Hoje eu resolvi escrever, pois talvez seja a única coisa que reste. A falta de propósito me fez questionar se eu devo começar a escrever, se eu devo continuar, se eu devo pensar. A sensação de desajuste, de medo, de incompreensão é cada dia maior. De tudo que achava me fazer feliz, o que restou? Amigos? Eis uma piada de mau gosto. Amigos e seus interesses, amigos e seus julgamentos. Não, de nada vale isso tudo. Família talvez? Um grupo de pessoas onde o sangue não representa laço nenhum. Onde tudo que existe é a solidão compartilhada. Restou a senhora e o gato. Talvez as únicas criaturas que importam. E de mim, o que resta? Nada além da fraude, do gosto amargo e da barriga vazia. Contei mais histórias do que qualquer cigano, a pior parte é que acreditei em algumas delas. Fiz da minha vida o que ninguém esperava e, consequentemente, o que ninguém tem interesse. Céus, as vezes penso na metafísica, em como não sei escrever e tão pouco pensar. Agora há pouco fui chamado de doido, acredita? Me conte uma novidade! Vá além do que eu já sei. Julgue, mas seja original. Acredite, você não sabe de mim. Mas quem sou eu pra dizer, tão pouco eu sei. A única vontade é fugir, dormir, esconder e tirar de mim o que dói. O que faz me sentir desajustado. Como a sensação de mãos sujas, mesmo quando cheias de sabão. Tudo é confusão e barulho. Certa vez, li que havia no mundo espaço para quem sofre. O sujeito era sabido, estava cheio de certezas. Que o sofrimento não faz de você um desajustado, mas uma pessoa cinza normal. Como o Estevez, o João, o Beto e o Ahmed. Pobre Ahmed, sua crença não permitia ofender esse mundo. Não permitia blasfemar contra o absurdo e a crueldade, mas que vantagem eu levo nisso? A maioria das pessoas berra e ofende inconformada, ninguém escuta. Talvez o segredo seja a aceitação desse absurdo, talvez não exista lugar para fugir ou se esconder. Gritar, berrar, chorar, calar… O que muda? Eu queria caminhar, mas pra onde?
