“fire in the dark” by Anthony Cantin on Unsplash

Quantas vezes morremos?

Letricidade
Sep 3, 2018 · 2 min read

Um gato todos nós sabemos, mas gatos e seres humanos não hão de lidar com a morte da mesma forma, já que lidam de jeito tão diferente com a vida. Não que eu entenda bulhufas sobre a vida e menos ainda sei sobre a morte, mas as senhoras e os senhores hão de concordar que, se quisermos alguma pista sobre o morrer, não devemos buscá-la no único material que temos, a vida?

Mas deixemos os gatos de lado por um instante. Algum pensador uma vez disse que são três as mortes entre seres da nossa espécie: o momento em pára nosso coração; os poucos instantes durante nossos enterros ou cremações, e a ocasião em que a última pessoa viva pronuncia nosso nome. Hipótese simpática, se é que a morte pode despertar qualquer simpatia. Mas, senhoras e senhores, me pego pensando se, depois do silêncio eterno das bocas dos vivos, não vivemos nós nos traços que deixamos na forma de papeis, nos arranhões que nossas unhas imprimem no barro, nos cortes que deixamos nos tecidos, nas nossas letras, nas nossas roupas, ferramentas e balangandãs? Ou nos relatos de companheiros de espécie sobre como vivemos, sejam esses companheiros nossos observadores ou atentos ouvintes dos relatos dos vivos que nos encontraram enquanto habitávamos a Terra?

Se me permitem adicionar essa hipótese à teoria de que partimos, então seria corolário descrever uma quarta morte: o instante em que se dá o apagamento da matéria moldada, o esfumaçamento dos nossos traços materiais.

(Concedam-me fazer uma digressão: temo que uma hiena ou um abutre desses que rondam nossos palácios já tenha lançado hipótese parecida em latim, algo a ver com verbas ou coisa assim, mas posso estar apenas juntando tragédias de tipos muito diversos).

Mas voltando à quarta morte, lhes pergunto: estando confirmada tal ideia, não é por bem concluirmos que o fogo é seu principal algoz? Aquele mesmo fogo que matou Joana, que caiu sobre Pamplona, que devastou Chicago, que leva agora o museu ? Imaginem quantos não morrem então quando um museu, um arquivo, uma biblioteca se desfaz em chamas.

Pois então não é verdade que um incêndio em um museu, mesmo este vazio de gente viva, leva milhares de pessoas à sua última morte?

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