12 ou 13 (5/13)

Por José Terceiro

Meu QUINTO AMOR foi um cara alto com o sorriso mais lindo que já me foi dirigido. Eu sempre gostei de garotos maiores e vê-lo sorrindo de perto, do meu ângulo, era algo que valia a pena, seja ela qual fosse. Nos conhecemos quando uma amiga em comum achou que se nos apresentasse para um homem certo, deixaríamos de nos encontrar com os errados. Mas ainda tenho dúvidas se éramos “homens certos” naquela época.

Fomos a uma festa qualquer, dessas que são mero pretexto pra encher a cara. E foi exatamente o que fiz. Dançamos duas ou três músicas antes do álcool me empurrar para sua boca. Durante o resto da noite, estive preocupado demais em descobrir o seu gosto para me importar com quem quer que estivesse olhando, e apesar do seu receio, convencia-o lentamente a fazer o mesmo comigo. Quando nossos lábios e pescoços já não eram o bastante para nos dar prazer, pedimos um táxi.

Ele não sabia nada sobre sexo. Juro por Deus. Do tipo que espera uma iniciativa ou simplesmente deixa o momento morrer. Tive que lhe ensinar tudo — passo a passo — com a paciência de um jardineiro que percebe quando uma semente é promissora. Mas guiá-lo me agradava. Saber que fui o primeiro a roçar meu rosto nu em seu corpo me despertou alguma espécie de felicidade. Um tipo estranho e entorpecente de prazer. Depois disso, o comi diversas vezes até que lhe brotasse confiança o suficiente para me foder. Senti-lo finalmente dentro de mim recompensou-me com gozo por cada segundo de espera.

Com o tempo, tornou-se cada vez melhor na cama, até um nível que nunca imaginei que alguém pudesse alcançar. Seu segredo estava na sensibilidade perfeccionista com que tratava os detalhes. Quando me chupava, por exemplo, gostava de esfregar sua barba por fazer em minhas coxas, lentamente. Sabia que me faria estremecer e gozar com mais intensidade. Depois segurava meus pulsos contra o colchão e limpava com sede cada centímetro impuro do meu corpo.

Após pouco mais de um ano juntos, meu quarto já havia absorvido seu cheiro: um perfume barato que impregnava meus ossos. Ele adorava aquela merda e eu o odiava por isso, porque não havia muito mais o que se odiar. Mas nada era melhor do que abraçá-lo. Tinha uma forma única de me engolir com os braços que me fazia sentir minúsculo, protegido e, durante muito tempo, amado. Ali, dentro dele, não existiam problemas ou angústias, pois tudo ao meu redor era seu e tudo que eu era também.

Certa vez, no entanto, jantávamos juntos quando percebi seu olhar se perder persistentemente em um dos clientes do restaurante. O resto da nossa refeição foi muda e fria. Quando voltamos pra casa, arranquei sua gravata e o amarrei na cabeceira da cama, desabotoando sua camisa e beijando seu corpo como se carimbasse meu nome. Amei-o fervorosamente sem dizer uma palavra até sentir seus músculos se contraírem e me dar conta de que chorava em seu peito. Feri minha garganta em desuso quando, por fim, o perguntei se me amava. Me jurou que sim e o desamarrei a tempo dele enxugar meu rosto.

Não acho que tenha mentido. Ao menos não naquela noite. Mas bastou esgotar meu repertório no quarto para que ele descobrisse que poderia aprender mais com outro homem. O filho da puta se viciou em sexo de tal forma que eu já não podia mais saciá-lo. Criava desculpas para se ausentar, e quando eu dormia em sua casa, podia sentir o cheiro de suor e sêmen no lençol ainda úmido. Meu mundo ruía aos poucos, assim como a imagem da relação perfeita que tínhamos. Mas me recusava a deixá-lo e, por algum motivo, ele também permanecia ao meu lado.

Ao longo dos dias, seu olhar de desejo era substituído por um afeto morno. Um certo respeito para quem lhe mostrou o que o fazia feliz, mas que já não o proporcionava tal sentimento. Nossas transas se tornaram comuns. Nossos beijos: castos. E o seu abraço, era apenas mais um abraço. Foi só quando parou de sorrir para mim, que finalmente já não me restava nenhum motivo para amá-lo. Me tornei tão seco quanto ele, e talvez este fosse o seu objetivo. Olhar sua expressão triste de perto, do meu ângulo, era torturante. Tão amargo quanto ainda me é lembrar disso tudo.

Nunca superei o sorriso daquele imbecil. Uma lembrança cruel e intangível que parasita minha mente. Mas aprendi que as pessoas — todas elas — mudam. E não há nada que você possa fazer a não ser seguir o rastro de perfume barato que aqueles que valem a pena deixam para trás. Infelizmente, ele já não me valia mais nada. Assim como eu, sem a lembrança do que um dia ele foi.