Macbeth, de Justin Kurzel: A quintessência do mal em sua radicalidade

Meu pensamento, cujo assassinato inda é fantástico, tal modo abala a minha própria condição de homem, que a razão sufoca em fantasia, e nada existe, exceto o inexistente” (Macbeth)

Desde que me entendo por gente, sinto-me atraído pelas contradições da alma humana. Sempre achei fascinante como, numa mesma espécie, sentimentos tão sublimes (como, por exemplo, o amor e a solidariedade) convivem com a sordidez de emoções mesquinhas como a ganância, a ânsia pelo poder e o instinto de destruição. É neste condomínio de vetores de forças iguais mas de sentidos opostos que repousa a essência do que é ser humano, plena em suas contradições, vicissitudes, forças e fraquezas.

Ao final do ensino médio e ao longo de toda a minha graduação em Psicologia, devorei livros de autores dos mais diversos campos de conhecimento na ânsia de compreender o porquê de tal paradoxo. Da filosofia, vieram autores como Schopenhauer e Camus, que me ajudaram a entender que a vida definitivamente não tem o menor sentido. A despeito do peso que tal afirmação possa ter na vida de uma pessoa, o meu niilismo radical e a desconfiança profunda que nutro quanto ao gênero humano repousa na constatação de que, neste, o que há de sublime torna-se sequestrado pelo mesquinho jogo dos interesses individuais e dos apetites que posteriormente irão destroçar famílias, esterilizar amores e apartar amizades de longas datas.

Vinde, espíritos das ideias mortais; tirai-me o sexo: inundai-me, dos pés até a coroa, de vil crueldade. Dai-me o sangue grosso que impede e corta o acesso ao remorso; não me visitem culpas naturais para abalar meu sórdido propósito, ou me fazer pensar nas consequências (Lady Macbeth).

Do campo das ciências e saberes “psi”, o embate entre a natureza e a cultura (ambos, diga-se de passagem, frutos da engenhosidade humana forjada no ferro frio da aridez das circunstâncias ambientais), é retratada de forma magistral nos textos do período final da obra de Freud, também tendo exercido forte impacto em meu entendimento sobre estas questões. Nestes, o ego, como uma precária formação de compromisso constantemente reconfigurada, entre as pulsões do id e a voracidade moral do superego dá o tom da tragédia existencial humana. Isso é recorrentemente discutido em textos como A Pulsão e Suas Vicissitudes (1915), O Estranho (1920), Para Além do Princípio do Prazer (1920) e O Mal-Estar na Civilização (1929). Lacan, posteriormente, hiperboliza a tese freudiana da pulsão de morte ao afirmar a radicalidade do mal e da negatividade em nossa subjetividade, fazendo com que o mal e a destrutividade, longe de serem vistos como aberrações ou distorções patológicas e desviantes, são membros fundamentais neste condomínio de pulsões chamado subjetividade.

Sempre busquei, ao longo da minha trajetória intelectual, textos que exemplificassem de forma poética este nosso dilema de cada dia. Sem moralismos, pieguices ou raciocínios pedestres. Foi com base nesse estranhamento radical, nesse incômodo que me consumia (e ainda me consome) que a arte entrou em cena. Para mim, a arte é um remédio que traz um pouco de cor a esta paisagem lunar que é a alma humana…


A

Para esporear meu alvo eu tenho apenas esta alta ambição, cujo salto exagera, e cai longe demais (Macbeth).

A música sempre teve primazia e predileção no desenrolar dos meus apetites estéticos. O gosto pelo cinema veio depois, já nos anos de faculdade, graças à Nouvelle Vague, os filmes de Win Wenders e o cinema americano para além dos blockbusters hollywoodianos. Artes plásticas, então, nem se fale: sou um voraz consumidor de livros sobre pinturas e frequentador de mostras e exposições. Porém, a literatura é um caso sério, muito mais sério.

Explico…

O meu pai era professor de semiologia e semiótica, um ardente apaixonado por filologia e pela literatura portuguesa. Das prateleiras da biblioteca de papai vieram as obras de Shakespeare, foi de lá que ensejei os primeiros passos nesses jardins tormentosos e tempestuosos. Afirmo com propriedade de quem leu boa parte de suas peças, de que sua leitura é obrigatória para qualquer ser humano como eu, acossado pelo desconforto com relação ao gênero humano, pela desconfiança perante supostos atos de grandeza moral. Tenho um sério problema com pessoas moralistas. Acho-as perigosas, pois levam-se demais a sério, advogando uma superioridade de caráter diante das outras. Para um escafandrista das contradições humanas, o bardo inglês é um mestre ao apontar que a ruína e o fracasso são nossas íntimas. Em suma, somos nós as personagens principais dos nossos piores pesadelos…

Não tenho a menor pretensão de discutir os diversos significados da obra shakespeareana, seu contexto histórico de criação, sua relação (tempestuosa) com dramaturgos ingleses que eram seus contemporâneos, etc. Não me sinto competente, nem o meu sádico superego permitiria tal ousadia. Porém, o meu Shakespeare, ou melhor a minha visão sobre a sua obra, é aquele que discute a violência das paixões humanas, sejam estas movidas pela presença de um amor sublime porém impossível (Romeu e Julieta), ou pelo onírico que nos leva a locais inóspitos (A Tempestade), ou pelos sentimentos vis e abjetos que habitam a alma humana, tais como a inveja e o ciúme (Otelo), a ganância pelo poder (Hamlet, Rei Lear, Ricardo III) ou, simplesmente, a violência em sua mais pura radicalidade (Titus Andronicus).

