Esperanças Perdidas

Acordou 5 minutos antes do relógio tocar, sentindo esperança, um sentimento que há muito tempo não entrava naquela casa. Um bom dia com um beijo, café da manhã. A recomendação a diarista que deixasse as panelas limpas e em fácil acesso, pois a noite seria um grande evento, aquele vazio permanente parecia distante.

A hora e meia de trânsito até o trabalho não parecia tão pesada, tudo o que ia na mente era a noite. Os colegas pareciam mais leves também e se pegou até rindo com eles.

Uma hora da tarde e a fome não veio, o trabalho estava mais prazeroso do que o self service. Num raro gesto de gentileza, os colegas trouxeram um lanche e acertaram em cheio, coxinha, não uma coxinha comum, mas aquela coxa creme que transbordava já na primeira mordida.

Mais uma hora e meia de volta a casa, outro beijo, sorriso, esperança, coisas que há muito não habitavam aquele lar, a hora foi chegando, a televisão ligada e o político odiado solta suas primeiras palavras. Um no interruptor de luz, as panelas a postos na sacada e durante 10 minutos as colheres de pau acertavam nervosamente a panela, enquanto as luzes piscavam. Gritos ensandecidos de FORA, LADRÃO, uma hora faltou o ar, durante 5 minutos eles tinham a mente somente nisso.

O pronunciamento acabou, as luzes das varandas se apagaram de novo e o vazio foi voltando, um seriado no netflix, o sono.

E o relógio tocou de novo e percebeu que tudo estava lá do mesmo jeito, o trânsito, a competitividade desleal no trabalho. Aquele dia começou sem um beijo, de novo.