Collares, a história viva do trabalhismo

Prestes a completar 90 anos, ex-governador relembra sua trajetória e comenta o atual momento político do país e do Estado

Alceu de Deus Collares, um trabalhista convicto. Natural de Bagé, filho de quitandeiro, ex-vendedor de laranjas, advogado, primeiro prefeito e governador negro do Rio Grande do Sul, hoje prestes a completar 90 anos. Suas principais influências são Alberto Pasqualini, um dos grandes nomes do trabalhismo no mundo, Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Che Guevara.

Alceu Collares (Foto: José Francisco Júnior/ Beta Redação)

Considera-se um homem de esquerda, um filho da democracia, um revolucionário. Atualmente, dedica-se à literatura, preenche o seu tempo com o estudo, sua grande paixão. Um homem que se resume como alguém que buscou fazer o melhor sempre, reflexo de uma trajetória improvável, contestada, porém fora da curva. Apesar da idade, se mantém forte, vigoroso, intelectualmente intacto e espiritualizado. Kardecista (discípulo de Alan Kardec), Collares busca no espiritismo o conforto pela perda de um filho e relembra prenúncios da infância, quando a irmã incorporava alguém que lhe dizia: “Tu serás um grande político”. Acredita que o mundo, não só o Brasil, está em transformação constante, e que dias melhores virão.

Confira a entrevista da Beta Redação com um dos grandes nomes da política do Rio Grande do Sul.

