel Basquiat em seu estúdio na Rua Great Jones no NoHo, Nova Iorque, 1985.

E como essa lógica funciona do ponto de vista do empreendedor? A moral da história é que, sob o estado de concorrência perfeita, nenhuma empresa seria capaz de obter real lucro econômico no longo prazo. Então qual seria o sentido de desenvolver um negócio baseado em produtos que alguém já oferece no mercado — como roupas, televisores e automóveis — se teoricamente a necessidade das pessoas já está sendo atendida e a rentabilidade de uma ideia do tipo já nasce comprometida? Idealistas diriam: para melhorar a qualidade e abaixar o preço do serviço para o consumidor. Porém, políticas governamentais poderiam muito bem fazer esta função regulatória, e elas de fato o fazem em estados mais desenvolvidos. No fundo no fundo, o fenômeno denuncia um pouco de falta de criatividade misturada a um comportamento de manada.

Talvez seja aqui que apareça uma das lições mais valiosas do mundo dos realizadores: a essência do empreendedor talvez seja a de combinar uma visão aguçada das causas de problemas humanos com um jeito único de sanar estas mesmas causas, ou seja: a soma de uma oportunidade ímpar com um propósito singular. É desta adição que saem as ideias, obras, produtos, serviços e experiências mais brilhantes do mundo, capazes de adicionar valor para todo um ecossistema. Nessa lógica, a personalidade do realizador precisa ser inspirada por dois lados de uma mesma moeda — a figura do psicanalista e do paciente, do analista e do ponto fora da curva.

2. O que vale mais: competir ou construir?

Antoni Gaudí: Esboço para a Igreja da Colonia Güell.

Mais um dos grandes equívocos do mundo do empreendedorismo é a comparação generalizada de estratégias de guerra com estratégias de negócio. A comparação é válida sim, mas somente quando o assunto em pauta é a concorrência — a briga por espaço dentro de um mercado já estabelecido. Viabilizar uma ideia não implica necessariamente em ter que rivalizar logo de saída, e deveria antes de tudo significar arquitetura e estruturação do que guerra e competição.

Um outro ponto, estendendo-se um pouco mais nas analogias dos dois universos, é o diferente resultado destas estratégias e pontos de vista: enquanto guerra é sinônimo de desgaste, obsessão e destruição, arquitetura remete mais a fomento, criação e construção. Não é a toa a cada vez mais, negócios valiosos e relevantes para sociedade nascem dos projetos de engenheiros, programadores e designers, e não de estratégias de políticos, guerreiros e generais.

3. Tomar a dianteira ou correr atrás: price taker x price maker

Beth Hoeckel: Run the Town.

Não pode existir coisa mais frustrante para um empreendedor do que ser obrigado a balizar o valor dos seus produtos e serviços única e exclusivamente pelo da concorrência. Pois é, dentro de mercados bem estabelecidos ou em vias de saturação, não há outra escolha. Não é necessário correr para ser o primeiro a dar a largada, mas este é o preço que se paga por sair muito atrás e acabar entregando mais do mesmo. Aqui, mesmo a busca incessante por inovações incrementais é ineficaz para virar a situação: ninguém está disposto a pagar a mais por algo que não traz substancialmente mais valor para o seu dia a dia. A epopéia do price taker é mais um capítulo da herança difícil deixada pela ideologia da competição.

E quem tem o privilégio de ditar os seus próprios preços, o price maker, não fica propenso a extorquir o consumidor? Não necessariamente. No limite, quando tratamos de uma cadeia que não é diretamente responsável por suprir necessidades básicas do ser humano — como a nutrição, higiene e segurança — as pessoas podem simplesmente optar por não comprar. E mesmo no caso de bens primários que abastecem a população, como é o caso dos setores alternativos de energia, mobilidade e transação monetária por exemplo, existe uma lacuna imensa a ser preenchida pela variedade. Cabe apenas ao empreendedor usar a paciência, a coragem e a criatividade a seu favor.

4. Concorrência e bolhas econômicas: vai uma paleta ou um café aí?

Autor Desconhecido: Surfadores Aguardando a Crista da Onda.

Existe ainda mais um fenômeno característico que ocorre quando todo o mercado e as pessoas começam a ir para um só lado: a bolha econômica. O que difere este evento da concorrência tradicional é simplesmente uma linha de tempo: enquanto na competição a briga geralmente começa depois que o mercado já se estabilizou, a bolha acontece quando a multidão ainda está formando fila para garantir o seu pedaço do bolo. Ou seja, se a ideia não obedece nem um pouco a lógica de maturação oportunidade ímpar / propósito singular proposta no primeiro tópico, provavelmente todo mundo já a teve.

Assim se originou e desapareceu uma das oportunidades mais rápidas de negócio nas regiões de Campinas que possuem alto giro de capital, junto de vários outras que aparecem geralmente de dois em dois anos no mercado: as Paleterias Mexicanas. Um contraponto do caso, lançado praticamente no mesmo ano em que a febre das paletas começava a contaminar os empreendedores locais, é o Café Container. Criado a partir de uma ideia extremamente simples — a de entender a fundo o seu produto principal — o empreendimento é desde 2013 uma constante de público e só depois de praticamente 5 anos começa a planejar sua expansão. Casualidade? Não. Originalidade, simplicidade e resiliência.

5. E pode um monopólio pode ser benéfico para o consumidor?

The Beatles: Rooftop Concert, 1969.

Se o negócio é único, provavelmente ele tem alguma característica de monopólio. E infelizmente fomos condicionados a olhar isso como algo ruim, enquanto a concorrência sempre foi vista como sinônimo de uma economia saudável. Durante muito tempo essa ideia foi suficiente para transparecer a realidade — principalmente nos primórdios do desenvolvimento da economia industrial quando dependíamos única e exclusivamente de recursos como o petróleo, as ferrovias e a energia elétrica. Porém, frequentemente nos esquecemos que no passado a utilidade desses bens também foi antevista por outros empreendedores, e que cada vez mais passamos a criar plenas condições de elaborar fórmulas alternativas para estes insumos.

Um monopólio pode sim trazer benefícios para o consumidor, por vezes até maiores do que os oferecidos pela concorrência. E não precisamos nem evocar grandes e modernas empresas de tecnologia como o Google, a Amazon e o Airbnb para ilustrar o caso. Basta mencionar um negócio local que buscou se especializar e se aprofundar em um dos mais antigos, mais consumidos e mais adorados produtos da história da humanidade: o café.


Publicado originalmente em jumpers.cc