Nós somos os otários de Washingtons Olivettos

Difícil criticar Washington Olivetto.

Alguma coisa ele deve ter aprendido em mais de 40 anos de publicidade.

Tem acesso ilimitado à informação de valor, aliado a uma histórica sensibilidade de captar o desejo da sociedade e usar em favor dos seus clientes.

Essa entrevista à BBC é um grito de socorro.

Deve estar muito difícil para alguém que produziu as peças mais memoráveis da história da publicidade moderna, considerado uma das personalidades mais criativas dos séculos XX e XI, sobreviver ao tsnami da Internet, essa onda rápida, abundante e mortal.

Empoderamento feminino não se divulga, se pratica, da mesma forma que autenticidade não se prega, não se auto promove, não prescreve, apenas se é.

Quando ele pensa em explicar que virou cafona usar temas como “ pensar fora da caixa”, “desconstruir”, “quebra de paradigma” e “empoderamento feminino”, a onda já passou 10 vezes. Já é cafona falar que é cafona, pq os autênticos já estão surfando outra sem precisar explicar nada.

A confusão de criticar clichês com idades tão diferentes me deixou intrigada, “quebrar paradigmas” usava-se há 20 anos, já exauriu faz tempo. Desconstruir e empoderamento de qualquer espécie estão saindo de linha agora. Fiquei assustada que alguém do calibre de WO esteja enferrujando no que ele fez de melhor a vida inteira, identificar público. A quem se destina essa entrevista?

Ou então estamos diante daquela preguiça prescritiva de criticar um comportamento para louvar o seu próprio feito, que na entrevista ele faz várias vezes, imagino que deva estar difícil manter o contrato da L’Oreal do ano passado, igual cabeleireiro que mete o pau nas luzes do cabelo que ele não fez, muitas vezes o concorrente conseguiu o mesmo efeito por menos dinheiro. Seria de “baixíssimo nível intelectual” esse comportamento, duvido.

Como eu acredito na capacidade intelectual de WO, acho mais provável que ele esteja lutando para se manter no jogo, tal qual todos os comunicadores acima dos 40 anos. Uma possibilidade de explicação para essa cagada fora da caixa dessa entrevista é ele já ter identificado há tempos que as ondas passam muito mais rápido agora do que há 10 anos e mais: que as agências estão podres, menos dinheiro, muitas propinas, um centro de formação de frustrados que além disso, trabalham 12 horas/dia em algo que aprendem a detestar. E podemos supor a dificuldade de alguém que está acostumado a criar mensagens solitariamente ter de aprender a lidar com a democratização e descentralização do conteúdo, deve ser bem foda. Com essa entrevista ele tenta produzir o veneno e o antídoto. Ele já deve estar anos luz dessa bobalhice das ideias clichês e fica jogando o osso pra despistar, ele sabe muito bem o impacto que vai causar quando lança essas merdas que ele fala. Curioso, essa comparação da mulher com um carro e a crítica ao politicamente correto estão no texto, mas pelo o que eu vi, nada disso virou produção dele nos últimos anos. Dá trabalho se atualizar, mas é o único jeito. Nessa entrevista eu entendi que ele aponta problemas se vendendo como a única solução, respaldado no conservadorismo da sociedade brasileira, é isso que ele faz.

Logo que li essa entrevista sofrível, pensei na resposta de Cher aos conselhos de sua mãe de sossegar o rabo e arrumar um cara rico pra casar: “mãe, eu sou o cara da Porsche”. Daí refleti que na verdade, assim, ser o cara da Porsche PORSCHE mesmo, a Cher é um caso isolado e o WO sabe disso. O exemplo que ele deu é machista pra caralho, mas é adequado ao público. Daí vem a minha certeza de que WO não é nada essencialmente. Ele é o que quer que seja adequado para os seus anunciantes, a mesma pessoa que compara uma mulher a um carro dá lição de moral sobre como tornar grande e verdadeira uma campanha com uma transgênera. Para WO e a maioria dos publicitários, é impossível fazer publicidade e ter um papel social autoral ou coerente. Quando se lida com gente com essas habilidades, é bom lembrar que os tolos seremos sempre nós.