Beta Redação — Como tudo começou, com a formação em Direito na UFRGS, em 1960, a aproximação com Leonel Brizola, o ingresso no antigo PTB e o início da vida pública como vereador em Porto Alegre, em 1964?
Collares — Em 1956 fiz o vestibular para Direito na UFRGS, com muito esforço, pois trabalhava nos Correios e Telégrafos como telegrafista, durante todo o dia, ainda morando em Bagé. Dedicava as noites aos estudos, dessa forma consegui me preparar e ser aprovado. A matrícula na faculdade só poderia ser efetivada com minha transferência para o Departamento de Correios e Telégrafos em Porto Alegre. Durante o curso foi preciso muita dedicação e perseverança, pois a rotina de pai, funcionário dos Correios e aluno de Direito da UFRGS era muito cansativa, mas sempre tive fé, paixão e dedicação. Nesse período, por necessidade financeira, para levar mais alguma coisa para a sobrevivência em casa, fui ser professor de português na Associação Cristã de Moços.
Em 1959, ingressei no Partido Trabalhista Brasileiro, o antigo PTB. Eu já tinha uma admiração pelo trabalhismo, pelo brizolismo, por essas ideias. E lia tudo que se referia ao assunto. O Brizola era prefeito de Porto Alegre, ainda muito jovem, e já tinha um poder de oratória fantástico. Dando aulas na ACM, nas sextas-feiras à noite, eu saía de lá e me dirigia até a Praça da Alfândega, onde ficava a sede do PTB, para ouvir os pronunciamentos do Brizola. Eram palestras belíssimas, com profundidade ideológica, concepções avançadíssimas. Ele era o revolucionário da América. No terceiro ano de Direito, juntamente com Cícero Sampaio e Wilton Araújo, já advogados, mais três colegas do curso, alugamos um conjunto comercial, localizado na Borges de Medeiros, e começamos a trabalhar.
Em 1960, terminei o curso de Direito. No ano seguinte, fui anonimamente assistir em frente ao Palácio Piratini, junto com uma multidão, aos pronunciamentos do Movimento pela Legalidade, embora acompanhasse de perto todo o trabalho de Leonel Brizola. Nessa época, ainda não o conhecia pessoalmente. Fui eleito vereador em Porto Alegre sem conhecer Leonel Brizola. Em 1966, eu estava no escritório trabalhando quando recebi a visita do Guaragña, companheiro de partido e muito amigo do Brizola. Ele me convidou para tomar um café, saímos do escritório e fomos até o Café Rihan, que ficava na Rua da Praia, e quando estávamos tomando nosso café chegou o Baiano, figura popular na época que vendia bilhetes da Loteria Federal, e me ofereceu o bilhete de número 25302, afirmando que eu iria ficar rico. Acabei comprando.
Voltei ao escritório e no final da tarde o Guaragña retornou ao meu escritório com a notícia que eu havia ganhado o prêmio. Achei que fosse uma brincadeira, saímos do escritório e fomos em uma lotérica e lá estava o resultado, 25302. Incrédulo, fiz questão de ir a uma outra para confirmar o número, lá chegando confirmei o prêmio. Fomos na agência do Banco do Brasil do 4º Distrito, localizada na Farrapos, retirei o prêmio, dei o valor de dois meses de salário para o Guaragña. Para o Baiano, dei o valor que ele precisava para terminar o telhado da casinha que ele estava construindo. Então, o Guaragña me convidou para ir visitar o Brizola e uns dias depois fomos para o Uruguai, onde o Brizola estava exilado. Ficamos na fazenda dele por uma semana. Tivemos a oportunidade de ter longas conversas sobre política e construímos uma amizade que durou toda a vida.
Beta Redação — Com a ditadura e a extinção dos partidos políticos, iniciaste uma trajetória de destaque no MDB, sendo eleito por três mandatos consecutivos como deputado federal, sendo o mais votado do Estado em duas oportunidades. Como foi a relação de oposição com os militares e a que se atribui tamanha popularidade na década de 1970?
Collares — Trabalho, trabalho e trabalho, com enorme vontade de atender aos anseios populares. Dedicava o meu tempo ao estudo e contato direto com sindicatos, entidades sociais e sistemático atendimento das demandas que recebia. Acredito que a coragem de enfrentar problemas como o do salário mínimo, ocasião em que levei uma cesta básica para o Ministro do Trabalho passar um mês com a família apenas com o que o trabalhador recebia. Também fui responsável pelo projeto da Lei do Inquilinato e tantos outros que foram amplamente divulgados, pois nessa época tínhamos apenas santinhos e discurso para convencer o eleitor. Fui um congressista amplamente reconhecido pela opinião pública da época.
Beta Redação — Com o fim do bipartidarismo e a frustração da perda da legenda do PTB para Ivete Vargas, surge o Partido Democrático Trabalhista, do qual foste uma das principais lideranças. Como foi essa reconstrução do movimento trabalhista no RS e no Brasil?
Collares — Com a redemocratização, chega o Brizola de retorno ao Brasil, com a sigla PTB, mas nós chegamos atrasados com o pedido de registro no Tribunal Superior Eleitoral, e por questão de minutos perdemos a sigla para a Ivete Vargas, sobrinha neta de Getúlio Vargas. Nunca vou esquecer, naquele dia Brizola chorou. Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema sobre aquele episódio: “Vi um homem chorar porque lhe negaram o direito de usar três letras do alfabeto para fins políticos. Vi uma mulher beber champagne porque lhe deram esse direito negado ao outro. Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritas as três letras, que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas, na impossibilidade de rasgarem suas próprias amadas”.
Nós tínhamos um grupo grande de brizolistas aqui no Rio Grande. Quando o Brizola perde a sigla PTB para a Ivete Vargas surge a necessidade de criar uma nova sigla. Nós esperamos que ele voltasse de Portugal para fundar o PDT. Na época, eu era vice-líder da bancada do PTB. O Brizola voltou com a sigla PTND, Partido Trabalhista Nacional Democrático, já estava decidido por esta sigla, mas nesse momento, eu, como líder da bancada, tinha a sugestão de PTD, Partido Trabalhista Democrático. Após o debate com os companheiros do partido, ficou decidido que ficaria a sigla de três letras, mas um dos companheiros alertou que a sigla PTD, com uma única pincelada de tinta nos cartazes, viraria PTB. Então decidimos mudar a ordem das letras e criar o PDT, Partido Democrático Trabalhista.
Beta Redação — Qual a importância de Brizola na sua vida pública e privada?
Collares — Foi um dos meus grandes líderes, na verdade o único com quem tive a grande honra de conviver para poder conhecer em profundidade um extraordinário pensamento político. Com Brizola, tive convivência pessoal, costumávamos brincar que nossa amizade era tão grande que tínhamos escolhido esposas com o mesmo nome.
Beta Redação — Em 1986, tomou posse como o primeiro prefeito negro de Porto Alegre. O que isso representou na época e qual era o cenário da Capital em meados dos anos 1980?
Collares — Foi a primeira eleição direta depois da ditadura. Porto Alegre vinha sendo administrada por prefeitos nomeados pela ditadura. Na primeira eleição direta para a escolha do administrador da cidade, com mandato de apenas três anos, tive a sorte de ser eleito pelo voto popular. Deixamos uma administração avançada, fruto do esforço de todos os companheiros com quem tive a honra de administrar a cidade. Não fui somente o primeiro prefeito negro de Porto Alegre, mas de todos os municípios gaúchos. Sinto um imenso orgulho em ser filho de um negro com uma bugra.
