A previsão do tempo aponta que amanhã será o último dia cinza

Há mais certezas na previsão do tempo do que no noticiário político.

Do frio não reclamo, até gosto. O cinza me deixa zonzo, rabugento, melancólico. Sempre foi assim. Talvez por eu ser daltônico e as cores já terem menos contrastes no meu mundo, que é o único mundo que eu conheço. Em semanas assim tudo fica indistinguível, o céu envolve a terra num abraço cinza.

Ontem, de pijama às 4 da tarde, trombei com este poema da Adélia Prado. Não sei se ela é daltônica como eu, mas é provável que também se embaralhe com essa escuridão. E ela também devia ouvir do pai que de chuva não se reclama, que é dela que brota a vida.

Quarta-feira deve voltar a luz.

Photo by Kym on Unsplash

Morte morreu (Adélia Prado)

Quando o ano acinzenta-se em agosto
e chove sobre árvores
que mesmo antes das chuvas já reverdeceram,
da mesma estação levantam-se
nossos queridos
e os passarinhos que ainda vão nascer.
“Ó morte, onde está tua vitória?”
Eh tempo bom, diz meu pai.
A mãe acalma-se,
tomam-se as providências sensatas.
Todos pra janela, espiar as goteiras:
“Chuva choveu, goteira pingou
Pergunta o papudo se o papo molhou”.
Pergunta a menina se a vida acabou.

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