Certa vez em uma entrevista, o escritor pernambucano Ariano Suassuna (um dos gênios da nossa literatura), ao ser perguntado o que faz uma produção artística ser considerada uma obra-prima, afirmou que é mister ser esta dotada de um caráter universal. Dito de outra maneira, independentemente do seu contexto histórico na qual foi escrita, o cenário de sua trama, bem como as características peculiares de suas personagens, a trama deve ser de tal monta que a narrativa deve traduzir uma experiência comum a todos nós que seja reconhecível e inteligível. Mozart, Beetovem, Picasso, Michelangelo e Camões são alguns desses indivíduos míticos que atingiram esse status.


Honra, respeito, amor, muitos amigos, não posso ter, mas sim, em seu lugar, pragas contidas, honras só de boca, dadas sem coração, por covardia (Macbeth).

Shakespeare é outros desses universais, um colosso literário. Sua obra permite inúmeras interpretações, e cada um tem as suas listas de predileções. Confesso que o meu Shakespeare é o das personagens encarnam o mal em sua radicalidade. Sempre fui obcecado pela ideia do mal, a despeito da notória aversão que tal tema provoca em todos nós. Nenhum sentimento é tão abjeto, e ao mesmo tampo tão comum e corriqueiro, quanto a violência e a destrutividade. A humanidade transpira o mal em seus poros, por intermédio dos seus diletos emissários: a cobiça, a inveja, a luxúria, a ganância e o tropismo pelo poder. Por isso que é o meu Shakespeare é o de emblemáticas peças como Ricardo III, Titus Andronicus, Rei Lear, Hamlet, A Tempestade (essa é um caso a parte, que um dia explicarei em outro post) e, também… Macbeth!

Assisti hoje à tarde mais uma transposição para o cinema de Macbeth, desta vez dirigida pelo cineasta australiano Justin Kurzel. De cara, o diretor teve de se deparar com a difícil tarefa de realizar uma película à altura das realizadas por seus antecessores. Retratar na tela grande a saga dessa verdadeira “máquina de matar” que é Macbeth (nas palavras do crítico norte-americano Harold Bloom, uma das maiores autoridades da obra shakespeariana), anteriormente encenadas por luminares como Orson Welles, Akira Kurosawa e Roman Polanski é, convenhamos, uma tarefa no mínimo assustadora, quando não ingrata ou hercúlea. Entretanto, devo dizer, o cineasta saiu-se dessa com louvor; ou melhor, merecendo efusivos aplausos de pé…

Por quê?

Pelo simples motivo de que Kurzel mostra um Macbeth como a quintessência do mal. Humano, sem ser estereotipado; torturado, tirânico, terrível. Bem entendido, a violência dos seus atos não vem apenas do sangue jorrado dos corpos nas batalhas, no cortante aço das espadas, mas também da gravidade da interpretação dos seus atores. Michael Fassbender está simplesmente magistral na interpretação do protagonista da trama, outorgando-lhe um caráter instável, tormentoso e insano, proveniente da sua desubjetivação dado os seus cruéis e pérfidos atos assim cometidos. A injúria, a desonra e a imoralidade perpassam continuamente a película, como uma adaga transpassando os obstáculos até atingir o auge da perfídia. A atriz francesa Marion Cotillard, como Lady Macbeth, também está primorosa: tanto na cobiça e na ganância pelo poder que os levam a sua ascensão, e depois a sua subsequente derrocada pelo amargor da constatação do mal em sua mais pura forma: a da violência desmedida, a da imoralidade sem limites, a da busca pelo poder pelo simples prazer de tê-lo e exercê-lo. Ambos, marido e mulher, são subtraídos de suas respectivas subjetividades pela luxúria do poder, levando-os a conspirar e cometer atos até então impensáveis.


Outras qualidades do Macbeth de Kurzeil: ele é soturno, lúgubre, denso, pesado. A tonalidade vermelho sangue explode na tela, entremeada pela neve e o cinza gélido e estéril que torna a paisagem das highlands escocesas tão bela quanto desoladora. O onírico está presente, seja nas brumas que envolvem os combatentes no campo de batalha, quanto nas três bruxas que vaticinam o futuro trágico de Macbeth e daqueles que o cercam. Neste ponto, a película guarda incríveis semelhanças com outra fantástica película, Valhalla Rising (2009, um filme deveras estranho mas que eu adoro!). Aliás, em ambos os filmes, atrevo-me a dizer, as pausas são tão importantes quanto o texto falado.

Muitos podem dizer que o cineasta suprimiu cenas importantes da obra shakespeareana para dar ritmo e dinamismo ao filme; ou então que esta mais nova encenação do usurpador escocês está ao gosto de plateias acostumadas à sordidez e a imoralidade de tramas de seriados de TV recentes como Game of Thrones. Para mim, isto não tem a menor importância. Afinal, qualquer olhar é sempre pessoal, enviesado e interessado. Porém, não se deve esquecer que estamos diante de uma obra de Shakespeare, uma de suas mais difíceis. Se Macbeth não é considerada uma de suas maiores tragédias, ela é essencial. Caso o seu conhecimento da obra do bardo inglês e superficial, esse filme é uma excelente introdução.

A vida é uma só sombra: um mau ator que grita e se debate pelo palco, depois é esquecido; é uma história que conta o idiota, toda som e fúria, sem querer dizer nada (Macbeth).

Se você é como eu, uma testemunha ocular do poder construtor da destruição, um voyeur da miséria da alma humana, um crente da radicalidade do mal que habita o nosso âmago, um aficionado pelo caos radical que engendra a ordem, e que posteriormente a subverte, trata-se de um filme essencial. Você deve assisti-lo.

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