Pé de Moleque

Por José Terceiro

No umbigo da cidade,
Corre-corre é dia a dia.
Gente só se bate-bate.
Que aperto! Ave Maria!

Mas não se escuta papo
Desse povo em romaria,
Só o barulho dos sapatos,
Que discutem em euforia.

Toque-toque, toque-toque!
Esbafora o Salto Alto.
“Veja só, como é que pode?
Que quentura esse asfalto”

Poque-poque, poque-poque!
Se apressa o Social.
“Sai da frente e não me toque!
Vou ao empresarial.”

Pleque-pleque, pleque-pleque!
Pensa o Chinelinho, murcho.
“Vou na Bob’s ou na Mc,
pra poder forrar meu bucho?”

Paco-paco, paco-paco!
Marcha brabo o Coturno.
“Que trabalho desgraçado!
Varo a noite no meu turno.”

Mas no meio das pessoas,
uma outra voz entoa.
Bem mais fraca, é verdade,
Sem nenhuma vaidade.

“Aiaiai! Que calor!”
Chora o Pé da menininha.
“Alguém pode, por favor,
me comprar pão e farinha?”

“Vê se arranja um emprego!”
Diz o Tênis, sem demora.
E a Sandália, diz com medo:
“Já é tarde! Olha a hora!”

E o dia vai passando,
logo, logo, passo a passo.
A cidade esvaziando,
Sem mais tanto estardalhaço.

Mas aquele Pé pretinho
de sujeira e de nascença,
continua lá, sozinho,
sem sapato e com doença.

Pois não tem aonde ir,
ninguém para discutir,
nem comida pra dormir,
até quando existir.

Se um dia você vir
a menina por aí,
mande um beijo e dê-lhe abraço,
uns trocados e um cadarço.

Porque eu tô atrasado.
Ando muito ocupado.
Tanto que nem mesmo fiz
deste fim, final feliz.