A doença da noite
Acordo antes do sol nascer. Os braços tensos. As minhas mãos se crispam do nada. Uma força maior do que eu vem de dentro e se concentra num soco. No ar. O vazio. São espasmos, ondas. Fico minutos assim, ofegante de raiva sufocada. Já quebrei um dedo desse jeito, mas não consigo. É mais forte. Quando o sol nasce, às vezes passa. Às vezes não. Mesmo assim, chamam de doença da noite.
Muito tempo atrás, havia remédio. Era uma pílula que se tomava à noite, e não se sentia a doença. Não se sentia nada. Perdíamos a pressa, a tristeza, o apetite. Trazia efeitos colaterais terríveis. Mas diziam que ainda era melhor do que a doença da noite. Às vezes, eu até me esquecia de quem era, e conseguia ter uma vida normal. Você dormia, e não sonhava. Quando acordava, sentia como se estivesse no sonho.
Sem o remédio, só me resta tomar um café bem forte, para que a falta de sono não faça efeito. Levanto e vou correr na orla da praia. Em dias de muita disposição, vou até o morro do castelo, a ladeira de cem metros aonde vão os turistas ver nossa cidade do alto, como se nela houvesse alguma coisa a ser vista. Hoje não quero ir, estou cansado, mas vou mesmo assim. Dizem que o cansaço extremo pode ser um remédio para a doença da noite, mas para mim nunca funcionou.
Depois da corrida, tomo um banho e vou ao trabalho. O mesmo de cinco, dez anos atrás, já não me lembro quando, já não me lembro onde. A prefeitura. Tenho uma vaga ideia do que seja. Um prédio no centro da cidade, ao pé do morro do castelo. Dois, três governos atrás, eu tinha uma função, não me lembro mais qual. Fui afastado, mas não podiam me tirar de lá. Política, o de sempre. Não mais voltei, nunca mais trabalhei um dia sequer. Apenas chegar e sair, na hora certa.
Hoje, o dia será difícil. A tal doença, que dizem ser da noite, às vezes ataca de dia. Vem em raios, como se de repente eu me lembrasse alguma coisa do passado. Malas de dinheiro que circulavam pelos corredores. Dedos em riste, ameaças. Gritos, xingamentos. Quando percebo, estou com os punhos cerrados. De volta à consciência por um segundo, tento não bater na mesa. Contraio o braço, num espasmo. Como se um raio me atravessasse. Imagens que não sei de onde vê. Do passado, de outra vida. Ordens que vêm contraditórias, aos berros. O cano da arma apontado para minha cabeça. Sorrisos cínicos. Olho em volta, vejo meu corpo contorcido, os braços em posição de quem vai atacar, os dedos quase rasgando a carne da própria mão. Com vergonha de mim mesmo, tento me esconder, disfarçar a doença da noite.
Dizem que um dia será melhor. Que o erro do passado será desfeito. Com sorte, se eu fizer um bom trabalho aqui, poderei ter de novo o que me roubaram. Todo começo de ano, dizem a mesma coisa. Todo final de ano, aparece um contratempo. Não consigo acreditar enquanto esse dia não estiver marcado no calendário. Não posso mais nem olhar para o calendário. A doença da noite, agora, pode vir a qualquer hora. Assim, de repente, na forma de um revólver. Minha voz que diz sim querendo o não, num suspiro covarde. O cano em minha direção, o dedo no gatilho. Alguém me pergunta se me sinto bem. Abro os olhos, vejo que estou na prefeitura. Encurvado sobre a mesa, o coração a mil, sem respirar direito. Agradeço a preocupação, vou tomar água. Olho pela janela o morro do castelo e as ondas do mar. Os turistas que sobem o morro pela encosta mais suave, o castelo pendurado na beira da encosta mais íngreme. Tem dias que eu penso. Apenas um passo, a encosta. A doença da noite teria seu fim. O revólver, por que não atirou de uma vez? Por que aquele silêncio, as eternas promessas? A doença da noite, grudada a mim como piche na areia da praia.
Tomo água, vou embora mais cedo. Tenho permissão. Recomendações médicas, sempre que a doença da noite atacar fora de hora. Às vezes penso em desobedecer. Penso que querem me manter vivo e sempre um pouco doente, nunca muito. Para ir aguentando e definhando aos poucos até acabar. Dizem que na outra cidade, atrás das montanhas, houve um surto geral dessa doença. A epidemia se alastrou de tal forma que, um dia, toda a população saiu de casa com tochas, e atearam fogo à prefeitura, arrancaram as pedras da calçada e quebraram todas as vidraças que não fossem de casas, e depois subiram até o castelo deles, para quebrar de uma vez a porta. Mas a outra cidade, tão longe, depois das montanhas nevadas. Não falavam nem mesmo a nossa língua. Tem dias que a doença fica mais leve. Não vem como um raio, mas como um sopro de vento, imaginação de sonho. Acordo, de repente, como se eu fosse morador lá da outra cidade, e às vezes o delírio é tão perfeito que, mesmo depois de acordar, estou pensando em outra língua, a ponto de esquecer os nomes das coisas.
Caminho de novo pela praia, subo o morro do castelo, até a beira do precipício. Paro por horas. Sem conseguir respirar. Dariam por minha falta? Penso em pular, tento. Mas a doença da noite não me deixa. Estou ali, paralisado. Ouço os gritos, o clique da arma. Acordo. Desço pelo caminho normal. Vou até o fim da cidade e sigo caminhando pela estrada, em direção à serra. Um dia essa doença deixará de me perseguir.