Beta Redação — No auge da carreira política, em 1991, o senhor assumiu o governo do Estado, sendo eleito com 60% dos votos dos gaúchos. Também tornou-se o primeiro governador negro do RS. Seguem algumas questões sobre o Rio Grande do Sul na época (1991–1994): Por que extinguir a Secretaria de Segurança Pública?
Collares — Foi a forma que encontrei de aproximar do governo as demandas da Polícia Civil e da Brigada Militar. Extinguindo a Secretaria de Segurança, passei a receber pessoalmente o chefe da Polícia Civil e o comandante da Brigada Militar. A Secretaria de Justiça passou a ser responsável pelo sistema prisional, onde o grande companheiro Geraldo Gama deixou, sem dúvida alguma, realizações importantes, chegando a ter mais de 80% dos detentos trabalhando. Nos presídios do interior havia hortas onde os detentos trabalhavam. Assim reduziam sua pena, eram remunerados pelo trabalho, podendo ajudar as suas famílias, melhoravam sua autoestima, como pessoa, cidadão, e ao sair do presídio estavam ressocializados.
Beta Redação — A moratória em 1991 já era um sinal de que o Estado estava deficitário?
Collares — Sim, mas os trabalhistas restauraram o sistema financeiro estadual. No final do governo, deixei as finanças saneadas, tanto que os dados da FEEE (Fundação Estadual de Economia e Estatística) concluem que tivemos o maior PIB de todos os tempos, com os seguintes valores 91/94: PIB de 23,40%. Se compararmos os outros governos aos valores, são alarmantes. Governo Jair Soares, 14%; Olívio Dutra, 12%; Pedro Simon, Antônio Britto e Germano Rigotto, somados todos os governos, 5%.
Beta Redação — Os indicadores econômicos na época atingiram números recordes. Na tua opinião, por que a economia gaúcha desacelerou nos últimos anos?
Collares — Diversos fatores, como a crise econômica globalizada que atingiu a todos os países e alguns fatores da política interna também foram decisivos em momentos de crise. Além de muita competência e vontade política, é necessário que o governante tenha criatividade e pulso firme, pois sem isso fatalmente a economia irá desacelerar.
Beta Redação — A ideia de revolucionar a educação, a partir da implantação dos CIEPs, tal qual na prefeitura de Porto Alegre, e também a implantação do calendário rotativo foi o grande calcanhar de Aquiles da sua gestão? Te consideras injustiçado pelo CPERS na época?
Collares — Não, o CPERS é um sindicato que tem como foco o professor, salário, condições de trabalho, e manteve uma política de oposição ao governo. Nosso foco era o aluno como centro do processo, envolvendo vagas, infraestrutura física, material e professores com salários justos, tanto que oferecemos um Plano de Carreira igual ao que havíamos deixado em Porto Alegre e em um plebiscito foi rejeitado.
A implantação dos CIEPs e o Calendário Rotativo foram desenvolvidos e implantados pela Neuza Canabarro, com extrema competência e visão do futuro. Nos dois projetos temos o aproveitamento total dos recursos físicos e humanos em prol das nossas crianças e jovens. Nos CIEPs, as crianças permanecem em turno integral, entrando pela manhã e saindo ao final da tarde. Recebendo educação de qualidade, atividades esportivas, atividades lúdicas e de lazer, além de atendimento médico/odontológico e cinco refeições/dia.
O Calendário Rotativo, sem a necessidade de construir novas escolas, aumenta a capacidade em 50%. Conseguimos ter um incremento de matrículas de 436 mil alunos a mais, em quatro anos, com as escolas funcionando durante todos os meses do ano, inclusive nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. As manifestações contrárias são próprias do “novo”, mas o benefício gerado pelo bem dos nossos alunos foi tão espetacular que todo o resto perde a razão de ser.
Beta Redação — Fale um pouco sobre a relação com a sua parceira de vida, Neuza Canabarro.
Collares — Temos 33 anos de caminhada, sempre de mãos dadas, olhando com muita fé no amanhã. Nos conhecemos no início dos anos 1980, juntos trabalhamos pela formação do PDT, acreditando na bandeira do trabalhismo e da educação. Sempre fomos apaixonados pelas nossas bandeiras e nos apaixonamos um pelo outro. Temos uma admiração mútua pela forma como encaramos a vida e a vida tem sido generosa conosco.
Beta Redação — Depois de alguns anos sem ocupar cargos eletivos, retornou ao Congresso Nacional por mais dois mandatos como deputado federal (1998/2002). Quais as principais diferenças entre Brasília dos anos 1970 e Brasília do início dos anos 2000? Houve uma desilusão com a política nesse segundo período?
Collares — A Câmara dos Deputados dos anos 1970 era marcada por discursos ideológicos mais profundos, os deputados de esquerda e direita defendiam seus pontos de vista com mais fervor. Nos anos 2000, a forma de governar era a da coalizão política, onde em nome da governabilidade as questões ideológicas, não sempre e não por todos os deputados, mas muitas vezes, era relegada ao segundo plano.
Beta Redação — Em 1998, apoiaste Olívio Dutra ao governo do Estado e depois foste contrário à participação do PDT no governo petista. Quais foram as motivações para esses movimentos políticos?
Collares — Eu sempre fui um homem de esquerda, sempre apoiei os candidatos que estavam do lado dos trabalhadores, Assim apoiei Olívio, pois era o candidato de esquerda, mas isso não significava participar do governo com ocupação de cargos.
Beta Redação — Apoiaste Dilma Rousseff, embora no PT, à presidência da República. Ela foi injustiçada pela História? Como é a tua relação com Dilma? Ela foi uma colaboradora estratégica para a tua gestão como prefeito de Porto Alegre e como governador do Estado?
Collares — Dilma foi companheira de partido e, quando candidata, mais uma vez optamos pela esquerda, dando nosso apoio para sua eleição. Foi vítima de uma circunstância, embora seja uma excelente pessoa, diferenciada.
Beta Redação — O impeachment de Dilma, na tua opinião, foi um golpe de estado?
Collares — Estando previsto na Constituição e tendo observado todos os passos legais, não podemos considerar que tenha sido golpe, mas que ela tenha sido vítima de uma engrenagem para a manutenção do poder.
Beta Redação — A Lava-jato é um divisor de águas na relação entre os setores público e privado?
Collares — Acredito que pela primeira vez estamos punido o corrupto e o corruptor, logo é uma nova página na vida da Nação.
Beta Redação — Qual a tua avaliação sobre o início de mandato de Nelson Marchezan Jr. (PSDB) na prefeitura de Porto Alegre?
Collares — Cem dias é pouco tempo para avaliar uma administração. Entendemos que o prefeito quer fazer o melhor, mesmo que por caminhos diferentes. Esperamos que tenha sucesso para o bem da população.
Beta Redação — Qual é a sua avaliação sobre o governo de José Ivo Sartori (PMDB)?
Collares — O governador enfrenta dificuldades que vieram se acumulando ao longo dos anos. Lamentamos a situação de calamidade das finanças e esperamos que realmente alcance o saneamento que vislumbra.
Beta Redação — Prestes a completar 90 anos, ao lembrar o que projetava há mais de meio século na vida pública e tudo o que construiu como homem público, qual o principal legado de Alceu de Deus Collares?
Collares — O trabalhismo no Brasil realizou as maiores obras públicas em benefício da Pátria. Tivemos ao longo dessa jornada nomes como o de Getúlio Vargas, Jango, Leonel Brizola, Alberto Pasqualini e Abdias do Nascimento. O principal legado foi a consciência do dever cumprido quando no exercício do poder.

