A Nova Estética


The New Aesthetic isn’t a chromed android glistening with scifi robot-vision aura. The New Aesthetic is a rather old, and hearteningly traditional, story about a regional, generational cluster of creative people who are perceiving important stuff that other, older, and dumber people don’t get quite yet. It’s a typical avant-garde art movement that has arisen within a modern network society. That’s what is going on. — Bruce Sterling


COMECEMOS PELAS ORIGENS: esta nova estética nasceu das cinzas das utopias cientificas resultantes da euforia tecnológica, por demais evidente nos momentos mais icónicos da exploração espacial. Passados 45 anos da primeira viagem tripulada à Lua, as visões mais ou menos delirantes que acompanharam aquele momento histórico estão agora enterradas no passado, como uma espécie de memória recalcada: a energia limpa e inesgotável, o transporte interplanetário em naves espaciais unipessoais, ou poções da juventude eterna a partir da nanotecnologia, são agora ideias mais próximas do horizonte da ficção científica, do que do imaginário do cidadão comum.

Não dando o assunto por enterrado, James Bridle propõe uma nova abordagem: olhar para a tecnologia ao nosso redor com novos olhos, com uma atitude mais desconfiada. Mais do que isso: Bridle começou a arquivar um conjunto de imagens que na sua visão manifestam de certa forma a emergência de um novo paradigma cultural, cujas características têm sido expressas a partir de um amplo conceito-categoria: a nova estética (the new aesthetic, no original inglês).

No tumblr (where else?) The New Aesthetic, Bridle reúne um conjunto assinalável de exemplos desta nova estética, exemplos bastante diferentes entre si, mas que reunidos parecem apontar para qualquer coisa de novo, ou diferente. Olhando para alguns dos objectos mais emblemáticos, compreende-se o alcance do ponto de vista de Bridle:

Imagens de satélite de padrões agriculturais via guardian
CV Dazzle, um projecto focado nas questões relacionadas com a videovigilância
Kinect fatsuit, experiencias na representação visual feitas a partir do Kinect da Microsoft


Implícito nestas propostas está a demarcação de uma nova tipologia de interacção humana com a tecnologia, com consequências ainda muito nebulosas. Como Bridle afirma, o que importa aqui não será somente pensar no resultado prático ou “final”, mas antes tornar visíveis as estruturas que possibilitam — e em alguns casos encorajam — a emergência de certo tipo de produto (é também disso que se trata), em detrimento de outro. O fundamental na nova estética será a manifestação quotidiana de uma série de sistemas oriundos dessa outra dimensão que é o digital.

Tendo em mente os exemplos citados, observamos que esta nova estética tem tanto que ver com os processos como com as consequências dessa «actividade tecnológica». Aquela imagem obtida através do Kinect é apenas uma das formas que todo um conjunto de sistemas, algoritmos, etc, e é esse um dos aspectos fundamentais da proposta de Bridle:

Every satellite image posted is a meditation on the nature of mapping, that raises issues of perspective and power relationships, the privilege of the overhead view and the monopoly on technological agency which produces it. (…) An Adobe-sponsored “prank” at a bus stop – 12 million views on Youtube – where a live artist inserts passersby into a digital advertisement speaks to our internalisation of surveillance culture and our corresponding expectations of the individualisation of technology, and its framing by corporations – where in the video are the passersby who felt shocked, violated or just plain creeped out by such an intervention?

O carácter interrogativo da nova estética é um dos seus traços fundadores, como ficou de resto bem assente na conferência dedicada ao tema num painel do SXSW, que contou com a participação de nomes como Joanne McNeil, Ben Terret, Aaron Straup Cope ou Russel Davies (links para as respectivas notas de participação). Por ser uma ligação directa a uma das instituições contemporâneas dedicada à arte e tecnologia, Rhizome, valerá a pena apresentar muito sucintamente algumas notas de leitura relativas à comunicação de McNeil.


