Premiações artísticas dos EUA estão em decadência

A parcialidade diminui a credibilidade do Grammy e Oscar tem sua pior audiência desde 2008

*Fiz esse texto no comecinho do ano, porém não disponibilizei. Como é um assunto que nunca morre, resolvi postar mesmo assim.

Acabou fevereiro, se foi o carnaval, porém as discussões sobre os prin­cipais prêmios americanos de arte (Oscar e Grammy) vão nos perseguir duran­te o ano inteiro. É clara a necessidade de mudança nas duas premiações, pois a cada ano a audiência se torna mais instável.

De acordo com os da­dos da Nielsen, nos Esta­dos Unidos, o Oscar 2017 foi um fiasco no quesito audiência. Esta foi a mais baixa desde 2008 (31,8 milhões de assistentes). É uma queda de aproxima­damente 10 milhões de espectadores, se compa­rada à cerimônia de 2014, que contou com a apre­sentação de Ellen DeGe­neres e teve 43,7 milhões, com a deste ano, apre­sentada por Jimmy Kim­mel e que teve somente 32,9 milhões.

“não posso aceitar este prêmio. Minha vida é Beyoncé e seu álbum ‘Lemonade’, para mim, foi monumental e um apoio para a alma. Conse­guimos ver outro lado de você que nem sempre nos deixava observar. Meu álbum do ano era ‘Lemo­nade’

Contrapondo, o Grammy se saiu bem e “respira por aparelhos”. A audiência deste ano che­gou aos 24,9 milhões de espectadores, pouco abai­xo do índice do ano pas­sado, que foi de 25,3 mi­lhões. Mas estes números não são tão graves como os 19,1 milhões de 2009. Este último foi definiti­vamente um fiasco para a premiação. Apesar da audiência do Grammy ser satisfatória, a premiação perde credibilidade ano após ano. O embate entre “Lamonade”, de Beyoncé, e “25”, de Adele foi inevitá­vel. A chance de Beyon­cé ganhar seu primeiro prêmio de melhor álbum nunca foi tão sólida e, ao mesmo tempo, tão inal­cançável. Não é à toa que grandes artistas do R&B nem compareceram à pre­miação como, por exem­plo, Kanye West e Frank Ocean. Estes não veem o Grammy como uma pre­miação justa e acreditam que a derrota dos artistas negros sempre é previsível e suspeita como foi, neste caso, o fato de Beyoncé perder o prêmio de me­lhor álbum para Adele.

Não que o “25” não seja merecedor. Mas foi a pró­pria Adele quem declarou ao receber o Grammy: “não posso aceitar este prêmio. Minha vida é Beyoncé e seu álbum ‘Lemonade’, para mim, foi monumental e um apoio para a alma. Conse­guimos ver outro lado de você que nem sempre nos deixava observar. Meu álbum do ano era ‘Lemo­nade’”. No discurso, Ade­le, mesmo ao se declarar honrada por receber o prêmio, aparentemente se sentiu “culpada” por ser premiada. A britânica foi ainda mais longe: na en­trevista logo após a pre­miação, disse: “eu sinto que era a vez dela ganhar. Que diabos ela precisa fa­zer para ganhar álbum do ano? É assim que eu me sinto!” E acrescentou: “obviamente, o visual é muito novo e o Grammy é muito tradicional, mas eu pensei que este seria o ano em que eles iriam na­dar contra a corrente”.

Essa última fala da Adele ilustra o sentimento de todos os espectadores que gostam e acompa­nham os artistas negros. Há sempre uma esperan­ça que ronda estes fãs, na expectativa da tão sonha­da mudança do Grammy, pela qual a parcialidade da academia não vai prevale­cer. Em 2016, o cenário estava semelhante; era um claro embate entre “1989”, de Taylor Swift e “To Pimp a Butterfly”, de Kendrick Lamar. Logicamente, a já apelidada “queridinha da academia” levou álbum do ano (lembrando que Taylor derrotou, em 2009, na mesma cate­goria, a própria Beyoncé na era “I Am… Sasha Fierce”). Mas isso nem foi o pior. A parte mais vergonhosa que deixa clara essa par­cialidade da academia foi ela ter ganhado o prêmio de melhor videoclipe com “Bad Blood”, derrotan­do novamente Kendrick, que concorria com o ví­deo de “Alright”.

O fato que diminui a credibilidade da premia­ção não é Adele ter ga­nhado de Beyoncé e sim a previsibilidade. Veículos especializa­dos em cultura elegeram o “Lemonade” como melhor álbum de 2017 durante todo o ano. Porém, quan­do se tratava de Grammy, muitos apontavam a vitó­ria de Adele como certa. Ryan Tedder, vocalista do OneRepublic, analisou muito bem os votantes da premiação, já prevendo a derrota da Queen B. “O eleitor médio do Grammy é um cara branco, com mais de 40 anos; alguém mais atraído por Adele do que Beyoncé”.

Ao contrário desse cenário, o Oscar ainda tem credibilidade e agre­ga muito valor a qualquer artista/obra que for indi­cado. Neste ano, “La La Land” foi o filme mais po­pular na pré-premiação. Lotou salas e arrancou elogios de qualquer um que assistisse. E ao ser in­dicado em 14 categorias do Oscar, a campanha pelo filme só aumentou. Mais salas começaram a exibir o musical e a publi­cidade sobre a produção foi impulsionada.

Além de eleger os me­lhores do ano do cinema, essa premiação tem o pa­pel de divulgar e enaltecer às obras indicadas. Essa é a prin­cipal diferença entre as premiações em questão, pois o Grammy pode até impulsionar uma obra a um patamar de maior su­cesso. Porém, os indica­dos da premiação musical estão no topo dos charts (rankings musicais); eles não precisam de uma pre­miação para “validar” seu sucesso. A tendência de muitos desses artistas é realmente esnobar o prê­mio, inclusive porque, ge­ralmente, os músicos indi­cados têm mais projeção que a própria instituição que elege os “melhores dos melhores”. Exemplo disso foi o Drake, que recebeu dois prêmios nas categorias de rap e, em entrevista ao OVO Sou­nd Radio da Apple Mu­sic, disse: “eu ganhei dois prêmios, mas eu nem os quero, porque me sinto estranho com eles por alguma razão. Sinto-me quase alienado, ou como se estivessem tentando me alienar propositadamente, fazendo-me ganhar prê­mios rap, ou me acalmar me entregando algo e me colocando nessa catego­ria porque é o único lugar onde eles acham que po­dem me colocar”. Drake não aprova a vitória da sua música “Hotline Bling” na categoria de melhor músi­ca de rap, pois, para ele, ao contrário do que acham os votantes do Grammy, essa música é pop.

A preferência pelos artistas brancos e o descaso com os músicos negros por parte dos votantes da academia de música é gritante e este é o principal fator que justifica a falta de credibilidade do Grammy. Já no Oscar, essa parcialidade não é tão clara e “escancarada”, o que corrobora com a visão segundo a qual a academia escolhe realmente os “melhores dos melhores”. Quanto à academia de música, se esta não consegue deixar a parcialidade de lado na hora de votar, o público não vai se importar com quem ganha ou deixa de ganhar um Grammy, pois fica subentendido que os vencedores são aqueles que os votantes mais se identificam e não aqueles que têm os melhores trabalhos.

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