Collares não quis se pronunciar sobre o governo Michel Temer (PMDB), as reformas trabalhista e previdenciária e sobre o futuro do PDT .

Abaixo, a Beta Redação reproduz um poema de autoria do ex-governador , “O Voto e o Pão”, que dá título à biografia de Collares publicada por Celina Canabarro Carvalho em 2015.

O Voto e o Pão

(Alceu Collares)

Mandam no teu destino

Mas ele é teu meu irmão

Ergue teus braços finos

E acaba com a exploração

FAZ A TUA REVOLUÇÃO!

O voto é a tua única arma

Põe teu voto na mão

Tua casa está caindo

Pouca comida tem no fogão

Tua mulher está malvestida

Teu filho de pé no chão

FAZ A TUA REVOLUÇÃO!

O voto é a tua única arma

Põe teu voto na mão

Escravismo, feudalismo,

Capitalismo,

Socialismo, tudo em vão

Vai milênio, vem milênio

E continuas na escravidão

FAZ A TUA REVOLUÇÃO!

O voto é a tua única arma

Põe teu voto na mão

Cristianismo, judaísmo,

Hinduísmo, todos querem a tua salvação

Tu rezas noite e dia

Ninguém ouve a tua oração

FAZ A TUA REVOLUÇÃO!

O voto é a tua única arma

Põe teu voto na mão

Contruíste com teu trabalho

Toda a riqueza desta nação

Por justiça tens o direito

Vai pegar o teu quinhão

FAZ A TUA REVOLUÇÃO!

O voto é a tua única arma

Põe teu voto na mão

A liberdade é o pão do espírito

Do corpo a liberdade é o pão

Desperta para a luta amigo

FAZ A TUA REVOLUÇÃO!

O voto é a tua única arma

Põe teu voto na mão.

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