"Há que apenas saber errar bem o seu idioma"

O verso acima saiu do meu poema predileto do Manoel de Barros, "O professor de agramática". Manoel nos conta a história do Padre Ezequiel, seu preceptor (real ou não, pouco importa). O Padre ensina uma lição preciosa ao menino preocupado com seus erros gramaticais e seu estilo torto: "Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas". Quem já foi meu aluno provavelmente já me viu recitando esse poema. Ele é a mais bela lição de pedagogia que eu conheço.

Passagens, Biblioteca Virgílio Barco, Bogotá.

É um grande presente etimológico (e epistemológico!) que o verbo errar tenha dois significados principais em português. O primeiro, evidente: o sentido de cometer um erro; o outro, de caminhar por aí sem direção, sem planejamento prévio. Errar bem o idioma, descolonizar a escrita e lançar um olhar curioso sobre temas que me interessam; caminhar por eles com abertura para o novo. Errar, aliás, é um verbo indispensável, principalmente num tempo de certezas que segregam e de pós-verdades — se o que domina é a pós-verdade ou o dogmatismo dos princípios, evidentemente já não há mais possibilidade de erro. E nem de surpresa.

Vou tratar aqui principalmente de cidades e ideias sobre o mundo presente e sobre as representações dele, e daí o título. Vejam, que recorte preciso do tema! Mas esse jamais foi meu forte.

Pra cá virão textos inacabados, rascunhos de ideias, versões provisórias de ensaios e às vezes de poemas e contos curtos, quando eles emergirem. A ideia é que, mais pra frente, este blog gere trabalhos coletivos de outras naturezas. Veremos. Espero que os escritos aqui também afetem aos poucos meus escritos mais acadêmicos, na medida do possível. Certamente continuarão transbordando na sala de aula.

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