Certeza de nada

Na maioria do tempo eu me acho um completo idiota mas às vezes eu tenho certeza. Eu mergulhei nos seus olhos antes de te beijar a primeira vez. Eles eram pretos como o mar a noite. E quando você sugou minha língua, primeiro foi tímida, depois explorou toda as partes da minha boca. Eu senti sua língua tentando tocar o ferro frio do meu aparelho. Achei engraçado mais não ri. Você parecia sem ar. E eu não sei se era de nervoso ou se eu beijava bem. Eu estava anestesiado. Era como tomar coca cola gelada num dia de verão. Foi como a primeira vez que eu tomei açaí. Senti todos os meus neurônios brilhando como estrelas numa noite de verão. Segurei seus cachos pretos enquanto você arqueava as costas e se levantava nas pontas dos pés para alcançar minha boca outra vez. Dessa vez abri os olhos primeiro que você. Seu rosto estava vermelho e lindo como a bandeira comunista. Eu só conseguia pensar: além de linda ela é esquerdista. Um sorriso tão branco e com uma voz que saía timidamente como se fizesse força para sair da zona de conforto. Me senti extremamente honrado por ela ter saído da sua zona de conforto comigo. É muito engraçado quando você percebe que mexeu com alguém de verdade. Sinto o medo da responsabilidade ao mesmo tempo deixo de me sentir de todo só no mundo. De noite ao sair da sorveteria andamos de mãos dadas pela avenida. Eu segurava sua mão que tinha as unhas pintadas de vermelho como se fosse a bendita bandeira comunista. Enquanto no meu coração tocava o hino dos apaixonadistas. Dos gadistas d+. Dos banhistas. Maquinistas. Surrealistas. Dos mentirosos. Dos que imaginam e nada fazem. O hino das possibilidades que um dia poderiam acontecer. Eu sou um completo idiota, eu sei. E cada vez que você chegar perto de mim e dizer meu nome com sua voz levemente falhada eu vou ter certeza. Certeza de nada.