The Man With a Movie Camera, Dziva Vertov
I am kino-eye, I am mechanical eye, I, a machine, show you the world as only I can see it…. My path leads to the creation of a fresh perception of the world I decipher in a new way a world unknown to you. — Dziga Vertov

Para McNeill, a noção de uma pretensa imparcialidade derivada do «olho mecânico» de Vertov é de particular relevância para os problemas enunciados por Bridle. Para Vertov é a câmara que vê, tornando possível um «olhar desencarnado», pós-humano. O cinema é assim entendido como uma manifestação de um cultura tornada apenas possível (visível) pela tecnologia, que é no fundo uma abordagem em tudo concordante com a proposta de Bridle. De certa maneira, o que acaba por ser surpreendente é a euforia com que Bridle fala sobre a nova estética, como se fosse o primeiro a dizer que o rei vai nu.

Ainda assim, e apesar do carácter revolucionário do termo (ideologia?) ser bastante subjectivo, é evidente o grau de transformação levado a cabo pelo digital. A revolução digital — é literalmente nestes termos que o Barbican se refere ao seu blockbuster de Verão — tem um impacto no mundo contemporâneo com consequências nem sempre ao alcance do pensamento crítico, tal é a rapidez de mudança e avanço tecnológico. É também nesse sentido, e apesar do discurso de Bridle ser incapaz de articular qualquer tipo de teoria significativa (Bridle limita-se a apontar na direcção de determinadas manifestações tecnológicas, ou irrupções do digital no «mundo real»), que estes momentos de contemplação do estado da tecnologia devem ser analisados com alguma atenção. Pela urgência do tema, e pela forma como o fazem.

Um dos grandes apologistas desta nova estética foi Bruce Sterling, escritor de ficção cientifica de grande relevância para o cyberpunk, que num longo artigo na Wired foi ao ponto de comparar Bridle com André Breton, figura tutelar do Surrealismo. O comentário foi em reacção à prestação do painel do SWSX, e foi provavelmente o comentário que maior visibilidade deu ao «movimento» (foi justamente através do post de Sterling que ouvi falar pela primeira vez do assunto). A retórica de Sterling é monumental:


The New Aesthetic isn’t a chromed android glistening with scifi robot-vision aura. The New Aesthetic is a rather old, and hearteningly traditional, story about a regional, generational cluster of creative people who are perceiving important stuff that other, older, and dumber people don’t get quite yet. It’s a typical avant-garde art movement that has arisen within a modern network society. That’s what is going on.



Passados dois anos, é discutível que «a nova estética» tenha mantido o momentum que a dada altura parecia promissor, ou revolucionário. Textos em português sobre o assunto são virtualmente inexistentes.

O post que Bridle escreveu o ano passado, em jeito de balanço, é também ele sintomático das tensões que afligiram a recepção crítica de algumas destas ideias. A reflexão é também emblemática por colocar em evidência a separação entre os campos da «ciência» e da «arte». O post é paradoxal: no que é essencial, acusa o mundo da arte de ser tecnologicamente iliterata e a a prova disso, no seu entender, terá sido a pouca tracção que o termo alcançou junto das Humanidades; por outro lado, e é com essa reflexão que abre o texto, Bridle afirma que não tinha muito bem a noção do alcance que a palavra «estética» tinha no que diz respeito à reflexão sobre arte. Ao mesmo tempo que faz acusações grosseiras e em larga medida desajustadas, Bridle acaba por “confessar” uma ignorância que acaba por ferir significativamente a aura de credibilidade que foi acumulando em tempos recentes.

A manifestação de produtos e sistemas oriundos do mundo digital na vida quotidiana está longe de ser um processo politicamente neutro e a atitude de vigilância perante novidades como o Google Glass ou o Oculus Rift (não confundir com fobia) será sempre um antídoto saudável à euforia de «fanboy» que aflige grande parte do discurso dos auto-proclamados entusiastas da tecnologia. Basta ver a rapidez com que uma corporação como o facebook jogou as unhas ao Oculus Rift, para se compreender o interesse económico que motiva grande parte das decisões e progressos científicos nos dias de hoje.