Onde você se vê em cinco anos?

Dia 1 — ou O dia mais (im)produtivo da história

Você vai fazer aquela entrevista de emprego, o emprego que aparentemente é o dos seus sonhos. A entrevista corre bem e de repente vem a temerosa pergunta: “Onde você se vê em cinco anos?”, mas os profissionais de RH se aprimoraram bastante e conseguiram criar variações mais sutis: “Qual é o topo pra você?”, ou até a versão mais fantasiada: “Qual o seu trabalho dos sonhos?”. (Como se fosse ser criado essa posição na empresa, pra que vire o emprego dos sonhos).

Você sai da entrevista, alguns dias depois recebe uma proposta (ou não) e finalmente é contratado. Os primeiros dias são fantásticos, o ambiente é maravilhoso, a empresa afinal está preocupada com seu bem-estar, ou é o que você pensa. Eu imagino que o resto dos seus dias naquele lugar são definidos pelos primeiros momentos. E podem ser excelentes ou um fracasso.

O que muita gente não percebe é que o contrato de experiência, serve para os dois lados, alguns meses pra você decidir se a empresa é um bom lugar para estar e para a empresa decidir se você é um bom funcionário. Você também deve levar esse tempo de experiência a sério, não fique em um relacionamento ruim com o seu trabalho, só vai te desgastar a longo prazo.

Mas aí você se acomoda, a vida é assim mesmo e tudo o mais. Você admite o seu status de recurso humano. Recurso. E cai na ilusão que o RH da empresa vai te ajudar, verdade seja dita, no máximo ele só vai te prejudicar, porque o mercado está cheio de outros milhares de recursos que queriam estar no seu lugar, numa empresa grande, todos os recursos são substituíveis. Assim como o departamento de TI troca as máquinas, o departamento de RH troca os recursos.

A única escolha remanescente é a mais extrema possível, no fim, você ganha, a empresa, fica na mesma, afinal de contas outro recurso entrou no seu lugar, pronto pra ser trocado no mínimo sinal de falha possível. E os tais cinco anos se dissolvem em uma fantasia de uma sala que nunca existiu.

“Mentir pra si mesmo é como martelar o espírito com pregos enferrujados.”