Velocidade do Feminismo (V) = Variação da Consciência (D) / Variação do Tempo (T)

Não disfarço o desprezo que tenho pela obviedade da observação de que hoje vivemos tempos muito menos machistas que outras épocas. Claro que vivemos. Eu vivo um tempo muito menos machista que há 50 anos, que há 200 anos, que há 500 anos. Não consigo evitar pensar nessa frase como a justificativa perfeita para coisas zoadas que ainda acontecem e que a gente espera que um dia se resolvam, ou como um conforto para o nosso desencaixe de percepção, um acalento para o cansaço, uma demonstração de ignorância ou, mais perversamente, uma má vontade completa de entendimento dos privilégios envolvidos. É uma observação frágil.

Muitos comportamentos mudaram rapidamente nas últimas décadas, mas o nosso “eu” parece não acompanhar essa evolução na mesma velocidade. O comportamento parece estar chegando antes, plantado sentado a espera da anuência da consciência, ou da autorização do subconsciente, para os mais barrocos. A sociedade passou a tolerar a divorciada, a que estuda, a que trabalha fora, a mãe solteira, a que fala em público, essas pessoas existem, são livres, vejam só, como evoluiu. Porém, continua a julgar sem parar, somando a preconceitos de séculos, outros novos e modernos, ao menor sinal de mau funcionamento dessa realidade.

Suspeito que a velocidade do avanço da igualdade de gênero e da erradicação de todo tipo de preconceito, inclusive das suas imagens inconscientes e narrativas, é lenta porque depende da quantidade de consciência no tempo. E esse tempo parece ser o próprio tempo de projeções arquetípicas, ele é longo, grosso, mais ou menos estático. Quanto maior o volume de pensamento crítico, maior é a velocidade da evolução, o que equivale dizer que mais vale a quantidade de mulheres e homens emancipados do que a de inconformados.

Sempre que analiso a história das conquistas femininas ao longo do relógio, percebo muitos pontos cegos a respeito do seu mecanismo. É difícil saber quais foram as motivações nas determinadas épocas, quais foram as conexões feitas. Olhando assim com a curiosidade de quem se interessa pela velocidade, percebo que esses avanços foram promovidos de duas formas não excludentes: por necessidades econômicas ou por mulheres que ousaram em grupo ou individualmente.

A entrada da mulher no mercado trabalho fora de casa, por exemplo, claramente é motor econômico e por isso se acomodou rápido em termos práticos. A mulher foi bem aceita no contexto corporativo, lógico, nunca seria diferente. Hoje só discutimos os “pequenos detalhes” de equiparação salarial, culpa e cobrança, jornada dupla e assédio moral e sexual. O avanço é tolerado, quiçá desejado, mas as texturas permanecem.

O direito ao voto e a pílula, parecem motivados por mulheres que desejaram quebrar esses tabus e que tinham condições para isso. A pílula foi financiada por uma mulher milionária e uma feminista. O direito ao voto foi gerido por um grupo de britânicas bem apoiadas socialmente e por uma indiana filha de um marajá. Obviamente se voltássemos ao emocionar de cada período, iríamos encontrar também motivações econômicas para deixar a coisa fluir. Depois que o movimento anda, fica difícil definir com precisão as forças que o influenciaram, tendo a crer que depois de engrenar, o interesse econômico sobrepõe tudo.

As mulheres ainda têm baixíssima representatividade na política e assistem questões femininas sendo decididas por homens. A pílula libertou sexualmente e deu poder para adiar a decisão dos filhos que antes chegavam junto com a vida sexual. Mas a pressão social pela maternidade é enorme, enquanto lhe é negado o seu direito irrestrito de decisão sobre gerir, somado à fiscalização moral do corpo. Pode, mas não pode muito, porque é proibido ou mal visto. Tudo isso está bem firme.

Nessa altura, me encontro um pouco confusa para concluir essas duas suposições que me surgiram. A nossa consciência e o nosso subconsciente são ainda machistas e preconceituosos e expandem mais lentamente que as conquistas práticas e esses avanços dependem necessariamente de autossuficiência.

Concluo que a nossa consciência poderá se ampliar mais rapidamente quanto mais emancipados formos. As mulheres que desejaram algo diferente tinham, acima de tudo, autossustentação, sem ela, a reflexão não chega, nada chega.

Portanto, se falta gestão do pensamento para mulheres e homens ampliarem as suas consciências, falta antes a autonomia. Numa sociedade amalgamada por valores cada vez mais homogêneos, as pessoas estão se concentrando em dois pólos: resolvendo suas questões urgentes de subsistência ou buscando o que é valorizado em termos de retenção de recursos. O povo todo está se amontoando nesses dois extremos, e daí, o que vai sobrando para a reflexão é um espasmo aqui e ali, um caminho percorrido vagarosamente.