De dev team para produtos — o que mudou?

Josenildo Amorim
Apr 4 · 5 min read

Tem exatos 6 meses que eu comecei a trabalhar efetivamente no papel de Product Owner. Exerci o papel de forma experimental em alguns momentos do ano passado, fiz pair, dei muito pitaco nos produtos que trabalhei, mas de fato ser o “dono de um produto” começou tem esse tempo. E eu achava que sabia exatamente o que estava fazendo, mas não foi bem assim.

Meu background são 9 anos trabalhando como Analista de Teste/QA em diversas consultorias. Em determinado ponto da carreira eu me interessei muito pela área de produtos, principalmente quando comecei a trabalhar com agilidade e participei de um time scrum e suas diversas cerimônias. Ter contato com o cliente e poder de fato, tomar decisões que o ajudariam a ter um dia a dia mais fácil e confortável me fizeram decidir pela migração.

Mas então, quais foram os plot twists que eu encontrei quando eu de fato assumi o papel de PO?

Você é, de fato, dono do produto

E isso é por si só uma grande mudança. Você passa a responder por tudo o que acontece relacionado a aquele produto. As pessoas surgem na sua frente fazendo perguntas e é seu papel (dado uma certa curva de aprendizado porque somos humanos ainda) saber responder ou ao menos direcionar para quem saiba. Você deve ser a referência maior sobre aquele produto.

Porém não é apenas ser uma referência em questão de conteúdo, mas ter a accountability. As decisões sobre o produto passam a ser suas. Qual é o melhor caminho a se tomar? Devo seguir com o produto para A ou B? Devo descontinuar? Devo fazer feature A ou B primeiro? Todas essas decisões — salvo top downs — são suas.

Mas não fique sozinho nessa. Como parte de um time, compartilhe as possibilidades, receba insights e ai sim, priorize. Como diz Marty Cagan, se você só usa o time de engenharia para executar tarefas, você só está usando metade do seu valor.

Você precisa ter e acompanhar métricas

Funil, retenção, conversão, métricas de pirata, CFD, burndown, velocity, P&L, TPV, EBITIDA… são familiares pra você?

Pois é, pra mim não eram. Ainda mais que, se tratando de uma empresa do mercado financeiro, o número de siglas e coisas a serem acompanhadas aumenta exponencialmente.

As métricas são sua principal fonte de dados confiáveis para tomar decisões. Quando lidamos com um negócio de milhares de clientes transacionando por mês, fica impossível identificar a voz de cada um de forma individual. Por isso é importante acompanhar os resultados em números dos seus produtos porque eles dizem muito sobre tendências, problemas e oportunidades.

Lançar produtos sem medi-los se torna achismo. Achismos custam caro caso se tornem erros.

Você precisa conversar com pessoas. Toda hora.

Não estranhe em olhar pra sua agenda e ver várias reuniões marcadas. Em um dia você conversa com Marketing, Customer, Risco, Financeiro, o CEO… e por ai vai. Seja para compartilhar resultados, para entender processos, coletar oportunidades, ouvir dores.

Olhando para o produto em uma visão mais holística, você consegue perceber a jornada dele dentro da empresa. Não apenas o usuário final que utiliza o produto na rua (que precisa ser ouvido), mas existem vários processos de apoio e suporte paralelos em áreas que não fazem parte do seu time. É seu trabalho entender esses processos para torna-los mais eficientes, já que isso vai afetar diretamente os resultados do seu produto

E, falando em resultados, é muito importante compartilha-los com essas áreas também para receber insights, descobrir gaps, trabalhar em oportunidades e ver qual processo auxiliar pode afetar para que possamos atingir números ainda melhores.

Por exemplo, eu tenho semanalmente uma reunião com as áreas Customer e Marketing para contarmos resultados do produto. Eu falo dos números que acompanho, eles falam das campanhas que fizeram, de tendências do mercado. Juntos fazemos a informação girar dentro da empresa. É muito proveitoso (e exaustivo, não vou negar).

Você vai deixar alguém insatisfeito

A parte mais complexa do trabalho tem sido priorizar. Porque priorizar significa filtrar as muitas fontes de dados que você tem e escolher o que você vai fazer agora, e o que vai deixar para depois ou até mesmo não vai fazer. E por mais claro que isso seja, talvez aquela determinada tarefa não priorizada seja o que uma pessoa, um cliente, uma área ou até mesmo um grupo de clientes precise daquilo. E isso vai deixar essas pessoas insatisfeitas.

Não é prazeroso dizer não. De verdade. Mas ele é preciso. Com o conhecimento do produto, dos números, do mercado e tendo uma visão holística do processo, o PO melhor que ninguém deve saber medir o esforço x valor. O valor tem a ver com time to market, relevância para os clientes, urgência do problema. Esforço tem a ver com capacidade do time, velocidade, eficiência, curva de aprendizado. Com base nisso, ele deve tomar a decisão melhor para o produto.

Mas, mesmo que não seja fácil, não tenha medo de tomar decisões impopulares se elas forem o melhor para o seu produto. Estude os números, converse com o time e os stakeholders, mas lembre-se que você é o accountability por aquele produto, então se caso algo dê errado, isso vai recair sobre você somente. Sem pressão.

Você precisa aprender a lidar com notícias privilegiadas

Como PO, é natural que por ter a responsabilidade sob um determinado produto que você tenha acesso a informações antes de parte da empresa e, geralmente, do seu time. E isso não é fácil. As vezes é um pouco solitário até.

É preciso encontrar uma balança entre a transparência e o oversharing. Meça o impacto da noticia. Ela vai afetar a performance do seu produto? Mas se afetar, isso vai ser bom para a integração do time? Como ficam as pessoas se elas não souberem disso? Como ficam os resultados?

No nosso dia a dia temos que ter bastante empatia, mas com uma pitada de pragmatismo para lidar com situações como essa.

Trabalhar com produto é um trabalho enorme que não deve ser subestimado. E confesso que como dev team não via o valor em alguns momentos de todo o esforço que minhas POs estavam tendo ali para que a tarefa chegasse até a mim. E acredito que agora no papel de PO eu também consiga entender dores do time e empatizar com eles. Como time precisamos estar juntos nos apoiando até porque o sucesso de um depende do outro.

Por mais que pareçam pontos difíceis de se lidar, eu acredito que o fato de estar trabalhando em algo que realmente facilita o dia a dia das pessoas ou, dependendo do produto, de fato muda toda uma comunidade e/ou um mindset… é muito gratificante.

Josenildo Amorim

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PO @ Wirecard, LGBT, INFJ and other acronyms. Speaker wannabe. Sometimes i have something to write about.