No interior do monstro

Zé Henrique Teles
Sep 5, 2018 · 5 min read

No conto “O Crocodilo” de Dostoiévski, um empreendedor alemão leva um crocodilo gigante para exibição em uma galeria de lojas, em São Petersburgo. Dentro da galeria, o empreendedor ocupa uma das lojas e cobra ingresso aos passantes que queiram ver de perto o grande animal. Um dia, Ivan — “cavalheiro de certa idade e aparência respeitável” — passeando pela galeria é engolido pelo crocodilo. Sua esposa Ielena, a princípio se desespera, mas ao deixar de receber o ordenado do marido, diz querer o divórcio. O alemão se nega a abrir o crocodilo para tirar Ivan, pois perderia sua fonte de renda, a não ser que lhe dessem 50 mil rublos, uma casa, uma loja e a patente de coronel.

Dostoievski foi adepto da Eslavofilia — crítica à aculturação europeia pelo povo Russo em detrimento da cultura eslava — e isso se torna evidente em “O crocodilo”. Oportunamente, na edição brasileira da editora 34, o conto que dá título ao livro divide espaço com o ensaio “Notas de inverno sobre impressões de verão”, uma sátira à cultura burguesa da Europa e de sua assimilação pela aristocracia Russa.

“Em geral O burguês não é nada estúpido, mas tem como que uma inteligência curtinha, como que fragmentada. Possui uma reserva desmesurada de conceitos prontos, qual lenha para o inverno, e pretende seriamente viver com eles até mil anos.” (p. 143)

A cultura burguesa engole o povo, que passa a viver no interior do monstro, muitas vezes sem querer ver a luz do lado de fora. “Eu te disse! (…) ele está perfeitamente certo, pois entende o valor do monstro que exibe. O princípio econômico em primeiro lugar!” — diz Ivan, dentro da barriga do crocodilo.

fonte

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As galerias de lojas existem ainda hoje em São Petersburgo, com fachadas e cúpulas de vidro originais mantidas — inspiradas na arquitetura da Belle Époque francesa.

Surgidas no início do século XIX em Paris, essas passagens exibiam mercadorias variadas em suas vitrines. Bolsas, sapatos, joias, casacos de pele… se tornavam objeto de culto dos que olhavam do lado de cá do vidro. Na metade do século XIX foi inaugurada a primeira loja de departamento moderna do mundo, o Bon Marché. Uma mudança nos padrões de processos produtivos — com consequente aumento da produtividade — demandava um novo padrão de consumo. Por isso, novas necessidades foram criadas e a mercadoria passou a ser exibida de forma provocativa.

Na América do Norte, algum tempo mais tarde, no século XX, a jornada dos trabalhadores da Ford foi reduzida de 12 para 8 horas diárias para que os funcionários tivessem mais tempo livre para consumir. Daí em diante, lazer e consumo se tornaram indissociáveis.

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Na biblioteca:

A criança segurando alguns pequenos livros ilustrados pergunta ao pai: “Onde a gente paga?” O pai responde: “Não, filho. Aqui é uma biblioteca pública. A gente pega o livro, leva para casa, lê e depois devolve. Sem pagar nada por isso.”

A vida sem troca de mercadorias tem se tornado cada vez mais algo pertencente ao passado.

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Feitiço — fétiche — facticius: criado por humanos; artificial; falso. O feitiço da mercadoria é a reificação das relações humanas: a relação entre coisas oculta a relação entre homens. A etiqueta traz apenas um número decimal referente ao preço (valor de troca) que nada informa quanto às condições de trabalho daquele trabalhador chinês, ao assédio sexual sofrido pela estagiária, ao assédio moral recorrente no escritório de vendas, à quantidade de mercúrio inalada pela funcionária grávida, à fração ínfima repassada ao imigrante boliviano que costura mais de 12 horas por dia, à situação degradada da criança congolesa costurando bolas para uma grande multinacional, ao sofrimento psíquico de quem vende a única mercadoria que possui sem sair da miséria.

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02 de setembro de 2018

Vejo a notícia do incêndio no Museu Nacional localizado no Rio de Janeiro. Nunca o visitei e nem o visitarei. As chamas destruíram os 20 milhões de itens ali expostos, incluindo o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado na América e o fóssil do Santanaraptor Placidus, dinossauro encontrado no Ceará. Naquele prédio foi assinada a declaração de independência do Brasil em 1822. Fotos tiradas algumas semanas antes do incêndio mostram a estrutura do prédio bastante comprometida, devido à falta de manutenção ocasionada pelo corte de verbas que vem ocorrendo há anos. Museus são caros e dificilmente geram riqueza a conglomerados de empresas multinacionais. Acontece que os itens ali expostos tinham um valor tão alto que o equivalente universal não dava conta de medir. Historiadores, biólogos, demais cientistas e qualquer pessoa que se interesse pela preservação da nossa memória estão de luto hoje.

Sinto um profundo desânimo; parece que meus valores não têm lugar nos dias de hoje. Estamos construindo uma sociedade onde o conhecimento que não é transformado em mercadoria deve ser reduzido a cinzas.

Naquela noite não consegui dormir.

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Escreveu Karl Marx no volume I d’O Capital, de 1867:

Coisas que em si mesmas não são mercadorias, como a consciência, a honra etc. podem ser compradas de seus possuidores com dinheiro e, mediante seu preço, assumir a forma-mercadoria, de modo que uma coisa pode formalmente ter um preço mesmo sem ter valor.

Diz o Diabo, no conto “A Igreja do Diabo” publicado em 1884 por Machado de Assis, que provavelmente nunca leu Marx:

A venalidade, (…) era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?

Nelson Rodrigues: “Dinheiro compra tudo. Até o amor verdadeiro”.

Exceto Luzia. Exceto o Santanaraptor Placidus.

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(…) não conseguia encontrá-la. Queria me perder entre as pessoas para, quem sabe, aplacar essa minha dor. Estar em lugares cheios para preencher esse vazio. Me parece que a solidão nasceu junto com a cidade. Me lembro da frase de Pascal que diz que a infelicidade do homem se dá pela incapacidade de ficar sozinho, ou algo do tipo. Já me provei incapaz, não consigo aguentar o silêncio. Quantos rostos, uma multitude de olhares, mas eu queria encontrar apenas um. Me misturo ao monstro, sem rosto, sem coração. Atravesso galerias e passagens, mas o que eu quero dinheiro não pode comprar.

“Já não quero viajar e viajar/essa noite quero que durma comigo” — toca a canção nos falantes.

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Uma breve descrição da Terra, posterior à sua destruição, contida n’O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams:

Este planeta tem — ou melhor, tinha — o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.

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