um brinde à pracinha são salvador
Foi numa noite louca de carnaval que nos apaixonamos à primeira vista. Uma banda improvisada tocava um samba no seu coreto, debaixo do telhadinho enfeitado de trepadeiras. Uma dessas paixões loucas que acontecem nas bebedeiras.
Depois te encontrei outros dias, em dias de feira, ouvindo chorinhos, comprando e vendendo comidas e cachaças. Junto com você, fiquei preocupado com o velho senhor que tocava na banda de chorinho e quase morreu de uma morte imbecil, tropeçando no degrau do coreto, mas feliz como sem amanhã, tocando os acordes do Carinhoso e da Cidade Maravilhosa. Acostumei o ouvido às línguas estrangeiras dos viajantes perdidos e aos gritos das torcidas em dia de jogo. Também me espantei com as sirenes de bombeiros e assisti de perto aos protestos que quiseram botar fogo no circo geral. Vi namoros, desilusões, brigas, forró no meio da semana e até uma marcha pela maconha, envolta em brisa, em frente a um quartel.
É debaixo do coreto, arrumado todos os dias do ano e bagunçado no carnaval, que todos se conhecem. Onde se faz a arte e a provocação. Talvez um corte de cabelo ao ar livre, no meio da praça, como intervenção artística, entre hipsters que tentam aprender a jogar malabares. Ou uma banda de forró na caçamba de um caminhão de mudanças estacionado em frente à praça, tocando zabumba enquanto os fregueses saem do mercadinho em frente com suas compras.
Contigo, aprendi que a solidão não precisa ser silenciosa, pode ser cheia de música, quando se é um forasteiro nesta cidade maluca onde em cinco minutos um desconhecido conta coisas de sua vida como se fosse amigo de infância e em cinco anos um amigo não consegue se sentir próximo o suficiente para convidar a um café. Pode ser o som de um samba no início da noite, cadenciado entre goles de cerveja, pressagiando madrugadas bêbadas em algum bar lotado nas ruazinhas do bairro. Ou o som de um chorinho ao meio-dia, calmo e cuidadoso como goles pequenos de uma caipirinha, no meio dos casais e famílias que compram artesanatos na feirinha.
Você é barulhenta e os vizinhos querem te silenciar. Alguns dizem que é para o descanso, outros que é para calar quem zomba do poder. Porque às vezes exagera e não sabe mais a hora de parar. Ou porque você calhou de ficar muito perto de onde estão os ricos e os poderosos. Aqueles que, crentes no deus do dinheiro, não aceitam quem vê um mundo maior do que as grades de um condomínio. Confio que vai resistir. Porque, afinal, você é boa praça e existe para ser pracinha, um lugar para as pessoas se encontrarem, para fazerem arte no seu coreto, para beber e se esquecer, para o amor o protesto. É aonde venho às vezes para me esquecer da solidão estranha que é ser de fora e morar nesta cidade, que, para quem vem de outro lugar, é como estar numa festa sem ser convidado, onde todos se conhecem, menos a nós. Um brinde à pracinha.
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