Segundas Considerações — Sobre a Necessidade de Fortalecermos Nossas Estruturas Afetivas e Emocionais

Pensar sobre a nossa estrutura psíquica, incluído as estruturas internas que moldam a subjetividade — afetos, motivação, auto-percepção, senso de autoeficácia, etc — é um importante fator para a superação dos desdobramentos provocados pelo Racismo nas sociabilidade das comunidades pretas, para o fortalecimento da saúde (biopsicosocial e espiritual). É imperativo investir em pesquisas afrocentradas no campo da subjetividade e das identidades humanas, porque a subjetividade, a psique, as identidades, impactam àquilo que conhecemos por Corporeidade, que, no limite, medeia a nossa relação com o mundo e conosco mesmo, em relação intrapsíquica (pensamentos guardados na mente). Afinal de contas, o nosso corpo é a nossa mente, e a nossa mente é o nosso corpo. Assim começo o debate, e não abro mão deste ponto de vista em detrimento de um entendimento cartesiano que dicotomiza corpo e mente.

Estudar a psique, compreendendo e ajustando-a a uma centralidade africana, na forma de um etos africano e afrodiaspórico, que localiza o Égo da pessoa preta e auxilia a mediar as tensões entre o id e o superego, tendo como orientação teleológica a experiência africana no mundo, no continente e nas diásporas, pode significar abrir um campo de possibilidades para a síntese de espaços terapêuticos edificantes de agência africana. Isso é fundamental, por exemplo, para fortalecermos nas pessoas o senso de pertencimento familiar, pertencimento a comunidade, e até, pertencimento a história do seu povo, dos seus antepassados. A partir do corpo que produz movimento, e, por isso mesmo, produz sentidos, produz pensamentos, uma pessoa ou um grupo consegue se reinterpretar, entendendo que é continuidade, e que a sua corporeidade é, ela própria, a continuidade dos seus antepassados, portanto é história viva. Assim, abre-se precedentes importantes para um fortalecimento da autoestima, da autoimagem pessoal e coletiva, pois a máxima “eu sou a continuidade dos meus pais, dos meus avós, eu sou a continuidade dos meus antepassados, do meu povo” torna-se imperativa no processo de síntese das estruturas internas que traduzem o aparelho psíquico, e das estruturas cognitivas, afetivas e emocionais. Daí, a força ancestral, infinita, ‘religare’ Corpo Físico ao Corpo Transcedental, que trancende ao entendimento do tempo linear e trabalha, na lógica Sankofa, com as estruturas sociocognitivas e mentais afrocentradas.

Amizades, relações que fortalecem a humanidade e o pensamento genuíno, que possibilitam com que estejamos em nossos corpos, sentindo e expressando nossos sentimentos de forma honesta. Daí, as corporeidades se fazem fora da lógica que aprisiona ou represa a verdade, a sua verdade, em detrimento da vaidade.

Mas investir em pesquisas, projetos, e ações afrocentradas neste viés, é super difícil. Ainda hoje, insistimos em reproduzir modelos de militância e luta social e política que não representam as nossas experiências sociohistóricas e etnicoraciais. Insistimos em aceitar e incorporar — tornar nossa corporeidade — comportamentos e pensamentos que assumem alguns ambientes como representativos de toda a experiência da vida. Assim, um pesquisador doutor tenta explicar toda e qualquer fenômeno ou experiência a partir das suas teorias, ou das teorias que sustentam suas teses. Assim, ativistas analisam qualquer questão sempre a partir dos prismas ideológicos referentes às suas ordenações partidárias ou orientações políticas e ideológicas. Nestes espaços de trânsito, quer sejam universidades, movimentos sociais, partidos políticos, centros culturais, onde existe esta preocupação com o que é legítimo, e de sempre construir um discurso legítimo, dadas as tensões de disputas por autoridade e poder, as pessoas perdem o foco do que é verdade em detrimento do que é vaidade. Verdade e Vaidade se confundem nestas cearas de disputas por legitimidade e autoridade. Com isso, criam-se muitas teorias e conceitos que trazem à mesa problemas que, para mim, não são problemas de vida, são problemas construídos por certos grupos de pessoas, buscando legitimidade e autoridade, “intelectuais ou militantes estereotipados”, por motivações questionáveis, sendo que fora destas bolhas de sociabilidades estes problemas inexistem, ou não representam o pensamento das pessoas pelos quais o próprio discurso é dirigido.

Em família, a construção das identidades das crianças a partir das experiências com seus pais, com histórias que resgatam valores, símbolos, heróis, histórias, mitos, regiões, africanas e afrodiaspóricos.

Existe alguma dificuldade no investimento em questões profundas, em questões que, de fato, atinjam a nossa história familiar, ou comunitária, e que irão nos impactar emocionalmente. Temos dificuldade de assumir responsabilidades, por exemplo, pela vida de outros irmãos e irmãs. E, na mesma toada, temos dificuldade de apoiar um irmãos ou irmã que se lance a responsabilidade de estar na linha de frente de um movimento realmente transformador da realidade social e individual, por exemplo. Faz se necessário criar ambientes terapêuticos, ambientes que gerem um fluxo de energia positivo entre as pessoas envolvidas, ambientes que desconstruam a lógica que sempre nos formou e informou. Mas como?? Impossível??

As universidades são espaços transitórios na grande maioria das vezes, mas o que acontece com muitas pessoas, dada a lógica da apropriação privada do conhecimento, é supervalorizar este contexto assumindo-o como representante de toda a sua experiência humana. De forma que tudo o observa, tenta-se explicar pelo viés das teorias acadêmicas, através de critérios analíticos e judicativos valorizados pela comunidade acadêmica.

Para isso é preciso “voltarmos aos nossos corpos”, é preciso começar a nos sentir, deixando de lado os sentimentos alienígenas provocados pelas sugestões da cultura de massa, da colonialidade, da apropriação privada do conhecimento. A nossa corporeidade precisa ser entendida considerando as suas possibilidades alquimistas de mudanças construturais do pensamento. O corpo é mente e espírito e, portanto, através dele é possível provocarmo-nos mudanças da psique, do Égo, e, por conseguinte, das relações com o mundo, entre nós, conosco próprios, por meio dos sentidos do corpo no contexto da continuidade dos nossos antepassados, continuidade que se dá por meio dos gestos e sentidos do corpo que se move, e que, a partir do movimento, cria reflexões e pensamentos que dialogam consigo mesmo e com o mundo circunscrito, criando sentidos e memórias que incorporam a si próprios, aos nossos corpos, aos nossos gestos e movimentos, em um verdadeiro ciclo de retroalimentação. O corpo que faz uma comida em um encontro de amigos no domingo é também um sentido e um pensamento; o corpo que joga um basquetebol com os amigos na quadra do bairro é também um sentido e um pensamento; o corpo que ginga na roda de capoeira é um sentido e um pensamento; o corpo que trabalha é um sentido e um pensamento; o corpo que apresenta um seminário na sala de aula é um sentido e um pensamento; que abraça e que ama, que chora e ri, são também sentidos e pensamentos; que contempla a si mesmo e se reconhece no espelho, são pensamentos e sentidos incorporados e retro-alimentados.

Movimentar, gestuar, é pensar e incorporar!

Um corpo que produz gestos e movimentos que refletem uma localidade afrocentrada porque tem consciência de que seus antepassados vivem nele, justamente através dos seus gestos e movimentos, e que ao reconhecer seus antepassados em si mesmo, acaba por honrar sua história e ser, ele mesmo, agente da sua própria narrativa.